Crônicas

João Rodrigues Ferreira

Acadêmico correspondente

 

Viagem literária

Através das letras, conheci o mundo sem nunca ter saído de meu país. Jamais cruzei a fronteira física de minha nação, mas sempre viajo no universo da literatura e visito grandes autores da literatura mundial. E já que vivo por aqui, também não deixo de frequentar os escritores nacionais em seus botecos, em seus cortiços, nos sertões, nas serras, onde quer que estejam, e, em silêncio, trocamos confidências e discutimos os mais diversos assuntos: literatura, poesia, sonhos e loucuras.

Sim, o poeta é louco, o escritor é louco – o mundo é louco. Assim me disse Freud em uma tarde de chuva em seu divã, numa gélida noite londrina dias antes de ele morrer. Shakespeare também me assegurou isso enquanto tomávamos um vinho em Veneza e batíamos um papo com Romeu e Julieta. Eu não acreditava muito em loucura até passar um fim de semana na Casa Verde de Itaguaí (graças a Deus o médico não me viu por lá), indicado por Brás Cubas – é, aquele mesmo que escreve do além. E adivinhem quem encontrei por lá: Dom Quixote de La Mancha em seu cansado pangaré Rocinante, que me contou muitas histórias de sua amada Dulcineia, enquanto Sancho Pança tirava uma soneca e sonhava com terríveis batalhas.

Mas a vida é também alegria. Percebi isso quando passei algumas tardes fagueiras chupando laranjas com Casimiro de Abreu; quando me aventurei em uma canoa no rio Paraíba com Henrique e Eduardo rumo à Ilha Perdida; e num final de semana gostoso que passei me deliciando com os quitutes de Dona Benta e brincando com a turma do Sítio do Pica-pau Amarelo enquanto Monteiro Lobato escrevia mais uma de suas histórias. Naquela época eu morria de medo da Cuca! Já adulto, confirmei isso ao passar algumas noites enluaradas na companhia de Iracema nas verdes matas cearenses e nos gelados banhos na Bica do Ipu, enquanto ouvíamos uma bela serenata cantada por Belchior. Depois, dei umas voltinhas com Aurélia no Passeio Público do Rio de Janeiro; dei uma esticada até a Ilha de Paquetá para dar uns mergulhos com a Moreninha; fui confidente de Betinho e Capitu numa noite calorenta no Centro do Rio; passei uma tarde ouvindo e contando lorotas com João Grilo e Chicó; dias depois embarquei numa viagem alucinante com meu amigo Macunaíma. Como curtimos!

Eu gostaria de falar mais, porém tenho que me retirar, pois vou a uma conferência com Alencar, Raquel, Graciliano, Drummond, Suassuna e mais alguns grandes mestres em um botequim nos recantos baianos a convite de Jorge Amado – em Ilhéus. E, se não me falha a memória, Gabriela é quem preparará os deliciosos quitutes para tirar o gosto da cachaça que hei de tomar com Quincas Berro d'água.

            Aguardo você por lá.

 

 

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