Discursos

Maria de Lourdes Mozart Martins Moura

 

ILUSTRÍSSIMO SENHOR

PRESIDENTE DA ACADEMIA IPUENSE DE LETRAS, CIÊNCIAS E ARTES,

PROFESSOR  SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO

SENHORES ACADÊMICOS     -     SENHORAS ACADÊMICAS

AUTORIDADES AQUI PRESENTES E REPRESENTANTES

CAROS AMIGOS, FAMILIARES, MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES

 

           Dividir com os senhores a responsabilidade e a honra de integrar a Academia Ipuense de Letras Ciências e Artes é motivo de muito orgulho, de imensa alegria e de grande surpresa. Significa, também, assumir responsabilidade, comprometimento, disciplina, mas o faço com humildade, sabendo que irei conviver com pessoas inteligentes, de elevado nível intelectual, de notório saber.

          Estar aqui entre os meus pares é muito prazeroso; é também dar um mergulho no passado, nas cousas do ontem, viajar no tempo, conversar com criaturas inolvidáveis e rever, não sem incontida emoção, os tempos idos.

           Foi de extrema importância que intelectuais de minha terra, preocupados com o desenvolvimento desta cidade, fundassem há cinco anos a Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, para fomentar o crescimento intelectual dos seus habitantes. Em bom momento, aqueles que tão bem manipulam as letras e levam a sapiência aos que dela tanto necessitam, houveram por bem repartir um pouco do seu saber com os que dele ainda carecem.

           Apesar de ainda dando os seus primeiros passos, apenas um lustro de vida, sinto que a AILCA veio para ficar. Pressinto, também, que muitas gerações irão beneficiar-se com a presença de uma instituição, que veio reforçar o que é notório; Ipu, em todas as épocas, sempre foi celeiro de pessoas ligadas às letras, às ciências e às artes. Berço de vultos realmente notáveis, Ipu foi um município que sempre se distinguiu nas letras. Enumerá-los um a um seria tarefa enfadonha. Mas sucedê-los é, sem dúvida, uma dádiva. E haveremos, todos nós ipuenses, de manter desfraldada, e sempre tremulando, a bandeira que simboliza o amor à terra que nos viu nascer.

            Deixei o Ipu aos 11 anos, em 1952, para morar em Fortaleza. Minha mãe, Judith Martins, meu pai, João Mozart, conhecido por Mouzinho, era funcionário dos Correios, mas precisamente carteiro, no tempo de Dona Donzinha. Em 1924, Mouzinho fundou no Ipu a primeira tipografia. Ensinou a arte aos descendentes e hoje é a profissão dos filhos e de alguns netos.  Autoditada, escrevia sempre, e após a sua morte publicamos e doamos a muitos ipuenses e a todos os colégios desta terra o livro, Ipu do Meu Xodó, de sua autoria. Foram distribuídos gratuitamente mais de mil exemplares.

             Na adolescência, em todos os períodos de férias escolares eu estava aqui, na casa da minha avó, Irene Martins ou na casa de minha prima, senhora Fransquinha Taumaturgo, ambas na Rua da Itália.  Não obstante tantos anos longe desta terra, minha memória e o meu coração estão intrinsecamente ligados a tudo de bom que vivi naqueles tempos.                                         

             É muito forte o amor que sinto pelo Ipu. Não poderia ter um lugar melhor para eu nascer, não poderia ter uma cachoeira mais bonita para eu me banhar, não poderia ter uma estação centenária mais bela do que a nossa, antigamente lotada de passageiros. Não consigo assimilar a falta deles, mas, se assim quiseram os governantes, que a vejamos lotada de livros, o quanto antes. Parabéns aos dirigentes da AFAI, como valeu lutar pela restauração da velha senhora, embora a obra ainda esteja incompleta, faltando o principal, os livros.

            Quando me comunicaram o nome do meu patrono, confesso que fiquei surpresa. Era a primeira vez que ouvia falar em Antonio Augusto Rodrigues Marrocos. A primeira informação que tive é que ele foi Deputado Provincial. Nasceu em 17 de abril de 1856, no lugar Mulungú, então termo de Santa Quitéria, depois do de Tamboril e posteriormente Ipu.

                Fui à Biblioteca da Assembleia, ao Instituto de Geografia e História e à Biblioteca da Academia Cearense de Letras. Encontrei dados, mas não o suficiente para saber sobre a vida do  meu patrono. Pelo sobrenome Marrocos, procurei o Dr. Francisco Luciano Marrocos Aragão, membro desta Academia. Foi quando fiquei sabendo que era seu bisavô. Dr. Luciano me entregou farto e precioso material: a autobiografia, escrita de próprio punho, nos idos de 1914.

               Com essa raridade nas mãos, comecei a passá-la para o computador, respeitando a ortografia da época, e à medida que ia transcrevendo, também, ia me apaixonando por essa figura singular, íntegra, inteligente, humana. Como rábula, exerceu a advocacia com brilhantismo incomum. Fazendeiro, agricultor, promotor público, chegando a ser Deputado Provincial de 1888 a 1889, sendo o Deputado mais votado no 1º Distrito. Apresentou inúmeros projetos, quase todos convertidos em lei, inclusive o que elevou a cidade à condição de vila de Camocim; conseguiu, a pedido do Monsenhor Albano, a aprovação do Código de Posturas da Comarca de Maranguape; um auxílio de duzentos mil reis a cada Gabinete de Leitura que mantivesse aula noturna e muitos outros projetos.

                 Esse conterrâneo merece todo o nosso respeito e certamente por tudo isso foi escolhido como patrono da cadeira nº 35 da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes.  Para os que moram no Ipu e estiverem interessados em conhecer, com mais profundidade, quem foi Antonio Augusto Rodrigues Marrocos é só procurar na sede da Academia o exemplar da sua autobiografia. Recomendo que façam isso, tanto os acadêmicos como os estudantes. Jovens conterrâneos, é fundamental cultivar a prática da leitura, todos somos alimentados pela história e a leitura é um meio seguro de mantê-la viva. 

                      

                Minhas senhoras, meus senhores,

               Celebro com gratidão este momento, a noite da minha chegada nesta Academia, que já nasceu sob a bênção do Senhor dos Senhores e que se desenvolve de maneira vertiginosa, levada por uma plêiade de valorosos ipuenses.

            Agradeço a indicação do meu nome pelo acadêmico e jornalista J.P.Mourão. Agradeço a Deus as incontáveis bênçãos que derrama sobre mim e meus familiares todos os dias. É Ele o meu refúgio e a minha fortaleza. Agradeço aos poetas de todas as épocas, aqui e em outras plagas, que emprestam conhecimento e poesia à minha vida. A poesia, como a música, alimenta a nossa alma.

                E finalizo repetindo o que a Lygia Fagundes Telles disse no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras :

                  “Somos imortais porque não temos onde cair mortos”

                 Muito obrigada.

                 Ipu, 14 de janeiro de 2011

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