Crônicas

José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira nº 34

CHARLES

Mora no alto da serra. Fogoso, lépido, muito preto, domina toda a casa com altivez e segurança. Conheço-o a uns três anos. Ione Chaves, a gestora do Hotel Escola IFCE/Guaramiranga adotou Charles. Ione é muito ligada à natureza, gosta de plantas de animais e se adaptou muito bem na serra. Cuida do Hotel Escola como se sua casa fosse. O jardim é de uma beleza ímpar, tratado com cuidado e harmonia.

O Hotel instalado em um prédio histórico é bem cuidado e organizado. A casa que abriga o Hotel foi construída na gestão do governador José Adauto Bezerra de Menezes (1975-1978). Inaugurada em 1978 foi batizada de Palácio Guaramiranga para servir de espaço de lazer e férias dos governantes do estado. Foi Palácio por 12 anos. Neste período cinco governadores estiveram à frente do governo. Além de Adauto Bezerra, Virgílio de Morais Fernandes Távora (1979-1982), Manuel de Castro Filho (1982-1983), Luis de Gonzaga Fonseca Mota (1983-1987) e Tasso Ribeiro Jereissati (1987-1991) que fechou o Palácio e transformou-o em Hotel Escola. Eles não conheceram Charles, mas certamente usufruíram do Palácio.

Contam que o Palácio foi palco de muitas festas suntuosas. Por si só o prédio já é suntuoso, uma edificação única. A construção, caracterizada pelo estilo moderno e brutalista conta com detalhes em concreto aparente. Ainda não descobri quem foi o arquiteto que o projetou, mas sei que era ou é profissional de muito bom gosto. O Palácio, aliás, o Hotel Escola é uma edificação vetusta, muito bonita.

Dona Luiza Moraes Correia Távora que no dizer do Padre Luiz Rebuffini, fundador do Colégio do Piamarta, “foi uma mulher irrepetível”, possuidora de grande carisma foi grande benfeitora do Palácio Guaramiranga adquirindo móveis e peças de arte, notadamente esculturas em tronco de árvores do artista Cizim, para embelezar o Palácio, muitas delas ainda decorando historicamente os mais diversos espaços do Hotel. Sou admirador de D. Luiza pela valorização que ela sempre deu as coisas da terra. Notadamente ao artesanato cearense. Foi uma mulher muito ligada aos humildes e desprestigiados. Fosse ela viva ainda hoje certamente teria também adotado Charles.

Na gestão do Governador Tasso Jereissati o Palácio transforma-se em Hotel Escola com o intuito de beneficiar a população da serra e diminuir gastos estatais, pois o governador, com grande visão empresarial buscava enxugar a máquina estatal, entendendo ser dispensável um palácio de veraneio para os governadores. E o palácio transformou-se em escola. Que idéia genial. O antigo palácio passa a ser do povo, seu lídimo dono. De um lado a população que tem a oportunidade de se qualificar. Do outro a população que tem outra oportunidade, pagar para hospedar-se e ajudar os que aprendem. Os alunos.

Na história do Hotel Escola este foi gerido inicialmente pela saudosa Empresa Cearense de Turismo - Emcetur, ícone da história do turismo no Ceará e antecessora da Secretaria de Turismo do Estado. Para ser mais preciso de 1990 a 1996 pela Emcetur e de 1996 a 2002 pela Setur.

Na terceira gestão de Tasso Jereissati como governador (1999-2002), ainda visando melhorar a máquina estatal resolve-se passar a gestão do Hotel Escola Guaramiranga para outro ente, retirando-se assim, o ônus atribuído ao estado em sua manutenção. Assim, por meio de um contrato de cessão de uso, passa-se o bem ao Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - Senac que toca o funcionamento do Hotel Escola por dez anos. Em 2012 terminado o contrato de cessão do Senac, época da segunda gestão do governador Cid Gomes (2011-2015) a cessão de uso é retirada do Senac e entregue ao Instituto Federal do Ceará. Responsabilidade grande. Inicialmente foram realizadas as melhorias prediais, edificação que contava com 34 anos de construída. Custos elevados. Mais elevado ainda são os benefícios que a entidade traz para a população.

Passaram-se seis anos do momento em que o IFCE recebe o Palácio que continua vetusto e imponente em sua essência de formar cidadãos e profissionais em bem receber a quem procura pouso, sobretudo para descanso em meio aos poucos resquícios de mata atlântica existentes no Ceará. Lugar singular para um tiquinho da história do Ceará. Lugar do Charles.

Pois, este urubu, chegou ao Hotel Escola IFCE/Guaramiranga ai pelo ano de 2015. Era filhote de urubu ainda com penas brancas e pousou no pátio. Voou. Voltou no dia seguinte e no outro dia e Ione, que gosta de animais, trouxe-lhe um quilo de carne moída que ele degustou. E como gostou. Foi-se. Voltou. Foi-se e voltou para ficar. Bem tratado, filhote ainda foi ficando e resolveu por si só domesticar-se. Foi crescendo e ficou totalmente preto.

Das sete espécies de urubus existentes no Brasil uma delas é o urubu de cabeça presta, muito comum no nordeste. Charles é urubu de cabeça preta. Nunca tinha visto um urubu domesticado, mas Charles gosta de ser domesticado. Aves fundamentais no planeta. Cuidam de consumir carcaças e eliminar tudo que é de bactérias que os animais em putrefação deixam na terra. Possuidores de um sistema imunológico de fazer inveja são aves que não transmitem nenhuma doença ao homem. Urinam e defecam nas próprias pernas para impedir a proliferação de bactérias pelo corpo, já que pisam constantemente em cadáveres em decomposição. Natureza perfeita ou Deus perfeito?    

Charles. Altivo e decidido. Esta sempre no Hotel Escola. Come carne moída diariamente levada pela Ione. Esta sempre interagindo com os hóspedes. Onde há um ou um grupo ele voa do alto até o chão e vem para perto e gosta de bicar os pés dos hóspedes. Já bicou muitas vezes os meus. Já o vi pousar na cabeça do Jardel, funcionário do Hotel. E quando este vai embora em sua moto Charles vai voando acompanhando-o. Não é raro o Charles fazer vôos rasantes cruzando o saguão do Hotel. Lindo. Inusitado.

Sou um ser privilegiado. Conheci um urubu domesticado, que já bicou muito os meus pés. E quando chamo Charles ele se aproxima com aquele andar desengonçado, esticando o pescoço para frente e para trás, firme, decidido. Os urubus de cabeça presta vivem em média 30 anos. Sou feliz por que terei o Charles no Hotel Escola até morrer. Eu ou ele. Sempre que quiser ter a experiência de ver e conviver com uma ave de rapina domesticada virei ao Hotel Escola IFCE/Guaramiranga.

Pena que D. Luiza não conheceu o Charles. Mas graças a Deus D. Luiza deixou o legado dos móveis e das esculturas. Bom podermos conhecer, usar, usufruir e contarmos histórias do Palácio Guaramiranga, do Hotel Escola, do Charles e de nós mesmos.

Hotel Escola IFCE/Guaramiranga, 30 de novembro de 2018

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