Crônicas

“PEDRAS NO FEIJÃO”

Acontecia geralmente no sagrado horário do jantar. Com dolorosa freqüência, "pedrinha" era cartesianamente triturada pelo alvoroçado mastigado de meu irmão Abílio. Parecia sina, e era! Nunca me havia o destino premiado com aquela pedrinha que, via de regra, impunha ao meu irmão a paralisia compulsória do mastigar seguido de desesperados impropérios. Injustiça ora endereçada à "Dona Chicuta", que relapsa, descuidara dos granitos perdidos em feijões de segunda comprados em final de feira do São Sebastião, ora, com mais cautela, à mamãe que se debruçara, quase submissa, à assunção total da culpa pela tragédia que se anunciara de um inimaginável "Biim banguela"!

Sempre fui pouco afeto ao zelo pela dentição. Desleixo imposto pela gula irresponsável que me submetia à tentação dos "Pirulitos Zorro" e dos picolés "Gelatti"! Mesmo assim, e por isso mesmo, quis o destino, nos feijões da janta, escolher a boca mais zelada, a dentição hollywoodiana mais assediada para triturar a pedrinha teimosamente presente entre a terceira e quarta mastigadas! Era um show sempre imprevisível de dor e de ansiedade!
Após uma seqüência de quatro pedras seguidamente cuspidas e arremessadas com justificada ira contra a geladeira, qual prova inconteste do "crime", seguiu-se ao tilintar da "brita" no flandre saraivada de:

-"Diabo! Porra! Diabo !Porra!".

Dona Chicuta de pano de prato por sobre os ombros (a cena era sempre esta), arrematou, escorada na parede da cozinha, risadinha entre irônica e consoladora:

- "Tadim do Bíu! Bichim azarado! Nunca peguei uma "preda" dessa!".

Maldosa comparação! "Dona Chicuta" dispunha de um único e heróico dente inferior na frente. Um solitário e robusto quebrador de rapadura, cuja duvidosa eficiência não se prestaria, por certo, a estas "coisas menores". Pedrinhas de feijão originadas, quase sempre, de dentro de meus bolsos! Às duas, ainda que tardio,  meu respeitoso e "amolecado" pedido de perdão pelas injúrias candidamente absorvidas. Sagrada injustiça! E ao Biim, meu irmão, vai ter dente bom assim na Califórnia!

 

Antônio Carvalho Martins Filho

Acadêmico correspondente

 

 

Resposta:

Martinzim,

Envaideço-me por ter sido lembrado na tua tão bem escrita crônica. As tuas palavras jocosas,  algumas frases com  cheirinho de hipérboles dão ao leitor uma sensação de leveza e bem estar, mormente quando o tema principal se volta para fatos passados e familiares.

Tu me trouxeste de volta a pessoa amiga e marcante que foi a Dona Chicuta, presente no nosso dia-a-dia de dificuldades. Ela gostava muito de mim, talvez por encobrir os seus goles de cachaça que tomava, tendo como palco a nossa própria cozinha.

Mas, Martinzim: o caé continua. Se uma minúscula pedra tiver numa suculenta tigela de feijão, os presentes à mesa fiquem tranquilos, ela virá, com certeza, e por pirraça, parar na minha boca. A Dona Chaguinha que o diga.

Um abraço, meu querido irmão.

 

Abilio, mar 2009.

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