Poesias

Francisco de Assis Martins

 

Lábios que se abrem em polpa, de cujos filamentos
Alimentem-se as guitarras do verão.
Lábios que exalem cânforas de suas entranhas,
E que entoem cânticos à sua passagem
Por entre luar dos devaneios.
Lábios que atulhem a noite com chilro
De invisíveis pássaros
E as lídimas plumas de sua linhagem,
Lábios que perfilem as horas e os espessos desejos,
Que voejam por entre pele e cabelos,
Sob tépidas esperas.
Lábios que fagulhem os gravetos das palavras
Para que não durma o que elas lavram.
Lábios que se percam nos difíceis rios da ânsia.
Lábios em cuja sombra adormeça os pássaros cegos
Lábios irredutíveis quanto ao vermelho de sua têmpera
Lábios cuja carne guarde a umidade da véspera
Lábios que rompam os arames dos países alheios
Lábios que inscrevem violinos no limiar dos encantados dedos.
Lábios e a escritura das sôfregas esponjas.
Lábios e as lâminas que se engastam em saliva
Lábios que cosem o linho das oferendas

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