Crônicas

Maria Silonildes de Mesquita

Titular da Cadeira nº 38

Memórias da minha infância

Infância é uma época de muita inocência e pureza e quando bem vivida vai nos acompanhar e nos ajudar positivamente para o resto da vida e quando mal vivida, também vamos levar seus sintomas para sempre! É muito difícil falar da minha infância, pois os sentidos se afloram e a alma começa a reviver e captar cada situação por mim vivida. É como também partilhar minhas vulnerabilidades e minhas fraquezas em forma de saudade, já que algumas pessoas que eu muito amava partiram.

      Minha infância foi marcada e rodeada de muitas coisas boas! Era amada e embalada pelo carinho dos meus pais e vários irmãos mais velhos. Foi um período de muitas brincadeiras e passeios com meus pais e irmãos em cidades vizinhas a minha e em casa da nossa família. A minha primeira infância durou até meus seis anos, nesta época não frequentava nenhuma instituição sistemática, vivia com meus pais no sítio Monteiro e, portanto guardo muitas lembranças boas de lá.

 Na minha casa do sítio Monteiro, tinha um rádio bem grande e logo cedinho meu pai rodava seu botão e ele começava a cantar. Tinha um programa infantil do carequinha, não lembro o nome, mas quem apresentava era o palhaço carequinha. Quando ele começava a cantar músicas de ciranda eu ia para detrás do rádio, tentar ver onde as crianças estavam escondidas, porque eu também queria ir para dentro, vejam quão grande era minha inocência! À tardinha tínhamos o programa de rádio do Varandão e ao terminar, meu pai ia acender a petromax, para a casa ficar iluminada e após isto ele sentava em sua cadeira às 19 horas, e ficava ouvindo pelas ondas do rádio o noticiário: “A Voz do Brasil”. Ainda hoje gosto de ouvir!  Após este horário minha mãe nos chamava para sentarmos ao seu redor e juntos rezarmos o terço. Era no início muito difícil para mim, não gostava muito daquela ladainha e também nem sabia para que servia. Mas graças à este costume e dedicação de minha mãe me tornei também uma pessoa cheia de fé. E procuro colocar e entronizar Deus em primeiro lugar na  minha vida. Graças aos ensinamentos de minha mãe!

 Observava muito as músicas que os irmãos mais velhos cantavam, sempre gostei muito de músicas! Uma delas marcou minha vida quando tinha três anos de idade, tempo em que Adilson, meu irmão mais velho foi morar em São Paulo e antes de partir ia fazer serenata para os seus afetos e chegava a casa cantando; “ O relógio” cantada por Adilson Ramos. Ainda hoje quando escuto lembro-me fortemente dele, com muita saudade e lágrimas nos olhos, pois o amava muito e ele não mais se encontra neste plano.

Minha infância estendeu-se até os seis anos de idade, na companhia direta com meus pais. Estávamos juntos nas viagens, nas missas domingueiras em Guaraciaba do norte, nas visitas ao patronato Benjamim Soares, na serra do pajé, no seminário em Tianguá, onde meu irmão Joaquim estava interno, o café em casa dos amigos dos meus pais, as uvas na casa de dona sulta, esposa do Senhor Cândido Vicente, visita na casa de tia madeirinha, o nosso passei no sítio Santo Amaro, as rosas Amélia que dona Neném cultivava, a primeira visita de nossa senhora de Fátima a Guaraciaba do Norte, o engenho com suas moagens, nos fornecendo de mel, rapadura quente e alfenim e ao mesmo tempo nos aquecendo do frio nas manhãs geladas do inverno. A casa de farinha, cheia de mulheres conversando, cantando e raspando mandioca para ser colocada na moinha e os homens torrando a farinha e cuidando da borra para alimentar os porcos. Tudo isso nos alegrava e nos chamava a atenção. Ver aquilo era como estar num clima de festas!  À noitinha íamos visitar o meu avô: Joaquim Mesquita Martins, que também havia chegado de Santa Quitéria e estava passando férias com os filhos em seu sítio Monteiro. Por lá as brincadeiras corriam soltas na bagaceira, em noites de lua cheia. Os passeios com meus pais no sítio garrancho, passeios à Reriutaba em casa de familiares.  Os banhos no rio Almesca, com  os irmãos, tios e primos.  O bumba meu boi nas noites de rezado na lagoa. A partida e a saudade das famílias amigas que iam embora para o rio de janeiro. A morte, uma coisa muito rara na época e quando acontecia deixava lembranças muito dolorosas em nossas vidas. Uma infidelidade da época; a história de Santana e Jerônimo, Esta guardo na memória até hoje!

