Crônicas

 

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 12

Acidente bizarro

            Não é minha exclusividade, mas acredito que a maioria das pessoas sofreram, nas suas vidas, acidentes pequenos ou de grandes proporções.

            Comigo não foi diferente. Vários incidentes experimentei quando, ainda muito jovem, tinha uma moto como parceira. Num deles tive uma leve lesão na oitava e nona vértebra; no outro, por pouco não perdi o olho. A lente alojou-se na pálpebra, a um centímetro do olho esquerdo. (Ainda não havia a Lei Seca)

            O mais grave, todavia, ocorreu em Mato Grosso, quando na escuridão da noite, ao retornarmos de uma operação policial no distrito de Paranaíta, em plena selva amazônica, no município de Alta Floresta, a viatura dirigida por um colega desgovernou-se e caiu na entrada de uma pinguela, onde serpenteava um largo rio. Uma pequena e milagrosa árvore surgida da ribanceira conteve um acidente sem proporções.

Após sairmos vagarosamente do carro capotado, sentindo enormes dores e, ensanguentados, ficamos por horas, ouvindo ruídos e uivos incessantes, numa escuridão apavorante.

Entretanto, de todos os acidentes que me ocorreram, um foi bastante bizarro. Aconteceu já adulto, lá pelos anos 90, na aprazível praia das Fleixeiras, quando fomos convidados por um casal amigo a passar o final de semana naquele aprazível lugar.

Domingo, ao acordar, olhei para um quadriciclo que me provocava e fui arriscar dá umas voltas pela praia. Praia linda, deserta. Saí faceiro, vagarosamente, apreciando dunas, coqueirais e enseadas. De repente, ouço o latido de um mal-humorado cachorro. Pelo retrovisor percebo ser eu a vítima daquele animal. Sem a devida prática na condução  acelero desesperadamente procurando distanciar-me daquele infeliz. Mas não era o suficiente, a sua aproximação era questão de segundos. Amedrontado, desprezo o horizonte e fico a acompanhar a aproximação célere do animal. Já bem próximo, pega não pega, quase no calcanhar, percebi a sua ira demonstrada pelos dentes e focinho raivosos.

Aflito, levanto as duas pernas à altura do guidão, quando, de repente, me deparo, à frente, com uma jangada. Sem tempo e sem a devida perícia, aconteceu o esperado: Voei por sobre a jangada, o quadriciclo arrebentado de pernas para o ar, enquanto o diabo do cachorro desapareceu. Talvez às gargalhadas.

Oh, aflição!

Abílio, 11 out 2018

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