Crônicas

Antônio Carvalho Martins Filho

Acadêmico correspondente - Joinville / SC

 

O andar de nossos tios – Uma Crônica Espírita

 Quatro corpos graúdos com alguns traços semelhantes, cabeças formatadas em obediência ao indisfarçável estilo dos “Camelo-Martins-Timbó”, com um generoso grau de expansão frontal, característica única daquele tronco familiar gerado nos redondezas do Ipu, Tamboril, Nova Russas, Ipueiras e, dizem, subiu a serra perenizando estilo, talento e inteligência. José, Francelina, Antonio, e Guarany são filhos de Abílio Martins.  “São” porque me recuso a acreditar na morte tal como grosseiramente a formula o panteísmo cristão! A morte, ao contrário, foi e sempre será “um sopro aliviador”. Mas deixemos, por agora, esta sempre traiçoeira provocação filosófica e voltemos ao “andar de nossos tios!”. 

Os homens da linhagem “Camelo-Martins-Timbó” têm características próprias quanto ao desenho e distribuição da massa sobre seus corpos. São tradicionalmente mais altos e únicos! A relação altura x largura destas estruturas humanas não guarda nenhum compromisso estético com os demais acessórios do corpo. Pernas finas, levemente arqueadas como se um pote de barro houvera sido usado na infância como providencial “anda-já”. Convenhamos, a evolução não dá saltos, tenhamos paciência! 

Ao longo desta evolução - Valha-me Darwin! – a barriga cresceu, evoluiu de tal forma que resolveu aproximar-se dos sovacos! Acreditem! Todo “Camelo-Martins-Timbó” (Homem, pelo amor de Deus!) convive – invariavelmente – com uma expansão da barriga que se alonga invadindo o espaço que em tese seria reservado a uma pretensa separação entre os peitos e a virilha. Todo o tronco se transforma em um bloco único, quase cômico, de empoderamento e suntuosidade. Complementando o que o amigo leitor já deve ter imaginado: a calça presa a um belo cinturão de couro de três dedos de largura açambarca aquela circunferência e com um traço de extremo bom gosto é fixado – depois de algum esforço - a latitude de um palmo acima do umbigo! Um “Camelo-MartinsTimbó” sem essa estrutura não é um legítimo “Camelo-Martins-Timbó”.  E que siga a natureza evoluindo! Até aqui fizemos a nossa parte!

O andar do José! O mais baixo dos irmãos tem um temperamento forte e intensas convicções políticas doutrinárias. Possui o andar mais lento entre os quatro irmãos! Não queira o amigo leitor me cobrar o porquê dessas “velocidades”. Os corpos dos quatro irmãos movimentam-se em velocidades distintas em obediência - salvo ausência de argumento mais inteligente – ao rigor implacável da 2ª. Lei de Newton segundo a qual corpos rompem a inércia através do produto da massa pela aceleração. Faz certo sentido! Dentre os quatro irmãos, o querido Tio Zezé – como carinhosamente o chamamos - viveu neste plano terreno as mais intensas contradições políticas filosóficas: sonhou o sonho de um comunismo saudoso que varreu o mundo na primeira metade do século XX até o ineditismo de certo “desprendimento sublimado” que brilhantemente define como “anarcoespiritismo”. Tio Zezé é a própria inquietude da dialética!

Seus ombros são relativamente mais estreitos quando comparados aos ombros dos irmãos homens (Guarany e Antonio), muito em função de sua baixa estatura. O andar do Tio Zezé, além de mais lento, confere certo movimento pendular, singularmente pendular. Sua cabeça branca maneia de um lado ao outro, obedecendo a uma lenta e silenciosa sincronia como impor ao corpo um sutil esforço reclamando equilíbrio. Este movimento deriva, também e muito provavelmente, de respostas às dores geradas de inflamações nos seus pés em função de um diabetes que lhe persegue encarnações a fio! Vive sua vida quase só, lutando com seus “Moinhos de Ventos”. Antes de despedir-se de sua última encarnação aproximou-se - não por acaso - de seus irmãos e selaram silenciosa e respeitosa reconciliação! A reconciliação através do silêncio respeitoso é virtude de nobres! Só um autêntico “Camelo-Martins-Timbó” sabe reconciliar-se através do silêncio!

O andar de Francelina! Depois do Tio Zezé, Tia Francelina detém o segundo andar mais lento pelas razões anterior e deselegantemente expostas. Perdoem-me! Um pouco mais alta do que Tio Zezé, Tia Francelina responde, ainda, por um abençoado “ponto de equilíbrio” entre os irmãos, virtude de Espíritos de elevada estatura moral. Todos nós estamos em permanente evolução, viajando por este Cosmo, do “átomo ao arcanjo”, refazendo relações, perdoando, recaindo em equívocos, voltando a perdoar, em um permanente “ir e vir” ao redor de famílias nucleares que sabemos delas necessitar. Por isso sabiamente afirmam que encarnamos em família que “necessitamos” e não na que “queremos”! A “missão” da Tia Francelina, dentre tantas, é tornar claro este desiderato entre os irmãos! Que bela missão! 