Aos sete anos, tive que morar definitivamente em Ipu, era época de iniciar meus estudos e meus pais escolheram para isto o colégio das freiras de Ipu. Meu irmão Adilson já havia casado com Madrinha Estela e, portanto me levaram para morar com eles na nossa casa de Ipu, que antes íamos lá somente a passeio e em tempos curtos de férias e festas, pois meus pais tinham outras propriedades rurais e tinham que cuidar e explorar para o sustento da numerosa e abençoada família! Meu pai era um homem honesto, digno e muito trabalhador!  Talvez este momento, foi na minha vida um grande divisor d’águas, imagina eu sair do santuário sagrado dos meus pais e irmãos mais novos, deixar tudo para lá e ir morar num casarão enorme com um casal sem filhos.  Mas sou grata por isso, com eles aprendi grandes lições de vida, quem sabe este momento me serviu para que me tornasse mais forte e resiliente  aos intempérie da vida.

Em Ipu, aconteceu minha segunda infância, adolescência e parte da minha mocidade. Um período maravilhoso e de novos amigos e novas descobertas. Passei a conviver com outra ala da família, minhas queridas primas e meus tios queridos; Francisco Carneiro Matos, irmão de minha mãe e Maria Mesquita Carneiro, irmã de meu pai. Quão saudável e maravilhoso era o nosso convívio! Às noitinhas de sexta-feira, quando meu pai chegava de Guaraciaba, íamos todos para casa dos meus tios e lá nos encontrávamos com os primos e haja brincadeiras e conversas gostosas na calçada e debaixo dos oitizeiros do quadro da igrejinha. Minha infância foi marcada por várias brincadeiras gostosas e interessante, que nos serviam para desenvolver a coordenação motora fina e grossa e também trabalhar por excelência a nossa psicomotricidade e a corporeidade. Entre elas destacarei aqui algumas; jogar bila no inverno, onde a terra ficava molhada e facilitava para fazer os regos, brincar de jogar triângulo e fatiar um peixe, amarelinha, gangorra, cemitério, andar de bicicleta, correr em volta do lago de Iracema com várias amigas, jogar pedras, por sinal joguei muito este jogo de regras em minha casa com o Diassis Martins. Jogar vareta e muitos outros jogos com regras bem definidas, tomar banho e brincar de galinha d’água no Riacho Ipuçaba em época de bom inverno, com minhas irmãs e algumas amigas. Todas estas brincadeiras nos ensinavam a socialização e o respeito ao outro. Após o término das aulas, minhas amigas e primas iam para minha casa e de lá íamos para o nosso engenho, tomar garapa doida e ver a fabricação da cachaça nos tonéis e sendo destilada no alambique. Após cada garrafa ser cheia era empalhada e rotulada para venda; com a marca; ‘Cachaça Iracema’, Deixávamos o engenho de lado e íamos para o sítio chupar cana, tirar azeitonas maravilhosas no pé. Outro dia as aventuras já eram na companhia da Edna Marinho na fábrica de Guaraná wolga. Que maravilha de passeio amava chegar lá e tomar guaraná natural e depois vinha aquele arroto típico e gostoso! Já em outro dia íamos nós e as amigas, levadas por Nívea e lis, para a farmácia São Sebastião, era uma aventura também interessante, lá manipulávamos instrumentos e tudo aquilo nos envolvia demais e assim após estas pequenas aventuras era hora de voltar para casa, almoçar e descansar, para iniciarmos mais tardes outras brincadeiras. Um belo dia nesta aventura de subir no pé de azeitonas levei uma grande queda sendo tangida pela cauda de um enorme camaleão!

