Crônicas

Maria Silonildes de Mesquita

Titular da Cadeira número 38

 

Viajar nos aproxima! 

        Desde o ventre da minha mãe, acostumei viajar. E quando criança sempre viajávamos. Não importa se era para um lugar longe ou perto, para cidades distantes ou vizinhas. O que conta é que toda vez que nos deslocamos para lugares diferentes do que você mora, podemos considerar uma viagem. E isto nos trás experiências diversas e nos ensina a saber conviver melhor com as pessoas e com o mundo. Com isto me tornei uma pessoa de comportamento adaptável as situações diferentes, sejam com pessoas ou com o meio físico. Desde cedo aprendi a sair do micro  para o macro mundo e quando não viajava literalmente, estava a viajar através dos livros e da minha imaginação. Sempre fui muito intuitiva, criativa e perceptiva.

       Viajar e conhecer pessoas nos faz crescermos diferentes e enxergarmos o mundo e as pessoas de outra forma. Aprendi isso ,ainda adolescente, em uma viagem de férias em Camocim. Lá me aconteceu algo que guardo até hoje e muito ainda, me serve de lição. Às noites dos anos 70 em Camocim, eram como às noites das outras cidades do interior, os jovens se concentravam na praça principal e lá conversavam e combinavam onde terminar aquela noite. Camocim, era uma cidade muito divertida e não faltava festas! Um certo dia, estava eu na praça principal de Camocim, com umas amigas de lá, que acabara de conhecer e numa dessas voltas na praça, encontrei Climéria,uma colega de Ipu. Qual não foi minha alegria por encontrar esta amiga em Camocim ! Nos abraçamos com tanta alegria que até parecia sermos grandes amigas em Ipu. Isto foi maravilhoso, porque nos sentimos acolhidas uma pela outra e dali surgiu uma grande amizade e pude descobrir o ser humano bondoso que é a Climéria. Outra vez, aconteceu encontrar em Camocim, Enilda Gabriele, também de Ipu. Como não tínhamos mais ninguém por lá, mesmo tendo idades diferentes, nos afeiçoamos uma à outra e nasceu aí uma grande amizade! Ainda hoje tenho saudade destas amigas. Com elas aprendi o quanto é importante você abrir espaço no coração para uma nova amizade, um novo abraço ! Acho que é uma das melhores razões para viajar é conhecer pessoas, com o tempo você começa a escutar melhor os outros, entender e respeitar suas ideias, seus problemas e aflições. Escutar as pessoas é uma dádiva que não é tão fácil de se ter, é algo que leva tempo para aprender, perpassa pelo amor ao próximo. Mas quando desenvolvemos este carisma nos tornamos pessoas melhores. Então viajar para mim é sempre uma experiência nova e desafiadora.

