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José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira nº 34

MÚSICA NO IPU

            É notório que a cidade de Ipu é pródiga no que concerne as artes de modo geral e a música de modo especial. Muitos foram e são os ipuenses que se sobressaíram e sobressaem no campo musical. Uma plêiade de excelentes músicos, compositores, intérpretes. A arte se traduz por dom individual ou aquisição de técnica, mas talento é determinante ao artista.

            Muitos são os ipuenses que poder-se-ia citar pela aptidão e talento musical. Temos cinco patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes que se destacaram no campo musical como instrumentistas de alçada: Thomas de Aquino Correa (1861/1942), Maria de Lourdes Magalhães Ximenes (1874/1955), Ernestina da Natividade Magalhães (1876/1962), Maria Valderez Soares de Paiva (1922/2000) e José Cecílio do Vale (1900/1996). Citamos também os acadêmicos Emmanuel Teófilo Furtado Filho, Maria das Graças Aires Martins, Francisco de Assis Martins, Ana Lucila Aires Martins e Henrique Augusto Pereira Pontes, músicos, instrumentistas cantoras talentosas que seguem os passos dos patronos. Cinco patronos e cinco acadêmicos que engrandecem o campo da música no sodalício e em Ipu.

            Citar ipuenses que se destacam ou se destacaram na música não é tarefa fácil de vez que são muitos. Wilson Lopes, Jorge Nobre, Alencar Soares, Diassis Martins, Carlos Gil, Rogério Aires Martins (também acadêmico correspondente da Academia, em Mossoró, RN), Helen Soares dentre tantos outros.  

            A Banda de Música Maestro Lázaro Freire do Ipu é declara como destacada relevância histórico-cultural do Estado do Ceará, reconhecido pela Lei Estadual Nº 17.107 de 14 de novembro de 2019. Fundada a 137 anos, foi fundada em 1884 por ação do então vigário Padre Francisco Corrêa de Carvalho e Silva (o padre morreu em 1881, verificar esta informação). A banda foi criada para atender as festividades católicas tendo como primeiro regente Benedito Alves de Mendonça. Posteriormente regeram a banda o maestro Thomaz de Aquino Corrêa, Dr. Apolônio de Berga Basto Bandeira, Joaquim Nonato do Vale, Mestre João Louro, Mestre Marçal, Maestro Lázaro Freire e atualmente Jorge Nobre.  

            Destes músicos de alçada, pelo menos dois deles ipuenses, muito devemos pelo zelo, esmero e arte. Deveríamos pelo menos sabermos quem foram enquanto pessoas, pouco pesquisamos, pouco registramos, pouco guardamos. Thomas e Lázaro. Lázaro Freire da Silva ipuense nascido em 1938, menino prodígio foi descoberto ou iniciado pelo Mestre Marçal, tamborilense, como muito outros que migraram para o Ipu. Com quem Mestre Marçal aprendeu a arte da música. Lázaro, além do dom certamente recebeu os ensinamentos de Marçal. Homens de dom. Dom da música. Por estes tempos a Banda de Música ainda era da paróquia. Em 1989, na gestão do Prefeito Milton Pereira a Banda de Música da Paróquia passou a ser Banda Municipal. Quase duzentos anos e os maestros da Banda, ipuenses em sua maioria, cheios de dons e de talentos a alegrar e abrilhantar a arte ipuense. Jorge Nobre brilhante, aprendeu a arte da música com quem? Ipuense, artista, músico, relevante. Vem de longe a arte musical nesta terra.

            Mas a história do ensino da música em Ipu remonta ao século XIX. Thomas de Aquino Correa, era filho de padre e como tal teve uma educação esmerada e requintada. Dentro do processo de educação lhe foi dada educação musical tornando-se além de farmacêutico um músico exemplar dominando a flauta e o harmônio, regendo o Coral da Igrejinha e compondo músicas dentre elas o primeiro hino do Ipu.

            Thomas de Aquino, conheceu, não se sabe como, o maestro italiano Ciro Ciarlini. Provavelmente em Sobral, pois Ciro morava em Granja e dava aulas de música em Sobral, como se depreende do anúncio do Jornal a Cidade - Sobral 21/02/1900 p. 2: “Aviso: O maestro Ciro Ciarlini oferecce ao respeitavel Publico d’esta Cidade seus serviços como Maestro de Piano, Canto e rebeca. Preços conforme ajuste. C. Ciarlini.” 

            Ciro Ciarlini nasceu em 12 de fevereiro de 1855 na cidade de Reggio Emília que fica ao norte da Itália. Formou-se em música no Conservatório de Bolonha. Casou com a Condessa Maria Luigia Dalla Palude com quem teve os filhos Pedro e Hugo. Como pertencia a uma sociedade secreta revolucionária que lutava pela unificação da Itália, foi obrigado a fugir do seu país deixando os filhos sob a responsabilidade de sua irmã, Adele Ciarlini Piccinini na época em que migrou para o Brasil pois já era viúvo.

