Crônicas

Francisco de Assis Martins

Titular da Cadeira Nº 15

 

Violão, bandolim, uma flauta para que as notas musicais entrassem doendo no fundo da alma, eram os instrumentos que compunham o grupo que desejava fazer uma serenata. E que deixasse saudades na amada e não irritasse o dono da casa. E o cantor não precisa ser dos melhores, bastava escolher bem o que iria cantar.

As canções eram românticas, tinham histórias, começo, meio e fim. As letras falavam de amor, dor, perdas, idas e voltas (estudantes de Fortaleza) e os versos eram rimados. Coração com violão, saudade com felicidade. Fazia bem aos ouvidos, agradava a alma.

Letras reverenciavam a lua cheia, prateada, no céu azul. Ao som dolente de um violão e na sonoridade da Flauta, o cantor exalta a beleza da amada, os seus olhos verdes, azuis ou claros e seus cabelos tão sedosos.

O resultado da empreitada musical costumava vir logo em seguida. Depois de três ou quatro melodias, havendo agrado nas canções e interesse da donzela, a cortina do quarto se abria e um olhar de aprovação chegava até o grupo. A amada nem sempre chegava à janela.

Quando não havia receptividade amorosa, canção alguma abria o coração da amada, e quem normalmente chegava à janela era o pai, que despejava baldes de água fria nos cantores da madrugada. Que saíam correndo, com cachorros latindo atrás.

Eram mais ou menos assim as nossas serenatas. Percorríamos as rua do Ipu, para deleitas as nossas amadas a poesia traduzida numa bela música. Começávamos sempre pela Rua do Papoco, logo no inicio, pertinho da Matriz, eram várias as casas que recebiam o deleite de nossas músicas. Rua da Itália, Praça da Estação, rua da goela e finalmente o QUADRO.

Executávamos somente músicas previamente selecionadas.

Os cantores Paulo Soares, Carlos Soares e às vezes quando aqui no Ipu se encontrava Wilson Lopes. Instrumentistas, Francisco Mello, Raimundo Augusto, Frasquinho Jorge, eram os violonistas, vez por outra Mello tocava uma flauta. Um Pistom educado e sonoro do Chico Hermeto, Linhares e outros.

Acompanhantes, DIÃO, BOY, IRAPUAN, ELIARDO, ZÉ CESAR, ANTONIO TAVARES, FLORIVAL, ZÉ NABOR, MARCOS BAÚ, EDVARD MARTINS, ERIVALDO, FANICO, TARCISIO BENTIVI, (Uma voz e um Violão) Valdir Viana, José Maria Gomes, Gerardo Aires, Antônio Gomes, Tatais, Uruca e outros e mais outros.

Assim amigos e muito especialmente amigas que ainda se recordam das nossas inesquecíveis SERENATAS, eram mais ou menos assim.


[...] o Mello dedilhava habilmente as cordas do violão e eu um vozeirão, era o cantor-mor. Defronte a residência das garotas das quais éramos fãs, parávamos e o Mello e Eu interpretávamos os sucessos da época, principalmente músicas do repertório de Nelson Gonçalves: "Boemia", "Deusa do Asfalto", "Atiraste uma Pedra", "Renúncia" e outras.

Uma canção, uma dose de gim-tônica e a madrugada friorenta iam esquentando. Quando o cantor titular cansava, nós nos revezávamos como improvisados cantores. A certa altura, interpretávamos com nossos poucos recursos vocais, uma melodia, quando, alguém que, com certeza queria dormir sossegado, soltou um gigantesco cachorro para nos atacar. Ao depararmos com o bicho furioso, de olhos acesos, resolvemos fugir em alta velocidade para salvar a pele. No trajeto, deixamos cair às garrafas de bebidas que levamos como estimulante. Mas, o pior foi à decepção que tivemos no dia seguinte. Encontramos, no "footing" do jardim da praça, um grupo de mocinhas para as para as quais dedicamos nossos números musicais. Conversando com elas, na esperança de receber elogios, fiquei decepcionado quando uma delas assim se expressou: "Daqui uns vinte anos "talvez" você se torne um bom cantor, nem deu para saber quais as músicas que você cantou".

Depois dessa serenata frustrada, o negócio foi desistir, definitivamente, de fazer outra.

 

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