Crônicas

José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira nº 34

 

ESCOVA

            De dente, de cabelo, de roupa, de sapato, de sanitário e até escovão. Lembranças de infância. Desde tenra idade me foi ensinado que todas elas serviam para limpar. A de dentes para limpeza profunda da cavidade bucal. Elementos principais? Os dentes. Filho de dentista, na minha época sofria com esta limpeza. E a dentadura ficava muito limpa, usando-a pelo menos três vezes ao dia. Acredito que todos usam, menos a totalidade dos homens.

            As de cabelo também tinham e tem uso diário. Servem para nos deixar mais belos. Minha mãe sempre nos dizia, a vida toda que “os cabelos são a moldura do rosto”. Ela dizia, hoje quem diz sou eu. E ficam mais belos, efetivamente, quando usamos a escova de cabelos.

            E a escova de roupas? Presenciei este ritual durante toda a minha infância. Minha mãe passava um tempão esfregando a escova nos paletós do meu pai. Meus irmãos mais velhos contam que mais pratrazmente ela passava a escova nos paletós de linho branco. Hoje, passo em meus paletós um rolinho adesivo que tira os pelos e tudo o que se encontra no tecido. Mudam-se os utensílios mais a função é a mesma.

            A escova de sapatos par mim é emblemática. Meus pais educaram os filhos com responsabilidades domésticas para os filhos. Outros tempos. Em minha casa, a única que tive, eu e meus irmãos tínhamos tarefas domésticas a cumprir. Dentre minhas tarefas uma delas era engraxar os sapatos de meu pai e os meus. Independentemente de usá-los ou não. O couro de cromo alemão deveria ser hidratado, dizia ele. Os sábados a tarde eram dedicados a esta tarefa, passar graxa, colocar um pouco no sol para que a graxa secasse, passar um pano fino e por último dar o brilho com a escova de sapatos. Até hoje sou bom engraxate!

            As escovas dos sanitários serviam para dar um ar de limpeza. Até hoje ocupam a mesma serventia. A água parda no bojo do sanitário tende a impregnar a louça com ferrugem. Fosse um açude diríamos lodo. Estas escovas servem para limpar e deixar branquinhos os vasos sanitários.

            E o escovão? Garanto-lhes que poucos sabem do que falo. Eram usados para dar brilho aos mosaicos. Quem sabe alguns saibam o que era uma enceradeira. Hoje elas não existem mais. Mas foram muito úteis para dar brilho ao chão. Escovão, manual, enceradeira elétrica. Evolução. Função? A mesma, deixar o chão brilhante!

            Desde tenra idade, vivi, convivi e usei todas estas escovas. Servem para limpar: os dentes, os cabelos, as roupas, os sapatos, os vasos sanitários, os chãos. Limpar. Embelezar a vida.

            Há uma mulher de um primo segundo, na verdade primo segundo de meus pais, Vânia, casada com o Paulo Ozanan, que depois dos sessenta inventou de dizer: “Deus fez uma coisa muito errada. Os dentes deveriam ser fixos, para sempre.” Entendo e concordo com ela, temos a primeira dentição. Caem todos e nascem os permanentes, isso em linguagem odontológica, porque depois dos sessenta começam os permanentes a cair... Hoje a solução é o implante e como dói, e como é incômodo faze-los. Aí não há escova de dente que evite.

            Entretanto, voltemos a limpeza. O homem ainda não inventou uma escova que limpe o coração, o ódio, as magoas as mazelas. O homem ainda não inventou uma escova que limpe a desigualdade social, o rancor, a inveja e o orgulho. O homem ainda não inventou uma escova que limpe a corrupção a ganância. O homem ainda não inventou uma escova de limpar os maus políticos ambiciosos e inescrupulosos.

            Políticos no Brasil? Não. Existem, lamentavelmente, políticos inescrupulosos, corruptos, interesseiros. Vou usar uma escova que limpe definitivamente esta corja. A escova chama-se voto. Função de toda e qualquer escova? Limpar. Função do voto? Limpar para mudar. Vote. Limpe o Congresso Nacional!!! Precisamos, urgentemente desta limpeza. A escova para isso? Existe. Chama-se voto. “Que pais é este?” Já dizia o poeta no final do século passado. Um visionário? Talvez. Premonição? Não sei. Sei que é inadmissível convivermos com a sujeira.

Usemos a única escova disponível para este mal. Indignação? Não. Voto, escova moderna.

Coco, 13 de dezembro de 2017.

 

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