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José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira nº 34

O Stabat Mater Dolorosa

Texto: José Solon Sales e Silva - Acadêmico titular da Cadeira nº 34

Voz: Ana Lucila Aires Martins - Acadêmica titular da Cadeira nº 17

Violão: Luan Aires de Vasconcelos - Convidado Especial

Edição: Ludmila Aires de Vasconcelos e Felipe Santos

            Ipu sempre foi um lugar de muita fé e de rituais religiosos precisos, ricos e prestigiados. Os ciclos religiosos sem exceção foram festejados com muito rigor canônico e com muita assistência popular, aclamados e seguidos à risca, notadamente na gestão do Mons. Francisco Ferreira de Morais.

            Durante a Semana Santa as procissões eram esmeradas. Os andores eram ricamente decorados pelo Sr. Raimundo Lapinha, um exímio criador de altares e decorador de andores.

            Procissão significa “ir adiante”, “avançar”, “caminhar”. É organizada caminhando-se de maneira formal e cerimonial em ato circunspecto e de reflexão. O caminhar é solene pelas ruas da cidade carregando-se as imagens e entoando-se cânticos e orações, intercalados. Conforme a crença milenar este ritual tornaria os locais e pessoas abençoados.

            Durante a Semana Santa, mais precisamente na terceira semana da quaresma, acorria a população a procissão dos Passos, onde se encenam o encontro de Maria com o filho rumo ao calvário. Esta procissão que na verdade são duas simultaneamente acontece na quinta feira santa. A imagem do Senhor dos Passos saía da Igrejinha de Nossa Senhora do Desterro e a de Nossa Senhora das Dores da Igreja Matriz para encontrarem-se em frente a Escola São Gerardo, na residência de D. Maria Assis. A procissão era acompanhada pela banda de música e pelo Coral Santa Cecília regido por D. Valderez Soares.

            Uma das músicas executadas durante o encontro de Nossa Senhora com o Senhor dos Passos era o Stabart Mater Dolorosa, hino milenar surgido no século XIII, uma prece evocando as dores de Nossa Senhora em relação ao mistério da redenção de Cristo. O hino é atribuído ao franciscano Jacopone da Todi ou ao Papa Inocêncio, não existindo certeza sobre o assunto.

Conhecido popularmente como “Estava a Mãe Dolorosa”, conta com diversas versões, mas todas elas meditam sobre o sofrimento de Maria durante a crucificação. Uma coralista do Coral Santa Cecília participou por anos deste ato solene e entoou muito este cântico cerimonial durante as procissões do Senhor dos Passos, em Ipu, notadamente nas décadas de 60 e 70, trata-se da soprano Ana Lucila Aires Martins. A letra entoada pelo coral segue abaixo:

Estava a mãe dolorosa
Junto ao pé da cruz chorosa
Enquanto o filho pendia
Enquanto o filho pendia

Mãe de Jesus transpassada
De dores ao pé da cruz
Rogai por nós, rogai por nós, rogai por nós a Jesus
Rogai por nós, rogai por nós, rogai por nós a Jesus

Cuja a cruel espada

Que lhe foi profetizada

Tiranamente feria,

Tiranamente feria.

Oh quão triste

Quão aflita

Se viu a sempre bendita

A mãe do nosso Redentor.

            Agora temos a oportunidade de ouvir este belo hino em solo da acadêmica Ana Lucila Aires Martins, acompanhada ao violão, por seu filho, Luan Aires de Vasconcelos. A oportunidade de resgate na voz aveludada desta soprano de Ipu que tem um alcance vocal agudo belíssimo engrandece o papel da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes. Lucila tem uma bela voz, muito agradável aos ouvidos e emprega ao hino uma singular interpretação.

            Com esta crônica busca-se resgatar um pequeno item da história das procissões no Ipu, notadamente do papel da Patrona da Cadeira Nº 17, Profa. Maria Valderez Soares de Paiva que sempre se dedicou a arte do canto e do canto coral e que ajudou a formar a artista que interpreta este hino, tão vivo na memória dos ipuenses que o ouviam durante as décadas de 60 e 70 nas semanas santas em Ipu. Viva a arte! Via a mater dolorosa!      

 

Voz: Ana Lucila Aires Martins - Acadêmica titular da Cadeira nº 17
Violão: Luan Aires de Vasconcelos - Convidado Especial
Edição: Ludmila Aires de Vasconcelos e Felipe Santos

  

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