            Chegando ao Brasil, antes de passar pela França e Inglaterra e conforme Xavier Filho (2002) Ciro:

inicia uma longa jornada de apresentações como responsável pela orquestra da "Companhia Lírica Cômica Italiana", que apresentava, nas cidades, óperas famosas como "La Traviata" e "Il Trovatore" de Verdi, além de operetas cômicas, como "Os Sinos de Corneville". Apresentou-se no Rio de Janeiro-RJ, São Paulo-SP, São Luiz-MA, Belém-PA, Maceió-AL, Fortaleza-CE e Aracaju-SE, onde fixou residência duas vezes, nos anos de 1887 e 1891, ensinando canto e piano. Há referências dele com uma escola de música também em Belém-PA, no ano de 1889.

                Chega ao Ceará na última década do século XIX e veio de Manaus a convite do Cel. Luiz Felipe de Oliveira. Por volta de 1894 fixa-se em Granja e passa a trabalhar como professor de piano, violino e canto em toda a região. Neste mesmo período manda vir da Itália com seu sobrinho Vicenzo Piccinini seus dois filhos que contavam com 17 e 16 anos.

Piccinini (2001) afirma que Vicenzo embarcou de Génova para o Brasil no vapor Las Palmas da companhia italiana La Veloce, no dia 10 de outubro de 1894 e que:

Desembarcou em Recife (PE) no dia 25 de outubro do mesmo ano, porto mais próximo do término de sua viagem. Veio para o Brasil por solicitação de seu tio materno, maestro Ciro Ciarlini, residente em Granja (CE), servindo de companhia aos primos Pedro e Hugo, filhos do maestro que, por serem menores de idade, com mais ou menos 17 e 16 anos, respectivamente, não podiam viajar sozinhos para o Brasil. 

                Fato curioso ainda na vida de Ciarlini é que ele se casa em 09 de janeiro de 1907 com Maria Barreto, irmã do poeta granjense Lívio Barreto, considerado o maior poeta simbolista do Ceará. A partir de 1894 até sua morte em 1919 o maestro teve grande atuação no campo da música na região norte do estado, tendo atuado como professor principalmente em Sobral.

            Como relatado acima Ciro torna-se amigo de Thomas de Aquino e a seu convite vai a Ipu ministrar aulas de música. Tem-se certeza que a patronesse Maria de Lourdes Magalhães Ximenes foi sua aluna de instrumentos e que Ciarlini esteve em Ipu ou no final da última década do século XIX ou primeira década do século XX, considerando-se que a ligação por ferrovia de Granja a Ipu estava em seu auge e o deslocamento era bem fácil. Ciro Ciarlini morreu em 26 de janeiro de 1919, tendo sido vítima da gripe espanhola e está sepultado no cemitério de São João Batista em Granja deixou uma vasta obra musical entre valsas e polcas, das quais destacamos a valsa Sorriso de Infância.

            No atinente ao resultado do trabalho desenvolvido pelo maestro italiano Ciro Ciarlini em Ipu frutos certamente floresceram. A educação é processo silencioso e invisível, mas alcança gerações futuras pois o ensino se processa não só pela arte de tocar, cantar ou compor, mas sobretudo pela arte de valorizar, pois não há artista sem plateia e a plateia também deve entender para valorizar. É provável que Ernestina da Natividade Magalhães que foi professora de música na primeira metade do século XX também tenha sido aluna do maestro Ciarlini.  Ernestina foi quem descobriu os grandes talentos artísticos da Profa. Maria Valderez Soares de Paiva que fez escola nas artes, em Ipu até a segunda metade do século XX.

            Tomara Deus que um dia sejamos agraciados com a arte de Emmanuel Teófilo Furtado Filho e Henrique Augusto Pereira Pontes, pianistas ou os acordes de violão do Prof. Francisco Melo bem como os solfejos de Maria das Graças e Lucila Aires, com a bela página de Ciro Ciarlini com a valsa Sorriso D’ Infância que deixamos aqui em anexo, em partitura, para o deleite dos ouvidos daqueles que não tocam, não conhecem os instrumentos e valorizam a arte musical. Precisamos de músicos, compositores. Mas, também precisamos de público, plateia, pessoas que valorizam a arte e a música. Sou um deles ou melhor ainda somos um deles.

Referências:

PICCININI, Ítalo. História de Vida. Disponível em: https://acervo.museudapessoa.org/pt/conteudo/historia/-40062. Acesso em 02 Mai 2021.

XAVIER FILHO, José. Livreto do IV Encontro das Famílias Ciarlini e Piccinini (28/10/2000). Disponível em: https://www.facebook.com/secretariadeculturadegranja/photos/a.450581991724629/3634002906715839/?type=3. Acesso em 02 Mai 2021.

http://memoria.bn.br/pdf/222402/per222402_1888_00182.pdf. Acesso em 01 Mai 2021.

https://granjanossahistoria.blogspot.com/p/v-behaviorurldefaultvml-o_20.html. Acesso em 01 Mai 2021.

https://imslp.org/wiki/Sorriso_d'infancia_(Ciarlini%2C_Ciro). Acesso em 30 Abr 2021.

 

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