Crônicas

 

Antes de discorrer sobre o tema, uma breve observação sobre o protagonista desta crônica.

Já afirmei e agora ratifico as minhas palavras: o acadêmico mais querido da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes é, sem dúvida, o titular da Cadeira número 34 -  José Solon Sales e Silva. Aliás, não é somente afirmação deste articulista, mas da maioria daqueles que compõem a egrégia Academia Ipuense de Letras.

O Solonzin, permita-me assim chamá-lo, congrega, nas suas atitudes, as mais sublimes das virtudes, perfeitamente manifestadas nos seus atos, sejam eles os mais simples. É, sim, um cidadão. Traz consigo a simplicidade, a humildade e o manifesto prazer em servir.

Entretanto, traz, também consigo, uma virtude ou defeito, não sei. É demasiadamente cauteloso, ou seja, é inimigo da pressa. Talvez pelo perfeccionismo que o atrai.

Vamos aos fatos:

Janeiro de 2016. Transcorriam, no Ipu, as festividades do padroeiro da cidade, o mártir São Sebastião. Inúmeras são as festividades nesse período: novenas, reunião da Academia Ipuense, lançamento de livros, a Festa do Reencontro, enfim, a cidade é uma festa. Praças e restaurantes lotados de ipuenses que se confraternizam.

Quinta-feira, dia 14 de janeiro, após a novena, um grupo de amigos se reuniu para se confraternizar no restaurante São Pedro, na saída da cidade que dá acesso ao município de Varjota. Lá, o ambiente rapidamente se tornou festivo: comidas, cervejas e gargalhadas.

De repente, ao nosso lado, passa um garçom correndo desesperado em busca de um lugar protegido, aos gritos: Oh a bala, oh a bala!!!!

Ficamos todos aturdidos.  Sem saber do que se tratava, olhávamos um para o outro em busca do por quê.

Segundos após, surpreso fiquei ao ver o nosso querido Solonzin, até então merecedor de uma atenção especial, em razão da sua “tranquilidade”, saltando sobre a mesa, feito uma gazela e aos passos largos e céleres, numa rapidez surpreendente, desapareceu.

O ambiente tornou-se aterrorizante quando percebemos a aproximação de dois elementos armados, atirando, fazendo um arrastão, colhendo celulares e bolsas.

Procuramos um pequeno e único abrigo que se localizava a dez metros de onde nos encontrávamos. Exceção da destemida Socorrinha que continuou à mesa, beliscando um petisco entre um gole e outro, aguardando a chegada dos temíveis meliantes.

Ficamos amontoados nesse pequeno cubículo, sob as rezas descontroladas das nossas amigas. Uma rezava o Pai Nosso, a outra a Ave Maria, aquela outra misturava o Pai Nosso com Ave Maria, enfim, nunca vi tanto fervor em dois metros quadrados. Mas Deus entendeu!

O elemento ao chegar à mesa onde se encontrava a impávida Socorrinha foi tratado com desdém. Ela levantou o braço, sacudiu a mão com desprezo e arremeteu:

- Pode levar o que quiser. Levou tudo.

Após o susto, este escriba, por ser um dos mais velhos e com alguma experiência na área policial, buscou acalmar os demais, mas faltava um, faltava o Solonzin.

Olhei para um lado, para o outro, sem avistar o companheiro, quando ouço uma voz baixa e cheia de medo dizendo:

-  “Abílio, o homem já foi?”

Foi quando identifiquei a cabeça do querido amigo, por trás das grades de um caminhão, a cerca de 60 metros, cabelo desgrenhado, olhos arregalados, aguardando a nossa resposta.

Respondi-lhe:

- Foi, Solonzin, junte-se a nós, mas venha como de costume, sem pressa.

Aliás, Solonzin, você, turbinado pelo medo, deixa muitos velocistas com inveja.

Venha, vamos comemorar a nossa vida e o seu lado esperto que não conhecíamos.

Continuamos a beber e a gargalhar do nosso próprio medo.

Fortaleza, 12 nov 2017

 

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