Crônicas

Abílio Lourenço Martins

Titular da Cadeira nº 12

 

Adolfo e os seus amigos infantis

 

Adolfo, na sua vida, sempre teve, desde criança, uma afeição e um carinho especial pelas crianças. Várias delas marcaram a sua juventude, na sua terra natal.

  1. Existia, no Ipu, um rapaz sem o devido equilíbrio mental, conhecido, pejorativamente, como “Assis Doido”. Este adolescente, desamparado pelos pais e desprezado pela sociedade, vivia vagando pelas ruas, mendigando algo para comer.

Adolfo, sempre que o encontrava levava para a sua casa, dava-lhe comida, e muitas vezes, depois do racha que ocorria debaixo do pé de tamarindo, no Quadro da Igrejinha, o levava, em companhia dos colegas do futebol, para os canos (um gostoso banho no riacho Ipuçaba). Mesmo contrariando a vontade do amigo, mas, auxiliado pelos colegas, o jogava debaixo da bica, e com ajuda de muito sabão de coco, Assis saía daquele banho irreconhecível. Até bonito.

Naquela época, Adolfo cursava o ginásio no seminário da Escola Apostólica Nossa Senhora de Fátima, em Fortaleza. Assis, sentindo a falta do amigo, passava sempre pela residência dos pais do Adolfo e com a fala quase inaudível indagava: “Cadê Bií... eu quelo Bií”.

Assis teve, aqui, uma passagem curta. Que Deus o tenha.

 

  1. Outra criança que marcou muito a juventude do Adolfo foi Luisinho, o seu vizinho de apenas dois anos de idade. Era tão grande essa reciprocidade de carinho que, para sair de casa, Adolfo tinha, obrigatoriamente, de esconder-se do amigo infantil. Caso contrário, este saía aos prantos, não interessando o destino do Adolfo. De bicicleta, a mesma coisa: Tinha, antes, dar umas voltas com o pequeno Luisinho para, só depois, seguir o seu curso.

Os anos passaram. E passaram rápido.

Certo dia, Adolfo, familiares e amigos se encontravam num balneário na serra da Ibiapaba. Cervejas, músicas e alegria eram a tônica do ambiente.

De repente se aproxima de Adolfo um rapaz com seus 38 a 40 anos de idade. Percebia-se, no semblante, já ter tomado alguns copos de cerveja.

Bem próximo, fixa Adolfo e com o aspecto ligeiramente feliz pergunta:

_ Você é o Adolfo?

 - Sim, respondeu.

_ Eu sou o Luisinho.

Abraçaram-se e brotaram lágrimas de ambos os lados.

Abílio, dez 2017

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