Crônicas

José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira nº 34

 

QUEIJO DE FACA

            Nos idos das sexta e sétima décadas do século passado íamos religiosamente a fazenda Campo Nobre, em Tamboril, de abril a julho. Quatro meses na quadra invernosa do Ceará, tomando banho nas grotas, assistindo a ferra dos bezerros, tomando leite mungido e ajudando minha mãe a fazer queijos, que íamos consumir durante o resto do ano.

            Queijo de coalho, produzido com o coalho do boi. Minha mãe era eximia na arte da produção deste queijo e fazia-os com tamanho de cinco quilos. Retangulares, deliciosos. Com o tempo e a maturação ficavam bem amarelos, duros. Serviam para ralar e degustar em natura ou mesmo assado na frigideira. Manteiga pura. Ficavam como o parmesão. E ela os ralava e colocava nos mais diversos pratos e iguarias. Bolos, macarronadas, ralados para polvilhar aonde o comensal desejasse.

            Passado-se quatro décadas. Mamãe morta Yasmin chegando. Situando-os, Yasmin é a sexta bisneta de Massales e gosta de queijo de faca. Em criança eu e meus irmãos degustávamos requeijão de Poços de Caldas, que vinham em copos de vidros grandes. Cremoso, muito cremoso e gostoso. Degustávamos com pão ou com torradas, feitas em casa mesmo. Hum, delicioso! Gosto de infância.

            Curiosamente Yasmim que eu a chamo de Mimmim é surpreendentemente observadora. Somente com seus quatro anos é por demais seletiva. Nunca tomou refrigerante. Sua sobremesa predileta é a rapadura. Não aprecia bom bom que vocês chamam de bala, mas é fã de um bom sorvete. Criança linda. Gosta mesmo é do “queijo de faca”, como ela diz. Um bom requeijão de Poços de Caldas, que era único em meu tempo de infância.

            Já sou tio avô e a sobrinha neta tem algo da minha infância. Ela sequer sabe que sua bisavó foi uma eximia queijeira. Existe este “afer”. Mas existem mulheres fantásticas que fabricavam queijos e eu conheci algumas. Hoje aprecio D. Socorro Torres, na Fazenda Marruás, na nossa querida Ipu que produz queijos maravilhosos com coalho químico. Minha mãe usava coalho natural, o bucho do boi, mas sempre quando vejo D. Socorro na produção dos queijos na Marruás vejo minha mãe. Vejo Yasmim pedindo o queijo de faca. Vejo vida que se multiplica e que evolui. Muito a agradecer ao Sr. José Milton e D. Socorro da Marruás.

            O queijo de coalho e queijo de faca um tão bom quanto o outro. Evolução de vida e vida em plenitude. Na comida, no gosto, no sangue, na cultura. Queijo, queijo, sempre. Seja ele de coalho ou de faca. E harmonizado com vinho, hum! Hoje aprecio muito. É bom demais. Minha mãe me ensinou a gostar de queijo. Quem teria me ensinado a gostar de vinho. Queijo de faca, invenção de uma criança!

 

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