Crônicas

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 12

Espirro maldito

            Na década de noventa tínhamos o hábito de passar as férias escolares no nosso aconchegante sítio, no Icaraí. Eu, em razão do compromisso laboral me obrigava a sair muito cedo da chácara, retornando no início da noite.

            Conosco iam sempre os familiares mais próximos: sobrinhos e irmãos. Um dos mais assíduos, até em razão do cuidado que merecia, era o querido e saudoso cunhado, Antônio Erasmo, cognominado de Capitão. Aliás, este apelido merece outra curiosa e hilariante crônica.

Pois bem, Capitão, aposentado do extinto BEC, era muito querido pelos amigos e familiares, em razão da sua irreverência e total descompromisso com os hábitos sociais, influência das amizades adquiridas nas esquinas e botecos vulgares. Levava parte da vida alimentando o vício da bebida, que não o abandonava, apesar das inúmeras tentativas em deixá-la.

Certo dia, já às pressas, sento-me à mesa para o café da manhã, fazendo-me companhia o querido Capitão.

No centro da comprida mesa, sento-me de frente para o cunhado para saborearmos um suculento cuscuz.

Frequentemente olhando para o relógio, começo a me servir, quando, por instante, percebo por cima dos óculos um gesto estranho do parceiro de mesa. Estava com as duas mãos sobre a mesa, a boca semiaberta, cheia de cuscuz, elevando vagarosamente a cabeça, propiciando o aumento da caixa torácica, quando, de súbito e sem controle, espirra ou tosse, melhor dizendo, espirra e tosse ao mesmo tempo, numa pressão jamais vista, deixando-me literalmente pigmentado de cuscuz.

Com os olhos arregalados e assustado da sua própria atitude, olha-me piedosamente e diz:

_ PQP Abílio, foi mal.

Olhei para ele, mas... dizer o que!

(Cheguei atrasado no trabalho.)

Abílio, 12 ago 2018

Mais artigos do Autor.