Discursos

Olívio Martins de Souza Torres

 

Senhoras e Senhores,

Pretendo ser breve atendendo a duas recomendações: a primeira,

da filosofi a escolástica: “Esto brevis et placebis”, ou seja, “Sê

breve e agradarás”, e a segunda vem do livro da Bíblia, Eclesiástico:

”Sê conciso em teu discurso, dize muito em poucas palavras”.

Isto não é fácil, mas vou tentar.

Quando nos distantes anos de 1967 e 1968 fazia eu Curso

de Pós-Graduação na Universidade de Würzburg, no estado da

Baviera (Bayern), na Alemanha, interessei-me pelos belos selos

alemães das cartas que mandava para parentes e amigos no Brasil

e resolvi ser filatelista. Dentro do universo multifacetado de selos,

decidi-me por duas temáticas: cachoeiras e locomotivas a vapor.

Locomotivas a vapor porque desde pequeno ia à Estação de

Ipu ver o trem e me encantava com a máquina Maria-Fumaça.

E, como dizia nossa escritora Raquel de Queiroz, “menino criado

em beira de linha tem o trem no sangue”. E a Estação de Ipu, única

no Ceará onde o trem passa dentro da gare, é um monumento

arquitetônico de rara beleza. Ela presenciou, sem dúvida, grandes

momentos e episódios marcantes. Eram partidas e chegadas

de entes queridos, encontros e desencontros, alegrias e tristezas,

boas-vindas e despedidas, sorrisos e lágrimas, beijos e tapas, juras

de amor e chiliques de ciúme, inícios e términos de flertes e na28

moros. Enfim, as alegrias e as vicissitudes que povoam os fundos

arcanos da misteriosa e insondável alma humana.

Cachoeiras porque, também criança, fi cava contemplando

a Bica do Ipu, despencando do paredão granítico de 130 metros

de altura. Encantado fi cava ao ver o fenômeno chamado “Véu de

Noiva”, quando as águas que caíam fi cavam pairando, por alguns

instantes, no ar, pois eram impulsionadas para cima pela força

maior do vento que soprava de baixo para cima. Era a luta renhida

do vento contra as águas. Um espetáculo deslumbrante que

parecia não haver vencedor.

Decidindo-me por estes dois temas – que eram as belezas de

minha infância – comecei as minhas coleções lá, na Alemanha,

adquirindo selos nos mais de vinte países que visitei nesses dois

anos.

Voltando ao Brasil, enriqueci minha coleção de cachoeiras

com os selos emitidos até então no Brasil, quais sejam: as Cataratas

do Iguaçu e o Salto das Sete Quedas, este desaparecido

criminosamente nas águas da represa de Itaipu.

Em 2003, os Correios fi zeram a emissão de dois selos da

série CACHOEIRAS BRASILEIRAS: o Salto do Itiquira e o

Salto do Rio Preto, ambos no estado de Goiás. Salto (Fall, em

inglês) é a denominação internacional para cachoeiras, quedas

d’água e cascatas.

Foi aí que vislumbrei a possibilidade de pleitear um selo

para a Bica do Ipu dentro do programa dos Correios SUA IDEIA

PODE VIRAR SELO. A batalha começou, pois, em 2003. E

continuou pelos anos seguintes com o mesmo pedido, mas a Comissão

Filatélica Nacional não o houvera atendido. Nessa luta

solitária pensei até em desistir, mas quando me lembrava da frase

do grande estadista sul-africano e Nobel da Paz, Nelson Mandela,

recentemente falecido, recobrava o ânimo. Dizia Mandela: “Tudo

parece impossível até que seja feito”.

Em 2012, após longa espera, mas sem perder a esperança, resolvi

mudar de estratégia. Através da Academia Ipuense de Letras,

Ciências e Artes (AILCA) e da Associação dos Filhos e Amigos

de Ipu (AFAI) mobilizamos parte do povo de Ipu e de amigos da

cidade no sentido de que solicitassem aos Correios a emissão do

selo da Bica do Ipu (Fall of Ipu). Foram cerca de 1.300 pedidos

àquela instituição.

Além disso, contatamos os senadores cearenses José Pimentel,

Inácio Arruda e Eunício Oliveira, e também os deputados

federais José Airton, José Guimarães e Gorete Pereira, além do

então prefeito de Ipu Sávio Pontes e do governador do estado Cid

Gomes, os quais enviaram correspondências ao Ministério das

Comunicações ou aos Correios, pleiteando a emissão do selo da

Bica do Ipu. E, por último, mas não menos importante, recorri à

presidente Dilma Rousseff quando em carta a ela dirigida, através

do também ex-seminarista Gilberto Carvalho – Ministro- Chefe

da Secretaria Geral da Presidência da República -, evoquei que,

em sua juventude estudantil, houvera ela lido, sem dúvida, o

poema em prosa Iracema, de José de Alencar, como livro paradidático,

e tivera conhecimento da famosa cascata onde houve

o encontro da bela guerreira tabajara Iracema com o guerreiro

branco Martim.