Estes períodos maravilhosos eram sempre recortados por um nome que às vezes me traziam angústia ou inquietude, férias! Ainda hoje convivo com estes fantasmas, pois desde criança não ficava de férias em Ipu. E tudo que mais queria era não ter que viajar, mas criança não tem vontade própria, tínhamos que fazer o que era melhor para meus pais. E lá se ia, mas eram tantas novidades que logo mais já estava acostumada e feliz com a nova rotina. Não queria sair de férias, porque sentia saudades da minha rotina em Ipu, pois fazia aula extra na Dona Maria Soares, de tricô, e quando retomasse teria que começar tudo do início, também já gostava de tudo aquilo, do convívio gostoso no colégio, das brincadeiras e dos passeios na bica e no gangão, com a família e as amigas nos feriados e finais de semana. Então chegado às férias era hora de abandonar tudo e se voltar novamente para o seio familiar da casa dos meus pais no sítio monteiro ou na fazenda Flores, em Santa Quitéria. Já na fazenda, era tudo completamente diferente do nosso sítio da serra grande. Lá era sertão e em épocas de chuvas aqueles serrotes e rios ficavam lindos e adornados por flores campestres, o ar nos trazia um aroma doce e de perfume diferente. As margens do rio dos macacos que passava bem próximo à nossa casa, eram entrecortadas por enormes jaramataias, uma árvore sertaneja que dá uns frutinhos pretos e se deixava cair seus galhos dentro do rio e lá íamos tomar banho e pular de cima dos galhos no leito do rio. Eram épocas de bons invernos e fartura grande! A mãe terra respondia com todo vigor as carícias das chuvas, nos dando uma grandiosa safra de mamona, feijão, oiticica, algodão, milho e muita babuja para o gado! Nos gestos do nosso amado vaqueiro Sr Pedro leite e de seus filhos, estava estampada a marca da alegria e satisfação, pois bem sabiam que inverno bom resultava em muitas vacas amojadas e na partilha do gado ele também sairia ganhando. No rosto de meu pai víamos alegria, satisfação e contentamento por podermos estar juntos com ele, desfrutando daquela propriedade que ele tanto amava e que talvez tenha lhe custado tantos sacrifícios e trabalho. Nas manhãs na fazenda, meu pai separava uma vaca somente para o nosso leite mugido, o nome desta vaca era caretinha. Papai enchia uma bandeja redonda, de copos de alumínio, extremamente ariados e com o maior prazer do mundo ia ordenhando aquela vaca e enchendo cada copo com leite mugido e amor e saia nos dando. Ainda lembro o quanto era gostoso e morninho aquele leite! 

