Crônicas

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 12

 

Deus existe

 

Transcorria o mês de novembro do ano de mil novecentos e setenta e nove.

As ruas e praças de Porto Alegre se enfeitavam para comemorar mais um ano do nascimento de Cristo.

Para nós, minha mulher e eu, mais um motivo havia para tanta felicidade. Aguardávamos, ansiosos, para os próximos dias, a chegada do filho primogênito.

Infelizmente, não podíamos compartilhar dessa felicidade com a família. Pouco mais de 4.000km nos separavam dos familiares.   

Pois bem: numa tarde abençoada do dia 27 de novembro, daquele ano, terça-feira, pedi licença ao chefe da minha seção, no Departamento de Polícia Federal, para ir ao Hospital Conceição, colher informações acerca dos procedimentos a serem tomados quando chegar o momento tão aguardado.

No hospital fui apresentado à chefe das enfermeiras, que vou chama-la de “Graça”, uma simpática paraibana, a quem relatei toda a minha angústia e ansiedade, somadas a inexperiência de pai.

Ela, comovida com aflição do conterrâneo nordestino, deu-me toda atenção e a orientação necessária, inclusive a autorização para procurá-la.

Antes da despedida, Graça apresenta-me a um jovem médico, que vou chama-lo de Dr. “Salvador”, a quem ela relata o meu histórico de ansiedade.

Assim como Graça, Dr. Salvador, depois de palavras confortadoras, concluiu:

_ Aqui chegando, procure-me.

Depois do contato com pessoas tão bondosas, retorno leve e feliz para o nosso aconchego, um apartamento simples, na Rua Olinda, bairro da Floresta.

A noite transcorria normalmente quando às 22h, aproximadamente, fui surpreendido com as seguintes palavras:

_ Abílio, rompeu a bolsa.

Que susto, que alegria, quanta ansiedade!

Coloquei a Chaguinha no Fusquinha, ela já sentindo as primeiras contrações e nos dirigimos rápido ao hospital.

No percurso, calado e tenso, ficava a pensar: Que falta faz minha mãe, sogra, familiares!

Já no hospital, deixei minha mulher no estacionamento e corri à recepção.

_ Senhorita, por favor: Eu preciso falar com a enfermeira Graça.

_ A Graça já saiu, Senhor. Terminou o seu expediente.

_ Senhorita, a minha mulher entrou em trabalho de parto e se encontra no estacionamento. Precisa, urgentemente, ser atendida.

_ Senhor, o hospital está lotado. Não existe vagas.

Aturdido, sem saber o que fazer, vejo, caminhando por um dos corredores, o Dr. Salvador. Saio ao seu encontro e relato o fato.

Ele, surpreso, me indagou:

_ Você nos afirmou, hoje, que a data prevista seria para 10 a 15 dias?

_ Sim, realmente, Doutor, mas a inexperiência nos enganou.

Ele, bondosamente, olha para mim e pede para aguardar.

Nesse ínterim, fico eu, apreensivo, com um olho na recepção, outro no fusquinha.

Depois de alguns minutos surge o médico Salvador acompanhado de um enfermeiro, trazendo, consigo, uma maca. Dirige-se ao estacionamento, pega cuidadosamente minha mulher e a leva para um apartamento especial, enquanto eu, tenso, aguardo na recepção.

A tensão transformou-se em alegria quando nas primeiras horas do dia fui chamado ao berçário para conhecer a criança mais linda do Hospital Conceição.

Sou-Lhe grato, meu Deus, por me ter conduzido naquele tarde do dia 27 de novembro de 1979 ao Hospital Conceição, e a “graça salvadora” de ter sido apresentado aqueles dois anjos.

Deus existe. E está conosco nas horas mais difíceis.

Acredite.

Abílio, 26 mar 2018

Mais artigos do Autor.