Crônicas

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 1

 

Trabalho digno

Naturalmente, e, sem sentido, costumamos hierarquizar as profissões, afirmando ser essa ou aquela de destaque, digna, enquanto outras, não.

Ora, todos nós fazemos parte de uma teia incondicional de afazeres como sustentáculo aos mais variados segmentos laborais. Caso contrário, não haveria sustentabilidade.

O que seria, por exemplo, do médico, sem a atendente, do advogado, sem a secretária, do empresário sem os funcionários?

O que se percebe, infelizmente, é a existência da pompa e o encanto pessoal desnecessários que muitos exercem, como condição para transparecer superioridade nos ambientes de trabalho. Fato esse que irradia aos subalternos uma condição exagerada de respeito e inferioridade.

Diariamente, ao final da tarde, indo para a academia, distante 4 quadras da minha residência, presencio um zelador, não mais dos 30 anos, varrendo, dedicadamente, a calçada do prédio em que presta serviço.

Dou-lhe boa tarde costumeiramente. Ele, timidamente, quase sem levantar a vista, responde-me.

Hoje, ao passar na mesma calçada, presenciei esse zelador com a vassoura nas mãos, o celular no ombro, balbuciando baixinho e feliz as seguintes palavras: “filha, o papai tá chegando. Ele te ama viu!”

Que doçura, que amor de palavras presenciei saindo da boca de um trabalhador simples, mas feliz.

Pensativo, fui caminhando e imaginando a alegria do encontro desse pai com a sua filha, levando, talvez, o básico do básico para uma família simples, certamente, mas para um lar feliz e rico de amor.

O que se deduz, diante do exposto, é que todo trabalho é digno quando exercido com amor e dedicação, sem olhar para os interesses individuais e escusos, tão frequentemente usados por “ricos”, cujas fortunas, muitas delas, discutíveis.

Ah, como eu queria presenciar a tua chegada, amigo zelador! Ver o teu rosto feliz, o teu abraço paterno e o beijo da tua filha querida.

Que Deus abençoe você, seu trabalho e a sua família.

“Como é digno o trabalho de zelador!”

 

Abílio, 23 nov 2018

 

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