  Pés relativamente pequenos mal cabem em uma sandália cujo material, dada a uma densidade que desconhecemos, distancia-se de uma espécie de couro e aproxima-se de um tecido suavemente brilhoso que lhe prende confortavelmente a parte superior de seus pés, permitindo duvidar que aquelas sandálias devessem pertencer a um pé menor! Mas ela adora estas sandálias! Tia Francelina tem o andar que se pode denominar “equilibrado”. Comungam movimentos de braços, ombros e mantém a cabeça quase paralisada, provavelmente em função da baixa velocidade que ela impõe ao andar! A imposição deste equilíbrio é razão reflexa da altivez de seu caráter! Ombros e cabeça quase inalterados, alheios ao corpo perispiritual que se movimenta! É o resultado prático do indispensável “ponto de equilíbrio”. Um sorriso fácil e espontâneo sempre está disponível a quem lhe cruze o caminho, aqui ou alhures. Caso a oportunidade mereça uma gargalhada igualmente espontânea será produzida através de um tom ao mesmo tempo grave e quase rouco, solidário ao tempo necessário para manter a continuidade da gargalhada. Cessou o motivo, cessa a gargalhada! A disciplina deste sorriso não se contrapõe a sua espontaneidade, ao contrário, esta se associa àquele.  Só um pulmão de “Camelo-Martins-Timbó” confere às gargalhadas uma disciplina útil e produtiva. Rir-se mais no plano espiritual do que aqui, acreditemos!

O andar de Guarany! Querido “Tio Nanim” – assim o chamamos carinhosamente – tem entre os irmãos o andar mais célere! Deste agradável “devaneio espiritual” uma única dúvida me invade ao comparar estes Espíritos maravilhosos é quanto à altura entre os irmãos Guarany e Antônio. Acredito Antônio milimetricamente mais alto. Apesar de no plano espiritual a matéria, tal como a percebemos, ser absolutamente fruto da quintessência, o corpo perispiritual permanece – via de regra - fiel a sua última encarnação. Os três irmãos homens, como todo “CameloMartins-Timbó”, têm o mesmo formato da cabeça: crânio suavemente elíptico, fronte avantajada e uma bela e pronunciada calvície, esta herdada do pai, Abílio Martins. Não conheço, salvo engano, nenhum “Camelo-MartinsTimbó”, em sua fase adulta, com o cabelo partido de lado! Primeiro porque não tem. Segundo porque não convém!

Guarany, ao andar, compõe uma sequencia de movimentos de cada braço, alternadamente, que se curvam em ângulos obtusos não superiores a 45 graus em relação ao eixo do tórax.  A velocidade que Tio Nanim impele ao andar, associada a uma inseparável sandália “havaiana azul”, permite produzir sequencia harmoniosa de sons, sobretudo quando o piso ecoa o impacto do solado de suas sandálias sobre este. A geração destes sons – ao andar – não depende da energia a ser dispendida no deslocamento do corpo, rompendo a inércia, isto porque Tio Nanim compartilha massa muscular produzida em sua fase juvenil e de certa forma preservada na fase de sua evolução, mantendo seu períspirito saudável, muito confortavelmente evoluindo sobre o paradigma “mens sana, in corpore sano”. A este andar dá-se, também, o título de equilíbrio, até porque – reconheçamos - não se vincula um esperado equilíbrio à compulsoriedade de uma aparente lentidão! Seu temperamento fácil o ajudou rapidamente a moldar-se aos desafios que o destino havia planejado para o “embate” entre os quatro irmãos em que juntos estiveram em suas últimas encarnações. Muito provavelmente – e não por acaso – Tio Nanim afastou-se, por força de seu livre arbítrio, de questões potencialmente políticas que conflagraram as tensões entre os irmãos José e Antônio, os quais encarnaram preparados para este “embate”, com reais chances de superação destes conflitos por eles próprios ajuizados e uma esperada reconciliação entre ambos. Tio Nanim preferiu, sabiamente, uma evolução espiritual silenciosa. A natureza não dá saltos! Nosso querido Tio Nanim dá aos demais irmãos permanentes lições de resiliência!   

O andar de Antônio (meu pai querido)! Irmão mais alto entre os quatro, Antônio desenvolveu e superou sua estatura através da prática dos exercícios no “Tiro de Guerra”, o que resultou, na juventude, em um corpo longilíneo, magro e esguio. Sucede que os anos se abatem inexoravelmente e aos poucos vamos retomando aos mesmos estereótipos que definem um “Camelo-Martins-Timbó” em sua fase mais adulta de sua existência. Meu pai tem passadas largas, braços fortes e longos que não se curvam ao andar, como nosso querido Tio Nanim. Custo acreditar, mas muito provavelmente esta “disciplina ao andar” pode estar associada ao rigor de sua formação militar, ainda que breve. 

É preciso ressaltar a diferença entre “andar rápido” e “produção efetiva do andar”. Meu pai tem o mais efetivo andar entre os irmãos sem ser, necessariamente o mais rápido, certamente em função da conjugação de dois vetores: amplitude da passada e manutenção da frequência das passadas. Tanto é verdade – acreditem – que meu maior desafio quando criança era alcançar o dedo mindinho de meu pai que estendera para que eu o agarrasse qual náufrago durante suas caminhadas rumo ao Mercado Público no meu distante e tão próximo Ipu. Privilégio de caçula que você, amigo leitor, nunca irá entender! A não ser que sejas caçula e que seu pai tenha um dedo mindinho longo o suficiente para segurá-lo com as duas mãos e sobrar espaço, acredite! 

Os cinco irmãos caminham um ao lado do outro! Sim, amigo leitor, não poderia esquecer minha querida Tia Adelaide que desencarnou aos 16 anos, cuja existência planejadamente abreviada serviu (e serve!) para amparar no plano Espiritual aos demais irmãos, sobrinhos e sobrinhos-netos envoltos neste emaranhado de relacionamentos que nos remetem a um justo, necessário e esperado crescimento moral por nós planejado. Fico, por fim, imaginando quão esforço de matéria perispiritual será necessária para manter o padrão dos “Camelo-Martins-Timbó” no Plano Espiritual. Que Kardek trate de resolver. Até aqui fizemos a nossa parte! Que assim seja!

 

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