Crônicas

José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira nº 34

 

CRÔNICAS DE FAMÍLIA

PRESENTE DE PEREIRA DA SILVA

Tradicionalmente os Pereira da Silva se fixaram no Piauí, por volta da segunda metade do século XVIII e era uma das sete primeiras famílias povoadoras da província. Fixando-se inicialmente em Valença e Oeiras dai seguiram para outros pontos do nordeste. Os primeiros eram homens influentes na Corte e Antônio Pereira da Silva (II), foi nomeado Ouvidor Geral em Oeiras, portanto, a maior autoridade constituída dentro da província.

            Nossa história familiar liga-se a um descente destes primeiros povoadores, nascido no Piauí no final do século XIX, quinto de uma família de sete filhos, era inteligente e muito disposto. O pai, Solon Augusto Pereira da Silva enviuvou muito cedo de Florinda Rosa de Santana. Com a morte da mãe o jovem José Solon Castelo Branco Pereira da Silva resolve ganhar o mundo. Aprendeu muito moço a arte dentaria, tendo estudado com famoso cirurgião dentista, em Teresina. João Pinheiro concluiu seus estudos odontológicos em Salvador em 1898 e a partir dai montou consultório em Teresina e ensinou esta arte a José Solon.

            Órfão de mãe resolveu descer a serra da Ibiapaba, acidente geográfico natural que separa o Piauí do Ceará e ganhar a vida como dentista prático pelas pragas dos sertões cearenses. É de se imaginar o semi árido cearense recebendo um homem da saúde, no inicio do século XX quando não se tinha absolutamente nada em termos de saúde pública ou mesmo privada. Certamente um homem extremamente bem recebido e bem vindo por estas comunidades.

            Pois o José Solon chegou às terras do Tamboril e ali se encantou com o Bico d’ Arara e o Feiticeiro e ali se encantou também com uma jovem tamborilense, Maria das Dores de Araújo Farias com quem se casou em 1906 instalando no Ceará a família Pereira da Silva. Ambos de famílias numerosas ele com seis irmãos e cinco meio irmãos e ela com onze, tinham uma coisa em comum, uma grande mesa a sala de jantar e também a cozinha.

            O casal morou em Tamboril, em Cratéus, Cariré, além de muitas outras cidades da serra da Ibiapaba e do sertão para fixar-se definitivamente em Cascavel. Tiveram nove filhos sendo seis homens e três mulheres. Uma das muitas coisas herdadas dos Pereira da Silva, além de um caráter seguro era a paixão pela boa mesa. Comiam de tudo e, sobretudo aquelas iguarias do sertão com as quais foram criados. Eram verdadeiros amantes da boa culinária.

            Batalhadores estes filhos também ganharam o mundo e se sobressaíram em várias áreas. Eram profissionais respeitados e homens e mulheres ilibados e de grande potencial para o trabalho. Como ponto em comum herdaram dos pais e, sobretudo do pai o amor pela boa mesa. A hora da comida era hora sagrada, momento de regozijo. Momento de encontro, de boa conversa e, sobretudo de saborear iguarias singulares, comiam de tudo e degustavam com prazer. Hora de comer era hora proibida para alguns assuntos, não se falava em miséria ou qualquer outro assunto desagradável, falava-se somente de coisas boas e alegres. Dizia meu pai que isso melhorava a digestão.

            Curiosamente estes irmãos se presenteavam entre si com coisas de comida. Apesar de vaidosos apreciavam valores interessantes ligados ao sabor e a degustação. Em datas festivas presenteavam-se entre si com latas de doce marron glasê, vidros de azeitonas de boa safra, azeite de oliva, latas de manteiga, vinho e de preferência todos eles importados. Os importados eram difíceis de serem encontrados até os anos setenta do século XX, mas em Fortaleza se encontravam boas casas que vendiam estes produtos. Este costume vem sendo absorvido e os descendentes também adoram esta prática, pelo menos em meu núcleo  familiar.

            É comum dizer-se em casa, quando nos deparamos com uma pessoa que aprecia uma boa mesa, “esse é Pereira da Silva” e é comum recebermos em casa dos parentes mais próximos um bom presente de Pereira da Silva, uma lata de bom doce, um vidro de azeite extra virgem, um queijo importado e tantas iguarias maravilhosas que a modernidade e a facilidade de exportação hoje nos proporcionam.

            Esta é uma ótima maneira de presentear, pense nisso! Presentei sempre com um presente de Pereira da Silva...

 

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