A nossa casa do sítio Monteiro, era muito bonita e agradável e visitada por muitos amigos e familiares, vivia sempre cheia e nossa mesa sempre farta, pois mamãe era uma mulher acolhedora e dedicada a tudo que fazia e, portanto cozinhava com amor e com muito esmero. Nossos almoços de domingo eram maravilhosos e sempre com vários amigos por perto! Brincávamos de tudo nas férias! Andávamos a cavalos, andávamos de carro de bois, Fazíamos peças teatrais e declamávamos poemas, tudo isso com a orientação de mamãe. Naquela época, tínhamos duas férias escolares por ano. Uma de trinta dias em julho e outra no final do ano. Estas do final do ano se iniciavam dia 17 de Novembro e terminavam no último dia de fevereiro, portanto tínhamos três meses de férias! Interessante que estudávamos menos, mas sabíamos mais! Meus pais nos levavam para o sítio ou para a fazenda e contratavam uma professora para nos ensinar neste período. Era muito divertido, pois novos colegas iam para nossa casa estudar com a gente. Estudávamos três horas no período da manhã e três horas no período da tarde. Nos intervalos brincávamos com as primas e com os filhos dos moradores, subíamos nas fruteiras, cada um tinha o seu pé de manga predileto. Costumávamos tirar as mangas ainda esverdeadas e colocar dentro de um buraco na terra, chamávamos isso de enfurnar as mangas, pois achávamos que amadureciam mais gostosas. Coisas de crianças, pois só o que não faltava em nosso sítio era fruteiras carregadas e tínhamos todos os tipos de frutas e gostávamos de comê-las no pé, tirando com nossas próprias mãos. Não posso deixar de recordar o nosso passeio na solta, para comermos jabuticabas, que também chamávamos de camboim, lá existia macacos e até mesmo onças, mas nunca fomos atacados por animais e além do mais íamos escondidos dos nossos pais, pois era bem longe da nossa casa. Como esquecer este santuário de tanto amor e brincadeiras gostosas onde fomos tão felizes! É maravilhoso podermos lembrar com tanto amor da nossa infância! São lembranças gostosas com sabor e cheiros, que nos fazem viajar longe! Minha infância proporcionou na minha vida, infinitas outras diversões! Se eu fosse nominá-las não seria fácil e cansaria o leitor! E agora falando de minha infância me pego pensando nos preparativos para o natal e ano bom. Em nossa casa tudo ficava movimentado para o dia do natal, era a engorda dos perus, a matança de ovelhas, porcos e galinhas tudo para o almoço de natal. Naquela época não nos reuníamos para a ceia de natal, costumávamos ir à missa do galo e depois da missa existia a compra de brinquedos! Meu pai nos levava nas lojas e mandava que escolhêssemos nossos brinquedos, eram tantos brinquedos lindos e interessantes! Em um desses natais minha irmã ganhou uma linda boneca bem grande, era o meu bebê da época! Só tinha para vender aquela boneca e, portanto Florildes foi a sorteada!  Esta boneca nos trouxe muitas alegrias e festas! Fizemos seu batizado e demos a ela o nome de Lili. Lili nos garantiu muitas alegrias, passeios e festas de aniverspario. Após a missa e a compra de brinquedos voltávamos todos para casa e dormíamos felizes e já esperando o dia amanhecer para voltarmos a brincar com os nossos brinquedos. A lenda do Papai Noel ainda não existia em nossa casa e no nosso imaginário infantil. No dia 25 de Dezembro é que o natal era festejado com um farto e variado almoço para a família e os convidados. Tínhamos até leitões assados, o peru não era assado no forno e sim cozido no molho e também na cabidela. Com estes festejos alegres íamos até o ano novo, no ano novo as pessoas do sítio, que trabalhavam para meus pais vinham pedir as alviças para minha mãe. E minha mãe dava laços de fitas para seus cabelos. Isto me deixava curiosa e, portanto até hoje não sei ao certo o que era alviças, mas compreendo que seria um regalo, um presente de ano novo.

Com o ano novo que se iniciava era chegado o momento de mamãe e parte dos filhos voltarem para Ipu, pois era hora de nos preparar para os festejos de São Sebastião. Íamos à sapataria do S Antônio Cícero para comprar nossos sapatos, os tecidos já haviam sido comprados e já estavam em casa, na mão da costureira, pois mamãe sempre contratava uma costureira para passar um bom período em nossa casa confeccionando nossas roupas, pois eram muitos filhos! Toda noites íamos felizes para a novena, enquanto minha mãe ficava dentro da igreja, sentada ou de joelho em sua cadeira genuflexório de veludo carmim, ( na época da minha infância nossa mãe tinha sua própria cadeira na igreja, nos padrões romanos) eu e as amigas ficávamos correndo e brincando no pátio da igreja matriz.  E assim sempre esperávamos no mês de janeiro os festejos de São Sebastião. No mês de Janeiro e mais ainda no dia 20 de janeiro, a nossa casa se enchia de parentes e amigos para assistirem a última novena e irem à festa dançante no Grêmio Recreativo Ipuense. Eu como era ainda criança, somente me alegrava por ver a casa cheia e o entrar e sair de gente. Gente arrumada com roupas finas e maquiadas. O cheiro de perfumes exalava no ar! Porém para a festa dançante eu não podia ir. Mas outros janeiros e bem melhores aconteceram e continuam acontecendo em minha vida!

Minha infância foi um laboratório de experimentos para a maturidade.

São infâncias assim que nos tornam fortes e confiantes no por vir e que nos dão a certeza de nada temer e tudo podermos enfrentar com sabedoria e sucesso. Agora paro e me pergunto o que será feito das crianças que tiveram suas infâncias negadas roubadas ? como elas ficam emocionalmente diante das injustiças e da falta de amor e reconhecimento para com elas? Que deus abençoe cada uma!

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