Crônicas

Cadeira Nº 34

 

            Nos anos sessenta, setenta e até oitenta do século passado os recursos arquitetônicos no interior dos estados, principalmente do Ceará, eram escassos.  Concreto armado já existia. Forro de gesso ou de PVC não. O concreto era caro.

            As casas eram cobertas tão somente com telhas e telhas fabricadas de barro. Nos primeiros meses do ano, época do quadro invernoso, como se diz por estas bandas, sentíamos, nas noites de chuvas o barrufo finamente pingando em nós. Que sensação impar. Que frio majestoso. Em criança recebíamos, além do lençol de praxe, um cobertor, porque existia a truviana, um vento friento que chegava as nossas redes vindo pelo chão. Que maravilha! Dormíamos encolhidinhos nos lençóis e cobertores ouvindo o som do trovão e o clarão dos relâmpagos que passavam pelas telhas. E o barrufo? Aqueles pinguinhos fininhos, delicados que desciam do telhado.

            Minha mãe tinha um hábito de colocar um toldo acima das nossas redes. Armava outra rede, bem esticada acima e a abria com um cabo de vassoura. Isso para evitar que o barrufo caísse em cima de nós. Eu, na minha meninice achava aquilo maravilhoso e torcia para chegar o inverno. Mas o toldo não impedia a truviana. Ah! A truviana. Ah! O barrufo. Hoje não vejo mais ninguém falar em truviana muito menos em barrufo. Mas agora estou ouvindo o trovão e a luz frenética dos relâmpagos que vem do nascente. Acho que isso não mudou. A chuva vem sempre de lá. Tomara que ela me traga uma truviana. Seria maravilhoso sentir de novo o barrufo. Pena que moro em um edifício de concreto.

            Meus filhos nunca souberam o que é isso. Lamentável. Sei o que é barrufo e continuo sentindo a truviana, ainda que em um quarto com ar condicionado. Mas vejo e ouço o relâmpago e o trovão vindos do lado do nascente.

Sousa(PB) - 12/02/2018

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