Crônicas

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 12

O destino

Muito se discute sobre o destino.

Se é ou não realizado profissionalmente, hão de dizer que é obra do destino; se é feliz ou não no casamento, é fruto do destino.

É uma concepção antiga e muito discutível presente desde a mitologia grega, percorrendo séculos e estudada por várias correntes filosóficas.

Como explicar o destino!!!

No final da década de sessenta, início de setenta, Adolfo, ainda imberbe, costumava, na companhia de um ou dois colegas do pensionato, frequentar algumas boates localizadas no centro da cidade, antes do horário comercial. Ainda não tinha a idade permitida para visitar locais proibidos.

Entre sete e oito horas adentrava naqueles “palacetes dos desejos”. O salão ainda completamente vazio e sem um guarda para impedi-lo passeava pelos corredores conhecendo a intimidade daquelas damas, nuas ou seminuas, umas retocando os cabelos, outras perfumando-se para, no salão, receber os clientes da madrugada.

De tantas idas passou a frequentar exclusivamente uma delas, cujo nome direi ao final desta crônica. Conheceu por vezes a sua intimidade.

Os anos voaram rápido como a águia à procura da sua presa.

Quinze ou mais anos depois, Adolfo caminhava apressadamente pelo centro da cidade, abalroando nas pessoas e desculpando-se de pedintes.

Ao chão da calçada avistou uma senhora maltrapilha com uma perna estirada, a outra recolhida e com uma pequena bacia sobre o colo aguardava uma caridade.

Olhou-a e ela o fitou. Diminui as passadas, pois aquele olhar não lhe era estranho.

Parou, olhou para trás e ela continuava com o seu olhar fixo.

Voltou vagarosamente chocado e curioso. Parou à sua frente e sem esboçar uma palavra, pois não lhe vinha, ela se antecipou:

__ Tudo bem?

__ Tudo bem.

Nós nos conhecemos de onde? Indagou Adolfo.

Há... faz tanto tempo!  disse ela.

Adolfo apurou a vista e a memória reconhecendo-a. Neste momento as palavras entraram em ebulição diante daquele corpo, outrora sedento, hoje maltrapilho.

Os seus olhos sempre fixos aos meus indagou:

__ Qual o seu nome?

__ Adolfo.

__ E o seu;

__ Helena.

__ Querida Helena: lamento vê-la neste estado.

__ Não se preocupe Adolfo. É o DESTINO!

Retirou do bolso o pouco dinheiro que lhe havia e deu, pela primeira vez, a essa pessoa que nunca lhe cobrou, outrora, pelas horas de prazer.

Abílio. 4 de abril de 2021

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