Poesias

Ricardo Martins Aragão

 

Raimundo Salustiano Magalhães, ou simplesmente "Raimundo Salú", é um cidadão ipuense da mais alta conta. Homem de vasto conhecimento, simples, honrado e honesto, negociante daqueles tempos em que a palavra era o maior empenho.

Raimundo é casado com minha tia Carmita Aragão, irmã de meu pai, e nem preciso dizer do carinho que tenho por este homem de cara trancada, mas de enorme coração. Esses singelos versos tentam traduzir isto, mas com um pouco de irreverência, ingrediente que ele também aprecia por demais.

 A história da briga dos velho, de fato aconteceu. Foi durante o programa “Sábado de Samba”, que faço na Rádio Iracema de Ipu. Foi uma brincadeira entre Rômulo Augusto e eu, quando simulávamos dois velhos (Raimundo do Estrume e Expedito da Lagoa, respectivamente) discutindo por causa de uma venda de estrume que o primeiro comprou e não pagou. Aí resolvi botar o Raimundo Salú como "testemunha", pois sabia que ele estava ouvindo o programa pelo rádio.

 Essa brincadeira rendeu boas risadas pelas ruas do Ipu e, vez por outra, lá estava o Raimundo Salu, numa simpatia danada, explicando que era mentira aquela história da briga dos dois velhos e que não ia testemunhar coisa nenhuma.

 Dedico estes versos ao meu querido tio Raimundo Salú, o protagonista desse hilariante causo!

 

O Raimundo Salú

É um cabra querido.

Adonde ele anda

Eu fico perdido.

Tem ele a vivênça,

O tino, experiênça.

O homi é sabido!

 

Quando diz uma coisa

Se presta atenção.

Pois dele se espera

Uma boa lição.

Pra tudo no mundo,

Tem nosso Raimundo,

A explicação!

 

Quando ele se cala

Pra ficar só ouvindo,

Se chega a pensar

Que tá é dormindo.

Que tolo engano,

Pois tá matutando

E de tudo sorrindo.

 

Só tem uma coisa

Que o encabrunha.

É chamar o Raimundo

Pra ser testemunha.

O cabra é zangado.

É prego dobrado.

É dedo sem unha.

 

Certo dia, no rádio,

Surgiu uma briga.

Dois véi discutindo,

Tamanha intriga!

Disseram: o Raimundo,

Tem o testemunho,

A verdade a ser dita.

 

A briga era feia!

Um véi irritado,

Cobrava uma venda

De bosta de gado

Que o outro comprou

E nunca pagou,

Deixando fiado.

 

Pior foi a zanga

Do Salustiano

Com esses dois véi

Que estavam brigando.

Chega aqui, seu safado

Disse o Raimundo, danado,

Pulando e gritando!

 

Ora, como é que pode?

Eu aqui sossegado,

Meu rádio escutando.

Que mal empregado!

Testemunha eu virei

De um negócio tão fêi

De merda de gado!

 

Esses féla da gaita

Estão me amolando!

Falou o Raimundo

Com o rádio quebrando,

E prum santo jurou,

Que não testemunhou

O que tá se contando.

 

Um dos véi, já com medo,

Esperando clemência,

Acabou com a querela

E pediu paciência.

Pelo mal, pelo bem,

Na semana que vem

Vai ter audiência!

 

 Ricardo Martins Aragão, ipuense, membro da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes – AILCA, mantém o blog IPU EM CRÔNICAS E VERSOS (www.ipuemcronicas.blogspot.com) na Internet, onde procura ressaltar as coisas de Ipu e resgatar a Cultura Nordestina principalmente através da Literatura de Cordel.

 

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