Crônicas

Titular da Cadeira Nº 34

 

            Dona Maria Cândida Carvalho Aragão, casou-se com o Cel. José Raimundo de Aragão Filho.  Nascida em Ipu, em 13 de maio de 1873. Taurina com personalidade de virgem, possuía uma inteligência privilegiada, além de raciocínio preciso e rápido. Pessoa muito organizada e cheia de humor o que fazia com que todos gostassem de conviver com ela. Era uma mulher confiável e paciente. Imaginem, teve doze filhos e uns bem próximos aos outros. Mas também era muito teimosa.

            Seguindo os padrões dos valores de sua época, morava em um casarão de esquina com linhas arquitetônicas portuguesa. Pé direito com no mínimo seis metros de altura, para propiciar um microclima interno fresco, em duas águas, com cumeeira que permitia a existência de grande sótão. Tudo no casarão era muito grande. A sala de visitas, o salão azul, um imenso corredor com quartos para os dois lados, que ia dar na sala de jantar imensa de fora a fora.

            Para uma sala de jantar muito grande com uma família de 12 filhos, a mesa de jantar deveria ser proporcional ao espaço e ao número da família. Cel. Aragão encomendou uma mesa de jantar com cinco metros de extensão e um metro e trinta centímetros de largura. A madeira? Maracatiara, que vem do tupi com etimologia de marakati iára. Madeira de lei também conhecida como aroeira, aroeirão, baracatiara, gonçaleiro, Gonçalo-alves ou sanguessungueira. Mas, pras bandas do Ipu era mesmo maracatiara. Madeira de grande durabilidade não sendo atacada por nenhum inseto. Também como se dizia pras bandas do Ipu é madeira que cupim não come ou não roe.

            A mesa de que falo tem cerne de cor castanho-avermelhado com nervuras castanha escuro em sentido vertical. De acordo com especialistas a maracatiara é fácil de ser trabalhada e possibilita um excelente acabamento. De fácil emassamento é ótima para pintura e excelente para envernizamento o que oportuniza um magnífico acabamento. Hoje, com muito mais de cem anos de uso ininterrupto a mesa continua com a mesma função, embora em tamanho menor. Dos cinco metros originais de comprimento foi necessário diminuir para três metros para adaptar-se aos novos espaços e caber na cozinha da casa do Bertim e Joaninha, em Paracuru. A mesa da “Mãezinha”, como o Bertim chamava a avó, originalmente acomodava vinte pessoas, hoje, acomoda quatorze. As cadeiras originais já não existem pois foi necessário substitui-las por bancos mandados fazer também em maracatiara. Joaninha caprichou na escolha dos bancos, desenhados em harmonia com a velha mesa e trabalhados na mesma madeira da mesa. As pernas da mesa, originalmente em número de doze, foram reduzidas a oito, mas continuam majestosas e boleadas em seu feitio original. Estima-se que esta mesa tenha aproximadamente 130 anos se considerarmos que a primeira filha do casal nasceu em 1897.

            Sempre usada no casarão até a morte do Sr. Antônio Cícero, viúvo de D. Anísia, primeira filha do casal, veio para Paracuru em 1992 quando se fechou definitivamente para a família, o casarão dos Aragão.

            Uma mesa e uma história que continua aconcehgando a família que cresce e agrega, hoje acolhe os tataranetos do casal Cândida e José Raimundo, das famílias Carvalho e Aragão do Ipu.

            Tomara sermos como a maracatiara, firme, forte, duradoura e elegante. Que mesa linda!

Paracuru(CE) - 17/07/2018

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