          Já vivi muitas experiências marcantes em viagens, mas o que mais mexe comigo é o calor humano, é o fazer novos amigos, é aprender ter humildade para conviver com o diferente. É não ter irmãos por perto e fazer nascer no amigo um irmão. Assim me aconteceu numa certa viagem de férias a Portugal. Estando em Lisboa e passeando no Castelo de São Jorge, encontrei uma Senhorinha sentada e fiquei  a observá-la por algum tempo e percebendo que ela estava sozinha, resolvi aproximar-me dela. Lá chegando  apresentei-me e começamos a conversar. Na conversa ela falou-me que era de Fortaleza, e estava ali numa viagem de férias com seu filho e seu neto. Disse-me também que estava achando tudo lindo e amando a viagem, pois era a primeira vez que viajava acompanhada do filho e do neto. Achei aquilo muito interessante e logo imaginei o quanto este filho amava sua mãe! Em resposta à sua receptividade, falei um pouco de mim e disse que também era de Fortaleza. Ela ficou muito feliz e confiante e foi logo me dizendo que estava sentada porque já tinha andado muito pelo castelo e estava cansada. Já estávamos bem intimas, quando seu filho e neto chegaram. Ela apresentou-me a eles , nos cumprimentamos, mas o neto me abraçou de uma maneira tal, que parecia estar abraçando sua mãe e eu o abracei como se estivesse abraçando um filho. E logo houve uma empatia muito grande entre a gente e ficamos amigos e certos de que após a viagem nos encontraríamos novamente em fortaleza. E após troca de telefones, nos despedimos e partimos, pois sabíamos que nossa programação turística em Portugal seria extensa e cada um iria para lugares diferentes. Após quatro dias, estava em Sintra, visitando o Palácio Nacional Da Pena, por sinal uma construção belíssima e riquíssima, com arquitetura neorromântica e estilo neomanuelino, datada de 1836, construído no reinado de Don Fernando II. Naquele dia tinha muita gente visitando o palácio. Eu estava encantada com tanta beleza, riqueza e suntuosidade que não vi a hora passar. Olho o relógio e percebo que já era hora de voltar para a van, pois o guia havia marcado horário, desço correndo os degraus externos do castelo e vejo lá de cima uma voz a chamar meu nome. Parei e achei uma maravilha, no meio de tantos desconhecidos alguém chamando meu nome, Olho para cima e vejo Renato, o meu amigo recém conhecido no Castelo de São Jorge, a descer as escadas , correndo em minha direção para abraçar-me. Aquele abraço encheu-me de alegria e vi o quanto necessitamos de um abraço verdadeiro, vindo de um amigo, principalmente quando estamos longe de casa e temos por perto pessoas frias e desconhecidas, Senti que ali havia nascido uma grande amizade! E percebi o quanto a felicidade é relativa. Por isso viajar faz com que você descubra que a felicidade está em coisas simples, em pequenos gestos de outras pessoas que nos fazem felizes por aquilo. Como é gostoso chegar num local desconhecido e encontrar em meio a multidão, alguém para nos abraçar com amor e nos chamar pelo nome!

         Recentemente viajei para Rio Grande Do Sul, numa excursão da igreja, onde particularmente não conhecia ninguém a não ser o padre. Antes de viajarmos, fizemos uma reunião e pude visualizar as pessoas que passariam a conviver comigo, durante cinco dias. Para minha surpresa, esta foi uma viagem emocionalmente riquíssima, pois nos tornamos uma família! Nela pude sentir que lar é laço, é afeto, que para ser feliz não precisamos de muito. Isto aprendi fazendo as malas e percebendo que temos em demasia, que temos que simplificarmos nossa bagagem, pois o mundo também pode ser nossa casa. E aprendi o quanto precisamos nos desapegar de quinquilharias que vamos guardando ao longo dos anos, não precisamos aprisionar materialmente lembranças de viagens, basta guardar nas fotos e na alma. Também nesta viagem, me aconteceram encontros maravilhosos e inesperados com amigas do coração. Estando em Gramado e em visita ao Lê Jardim de alfazemas,um lugar belíssimo e fora das rotas de excursões, encontrei com uma grande amiga de Fortaleza, que também estava de férias por lá. Como foi maravilhoso este encontro! Como fiquei feliz em poder dividir aquele lugar tão lindo com alguém especial. Congelamos este encontro através de fotos e tenho certeza que nossos espíritos ficaram exultantes de alegria, pois Glaucianne é uma amiga muito iluminada e sempre gostei de tê-la por perto e senti isto como uma providência Divina.

        Querer é poder e tudo se conquista primeiro no pensamento, para depois ser verbalizado e concretizado. Nivalda, uma amiga de trabalho, despediu-se no grupo de amigas da escola, dizendo que estava de partida para Brasília e eu brincando falei; nos encontraremos lá! Na verdade, depois de alguns dias viajei à Brasília e indo almoçar em um determinado shopping com minha família de lá, encontrei esta minha amiga de trabalho, também com sua família, almoçando em uma mesa vizinha a nossa! Qual não foi nossa alegria de encontrarmos uma à outra! Que mundo pequeno !

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