Crônicas

Antônio Carvalho Martins Filho

Acadêmico Corresponfente, representante da cidade de Joinville - SC

Troquei os discursos

A “Francesinha Mimosa” ou “Mamãe!”

Imaginem os senhores: filho de família católica, minha Santa Mãe (Aury Martins) Ministra da Ordem Terceira de São Francisco, meus dois irmãos mais velhos (Abílio e Joãozinho) seminaristas e eu dedicado aluno da Irmã Lúcia no “Primário” do meu saudoso e longínquo Patronato Nilo de Souza Carvalho. Não haveria – reconheçamos – “mistura” mais adequada para que eu também não tivesse uma forte formação cristã. Neste diapasão, portanto, consolidou-se a base valorativa que herdei ao longo dos tempos e que dialeticamente a vi transformar-se de acordo com o cipoal de valores a que nos submetemos ao longo desta existência. Assim é a vida! Somo energias pensantes!

Sempre ao final de cada ano letivo realizava-se com exagerada pompa uma festa para entrega de “diplomas” aos alunos tanto do “1º Grau Fraco” quanto do “1º Grau Forte”! Não me perguntem qual seria, afinal, este nível de “fraqueza” e muito menos a proposta pedagógica que subsistia a estes chamados “graus de fraqueza”. Acredito que Piaget ou Paulo Freire, infelizmente e pior pra eles, desencarnaram sem que tomassem conhecimento que lá no meu Patronato convivíamos numa mesma série com meninos felizes e pacificamente distribuídos entre “fracos” e “fortes”, sem “buylling” ou qualquer tentativa menos nobre de menosprezo quer pelas queridas irmãs, quer por alunos ou pais! Convivíamos juntos os “fracos” e os “fortes”.

Até hoje – confesso – não saber por que “cargas d’água” eu era escolhido para ser o tal do “Orador da Turma”. Começava uma rotina de decorar discurso elaborado meticulosamente por minha Santa Mãe, o qual seria na noite de gala declamado num gestual – perdoe-me minha mãe! – que beirava certamente o ridículo! O mister de ser “Oradora da Turma”, por vezes, cabia também a minha querida e saudosa irmã Regina Elizabeth, já desencarnada, e que também igualmente se dedicava com pouco mais dificuldade, é bem verdade, à memorização do longo discurso de quatro folhas de papel almaço tão belamente produzido por nossa Santa Mãe! Discursos longos! Teatrais! Exaustivos, mas encantadores pela beleza das expressões que conferíamos – eu e minha irmã – aos ensaios que fazíamos em casa: eu, ela e nossa Santa Mãe! Acho – acreditem! - que Cícero deve ter encarnado no Ipu ou deixou por concluir suas “Catilinárias” nas Terras de Iracema! E haja gestual!

Dentro de alguns dias decorei meu discurso com relativa facilidade! Sempre que meu pai chegava do Posto ou da Agência, após degustar seu jerimum com leite, orientava-me:

 - Declame o seu! (com afetuoso e talvez orgulho paterno)

E haja gestual! Os braços para cima! Voz grave emprestava às palavras um “não sei o que” típico dos grandes oradores! E ao lado da mesa de jantar, calção de elástico de um dedo, sem camisa, parecia fazer inveja aos tribunos romanos! Minha irmãzinha, ao contrário, debatia-se com algumas dificuldades na memorização de sua fala e por circunstâncias igualmente desconhecidas – longe de mim a soberba - passei a memorizar, também, o discurso inflamado e gestual de minha irmãzinha! À determinada fala de seu discurso, muito apropriadamente, ela citava uma expressão que anunciava:

 - “Sou francesinha mimosa, isto todo muito diz...”

E exatamente no momento desta fala mamãe orientou para que minha irmãzinha – muito meigamente – puxasse lateralmente as duas partes inferiores de sua saia, dobrassem os pés a exemplo de um estranho “pas de deux” e se inclinasse suave e respeitosamente para a plateia! Casamento perfeito da arte da oratória com a teatração! Os deuses gregos até hoje se orgulham de nós! E haja gestual! Com relativa facilidade decorei os dois discursos: o meu e o da minha querida irmãzinha, e acreditem: com “pas de deux” e tudo!

Meu amado pai é um exemplo para nós! Carinhoso ao extremo com seus filhos e eu como todo bom caçula que se preza gozava (e gozo!) de alguns “privilégios”, dentre os quais, sair com ele sábado à tarde para visitar as bodegas, de olho nos recém-lançados bombons “azedinhos”, o sucesso da meninada nos idos de 1967! Naquela ocasião meu pai pedia, em cada bodega que entrávamos, para que eu declamasse o meu discurso e depois o de minha irmã. Ao final de cada “encenação”, tinha que fazer o maldito “pas de deux”, puxar lateralmente a barra do calção e inclinar-me para aqueles cachaceiros e declarar-me: “Sou francesinha mimosa, isto todo mundo diz....” – E haja gargalhada! A cada bodega visitada, os dois discursos declamados teatralmente e mais três ou quatro “azedinhos” para dentro dos bolsos! Demos, eu e meu pai, neste périplo, volta inteira no mercado e para minha felicidade, de “pas de deux” em “pas de deux” à noite conferi um “apurado” de mais de 37 balas “azedinhos”. Um verdadeiro “show business”!

Nos momentos que antecediam à solenidade de gala no Patronato um natural frio na barriga percorria a coluna, testava meu sistema renal, questionava o volume na bexiga e denunciava um esfriamento de dedos e mãos nunca experimentados! Eu era, a rigor, pura sudorese! Autoridades perfiladas, os “fracos” e os “fortes”, nossos pais, o público e uma ansiedade embrulhava-me o estômago lutando contra um mingau de puba que horas antes desastrosamente tratei – sob protestos – de ingeri-lo!

Destes infortúnios que o destino nos causa fui traído pela memória e anunciada minha entrada para o bendito e “decorado” discurso que deveria proferir, eis que hábil e desavergonhadamente passei a recitar o discurso de minha irmãzinha que desesperada correu para trás do palco, aos prantos, seguida de Irmã Lúcia, tadinha! Da minha Santa Mãe guardo o olhar duro e circunspecto de seus belos olhos verdes! A sorte estava lançada! Chegou a hora do “pas de deux”!

 - “Sou francesinha mimosa, isto todo mundo diz......” E Haja “pas de deux”....

Tarde demais para perceber e tentar corrigir a tragédia que cometi! Alguns riram, outros estranharam. Outros não entenderam! Os “fracos” trataram de mangar! Os “fortes” silenciaram! Meu pai não cabia em si de tanto rir! Alguns meses se passaram até que eu voltasse a frequentar, com dignidade, as bodegas do mercado. Paciência! Tudo pela oratória!

 

Antonio Carvalho Martins Filho - Joinville – Dezembro de 2018

 

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