Contei, na etapa final deste processo, com a valiosa ajuda do

atual prefeito de Ipu, Sérgio Rufino, e de seu vice Carlos Eduardo.

E também dos amigos Ricardo Martins Aragão, Eliezer Soares

Martins e Afonsino Albuquerque Filho que cederam suas fotos

da Bica do Ipu para os Correios, todas de excelente qualidade.

Os Correios elegeram a foto feita por Ricardo Martins Aragão

que fi gura no selo e no Edital.

O selo da Bica do Ipu integra um selo duplo, consagrando as

relações diplomáticas do Ministério das Relações Exteriores que,

em 2013, homenageia o Quênia. A beleza natural do Quênia é a

Zebra de Grévy, conhecida como zebra imperial, e a do Brasil a

nossa Bica do Ipu, aqui à nossa frente.

Quero, neste momento histórico, ao sopé da Serra da Ibiapaba,

frisar a importância deste selo para Ipu, para o Ceará, para

o Brasil e para o mundo. A partir de hoje, a Bica do Ipu vai

figurar nas coleções dos filatelistas do mundo inteiro que adotam

a temática de cachoeiras. Ipu vai ficar conhecido nacional e

internacionalmente, pois o selo é um viajante que não precisa de

passaporte, atravessa fronteiras e adentra os países do globo terrestre,

independentemente de religião, cor, raça, língua, e sistema

político e econômico vigorantes. A Bica do Ipu (Fall of Ipu) vai fi -

gurar ao lado de nossas cachoeiras brasileiras e das célebres quedas

d’água do mundo como Niagara Falls, na fronteira dos Estados

Unidos da América com o Canadá, Victoria Falls, na fronteira de

Zâmbia com Zimbabwe, e do Salto Angel, na Venezuela, o mais

alto do Planeta, com quase 1.000 metros de altura.

Além disso, vai o turismo em Ipu ser incrementado, haja vista

a aproximação dos jogos da Copa do Mundo e das Olimpíadas,

quando turistas estrangeiros e brasileiros vão procurar pontos e

paisagens interessantes para visita, gerando emprego e renda para

o município.

Estamos a mostrar que o turismo no Ceará não se restringe

apenas às nossas belas praias. O interior do Estado tem muito a

oferecer. Desejamos fazer ver ao Brasil e ao mundo que se deve

preservar o meio ambiente e proteger a natureza para aqueles que

não podem se defender e falar por si mesmos como as aves, os

animais, os peixes e as árvores.

O selo da Bica do Ipu é uma homenagem não somente a

Ipu, mas a toda a Serra da Ibiapaba, pois o riacho Ipuçaba, que

forma a cachoeira, nasce no Sítio São Paulo, na Serra Grande.

Quero, neste momento histórico, parabenizar o prefeito de

Ipu, Sérgio Rufino, a secretária de turismo, prof.ª Sônia Pontes, a

secretária de educação, prof.ª Terezinha Rufino, e a assessora Netinha

pelo excelente trabalho que realizaram, num exíguo espaço

de tempo, visando ao abrilhantamento desta festa.

Reitero meus agradecimentos a todos os que contribuíram

para que o selo da Bica do Ipu se tornasse realidade, especialmente

à Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes (AILCA) e à

Associação dos Filhos e Amigos de Ipu (AFAI).

Agradeço ao Diretor Geral dos Correios no Ceará, Sr. Haroldo

Aragão, e à sua equipe, que vieram prestigiar o lançamento

deste selo na Terra de Iracema.

Minha gratidão a todos os que compareceram a este evento

que será um marco indelével na história de Ipu. O dia 12 de

dezembro de 2013 é uma data a ser lembrada pela posteridade.

Muito obrigado!

*  *  *  *  *  *

(*) Discurso proferido pelo acadêmico Olívio Martins de Souza Torres por

ocasião do lançamento do selo especial dos Correios, em 12/12/2013, em Ipu.

O autor é membro da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes (AILCA),

técnico aposentado do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Licenciado

em Letras Anglo-Germânicas pela Faculdade Católica de Filosofi a (agregada

à Universidade Federal do Ceará). Tem curso de pós-graduação na Bayerische

Julius-Maximilians - Universität Würzburg (Alemanha). É professor aposentado

de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira.

 

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