Crônicas

Titular da Cadeira Nº 34

            Eram muito amigas ao ponto de visitarem-se duas, três vezes por semana e conversavam por boa parte da manhã. Assuntos não faltavam e quando faltavam inventavam.

            Mulheres tagarelas. Não sei qual das duas conversava mais. Eram elas Filhas de Maria e todas as sextas, principalmente as primeiras sextas-feiras dos meses, lá iam elas a igreja vestidas de branco levando o missal da confraria e a fitinha azul com a Medalha Milagrosa para dependurar no pescoço quando a igreja chegassem. Cumpriam religiosamente as nove sextas-feiras.

           D. Maura passava lá em casa, pois morávamos no caminho que ela fazia até a igreja. E voltavam as duas conversando, conversando e conversando. Como conversavam aquelas mulheres!

           D. Maura tinha um irmão, Luis, que morava em Fortaleza, lá pras bandas da Parquelândia, e costumava passar temporadas na casa do irmão. Quando voltava trazia plantas novas, em caixas de papelão, em sacolas no solavanco do trem. Ah, esqueci de dizer, as duas eram apaixonadas por plantas decorativas e tinham jardins e jarros floridos.

            Há uma dessas plantas que foi D. Maura quem trouxe e disseminou-a no Ipu. Chama-se pacavina. Uma planta decorativa de batata e que dá fios como as bananeiras. Houve um tempo em que o jardim da minha mãe ficou cheinho de pacavina. E é uma planta bonita com uma flor maravilhosa em formato de pequenas bananas.

            Mamãe trazia plantas de Tamboril que D. Maura não tinha. Elas sempre se presenteavam com mudas nova de crotos de jarro; de roseiras, dentre elas a amélia de fragrância inesquecível; de jasmim, de jasmim do céu; boa noite e bom dia; nove horas; margarida branca; bugari, de perfume inconfundível; copos de leite tantas e tantas plantas decorativas e alegres.

            Mas como gostavam de plantas e como cuidavam bem de todas elas. E a maneira de podá-las? E a estrumação com esterco de vaca? Deixavam o esterco vários dias molhando sempre para sair o xixi da vaca. Se adubassem as plantas com esterco com xixi, matavam-nas. Era um verdadeiro ritual.

            E elas falavam e falavam e falavam e eram bem amigas. Minha mãe era assistente do meu pai no consultório dentário. Atendia os clientes, encaminhava-os e fazia sala antes dos atendimentos no consultório. O Sr. Manuel Assis era cliente antigo e levava todas as filhas. D. Maria Assis, D. Maura e D. Roseli, a filha mais nova do segundo casamento do Sr. Manuel Assis com D. Luizinha. Eram clientes do papai desde os tempos em que ele chegou ao Ipu. Iam-se os anos de 1930.

            E mamãe tornou-se amiga de D. Maura. Mulheres miúdas, faladeiras, ligeiras, agoniadas, ágeis, espertas e amáveis. No mês de maio iam elas e as outras vizinhas, D. Mimosa Tavares e o séquito de irmãs moças velhas, D. Maria Dantas, D. Luiza Souza, D. Maria Assis acompanhar as novenas marianas de Nossa Senhora no bairro dos Canudos. A imagem de Nossa Senhora das Graças era prestigiada pelas mulheres conversadeiras do centro da cidade que não tinha andor. Também, o padre só fazia andor para os bairros e Canudos era o bairro mais próximo delas a dois ou um quarteirão de onde moravam. Depois era só atravessar a linha do trem e já estavam nos Canudos.

            Nestas comemorações marianas os jardins de D. Maura e D. Maria eram por demais floridos, inverno. E elas levavam rosas e flores, as mais diversas, entremeadas em avencas para o andor de nossa Senhora, diariamente de 1 a 31 sem perde um só dia quer chovesse ou fizesse sol. 

            Ah jardins. Flores, rosas, escadinhas, avencas, mimo do céu. Como eram floridos, bem cuidados e verdejantes. D. Maura Assis e D. Maria Sales sabiam bem apreciar o belo, cuidar e fazer florir jardins. Os jardins da minha infância!

                                               Coco, 10 de abril de 2018

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