João Rodrigues

Cadêmico correspondente - Reriutaba / Ce.

 

Paradigma (A mulher a lua)

A lua nascia formosa e faceira

Na linha que une a terra e o céu

Tão linda ela estava coberta com um véu

De prata e sorria pra mim prazenteira

Seus raios banhavam a Terra inteira

Notei em seus olhos um brilho imponente

Tremi ao olhar, senti-me impotente

Minh’alma agitou-se, ficando nervosa

Quando perguntou-me com voz majestosa:

“Como é a mulher em meio a sua gente?”

Meu sangue fugiu e o rosto esquentou

Por certo ficou muito avermelhado

Confesso, fiquei tão envergonhado

Que fui responder e a voz engasgou

Lembrei-me do sangue que a TV mostrou

Da ação brutal do homem violento

Repleto de cólera, tão rude, ciumento

Lembrei-me dos gritos na fria madrugada

Da voz em silêncio sendo condenada

Sozinha, indefesa em seu julgamento.

Então vi um rosto de olhar assustado

Pedindo socorro sem ser atendido

Num canto do quarto chorando, encolhido

De espírito vencido e subjugado

Com seu corpo inteiro de mancha marcado

Da mão do carrasco tão bruta e pesada

Vi a pobre alma sem brio, humilhada

Pela mão de quem jurou seu amor

Na vida, na morte, no riso e na dor

Pela mesma mão é agora espancada.

Olhei para a lua com ar derrotado

E ela me olhava serena e tão calma

Com jeito de quem enxergava minh’alma

E viu que eu trazia o espírito curvado

Com o peso de quem carrega o pecado

De trazer no sangue a maldita cultura

De sentir-se dono da bela criatura

Que Deus deu ao homem como companheira

Pra ser sua parceira pela vida inteira

Sem medo, sem culpa, sem rédea ou censura.

Respondi: “Ó lua, muito me entristece

Ser a raça humana bastante atrasada

Não é a mulher entre nós respeitada

Com todas as pompas que ela merece

Eu muito queria que o Planeta desse

A esta criatura seu real valor

Que fosse tratada tal qual uma flor

Cuidada com muito respeito e carinho

Sem erva daninha, sem joio ou espinho

E fosse regada com chuvas de amor.”

“Escute, poeta”, a lua respondeu:

“Na abóboda celeste eu sou a rainha

A vida que levo é todinha minha

Sou dona do corpo que o Senhor me deu

Eu sou feminina, mas posso ser eu

Pelos que me cercam eu sou adorada

Todos me admiram e sou respeitada

Assim deveria ser toda mulher

Ser livre e fazer o que bem quiser

Sonhar e viver, amar, ser amada.”

Beijei-lhe a face e me despedi

As lágrimas rolaram em meu coração

Saí refletindo com aquela lição

Muito admirado com tudo que ouvi

Com poucas palavras eu muito aprendi

Jamais me esqueço desse belo dia

Deus é testemunha de que eu gostaria

Que toda mulher fosse respeitada

De si fosse dona e que fosse amada

Sem sofrer nas mãos de quem ama e confia.