Crônicas

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 12

 

 

 

Meu primeiro e último CD

Há anos, vinte, aproximadamente, caminhando pela calçada da Washington Soares, próximo ao Iguatemi, li em uma placa: “Grave o seu CD”. Segui, e, gradativamente fui diminuindo as passadas com aquelas palavras na cabeça “grave o seu cd”.

A curiosidade e a pretensão me fizeram retornar. Adentrei no estabelecimento e indaguei à recepcionista:

_ Senhorita, o que significa “grave o seu CD”?

_ Um momento, Senhor, vou chamar o diretor de produção para atendê-lo. (Já estava me sentindo artista).

Depois das apresentações, repeti:

_ “Diretor de produção”, o que significa “Grave o seu cd”?

_ Como se chama?

_ Abílio

_ Senhor Abílio, é fácil: você escolhe a coletânea das músicas que pretende gravar, em seguida faremos um teste para identificar a tonalidade da sua voz, e, logo após, estaremos aptos para dar início as gravações.

Pode ser agora? Indaguei.

_ Agora?

_ Sim.

_ Quais as músicas o Senhor pretende gravar?

Deixe-me ver o catálogo. Respondi.

Queria gravar 12 faixas; mas pesquisei, pesquisei, ficaram em onze.

_ Pronto. São essas.

_ Faça o favor de me seguir.

De repente estávamos em um pequeno estúdio, gelado e seco.

Depois de identificado a tonalidade da minha voz, ficou o “diretor de produção” por trás de uma parede de vidro, fones no ouvido, enquanto eu, à sua frente, num cubículo de 2 x 2m. (Frise-se que o “fi duma é..” não me ofereceu, sequer, um copo d’água para aliviar a secura)

Quando estiver pronto dê-me o sinal de positivo. Disse ele.

_ Ok, pode começar (esperar o quê!)

Gravei as onze faixas, como diz o adágio popular “como cantiga de grilo”, sem parar. Na metade das gravações já me encontrava sem forças e sem fôlego. As duas últimas faixas, então, esbaforido, percebi que não tinha a mínima condição de gravar a décima segunda, como pretendia. Mas concluí.

O “diretor de produção”, como é de praxe, parabenizou a minha performance, pedindo-me uma foto para postar na capa do CD.

Surpreso indaguei: Tem capa?

_ Sim.

_ Mas eu não trago comigo uma foto.

_ Eu bato. (Era tudo muito prático)

_ Qual o nome do CD?

“Vixe”: pensei, pensei.. “Abílio, cantando para os amigos”.

_ Ok. Ótimo nome. (Sempre usando a técnica dos elogios falsos)

_ Quando passo para pegar o CD?

_ O Senhor leva agora.

_ Agora?

_ Aguarde 30 minutos na recepção. (E eu achava que duraria dias!)

A verdade é que entrei curioso e despropositadamente naquele estabelecimento e saí cantor, orgulhoso e faceiro com o meu primeiro e último CD debaixo do braço.

A minha legião de fãs, a esposa e filhos, me cobram, ainda hoje, pelo segundo.

Tá bom.

Abílio, 29 de agosto de 2020.

Mais artigos do Autor.