Crônicas

Titular da Cadeira Nº 34

           Não sei explicar o porquê tenho predileção por elas. Mantenho fascínio, desde que estejam acesas. A lembrança mais remota que guardo de velas acesas é a dos muitos meses de maio de criança na Fazenda Campo Nobre em Tamboril. Ali, aonde passávamos os invernos para nós, meses chuvosos para as ciências, minha mãe cultuava o mês de Maria e fazia procissões todas as noites, andando pelas veredas de casa em casa com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Esta prática ligava-se as atividades de Filhas de Maria. Minha mãe era um delas, com fita azul e missal desde os tempos de Monsenhor Gonçalo.

            É muito viva em minha memória a imagem de todos carregando velas acesas pelas veredas atrás do andor. Energia elétrica não existia ali. A mais alta tecnologia era uma “Petromax” pendurada na sala como se fosse um lustre. Sair de casa à noite? Só com lanternas que também eram tecnologia de ponta. Para acompanhar o andor? Muitas velas. Velas e mais velas com mangas de papel. E saiamos de uma casa a outra cantando benditos a Nossa Senhora, atrás do andor.

            Todos os moradores participavam e recebiam o andor por um dia em suas casas. Uma festa só. E andávamos e andávamos. Para o meu tamanho as casas eram sempre muito distantes umas das outras. Meu pai, inteligentemente e reproduzindo a Idade Média em pleno século XX, mandava construir casas em pontos estratégicos da fazenda. Na entrada de passagem, havia uma casa em cada cancela e as demais nos pontos extremos da fazenda.

            Campo Nobre nos primórdios da colonização daquele sertão, chamou-se Junco. Eram os tempos de Ana Alves Feitosa que por ali chegou com o marido o Capitão Luis Vieira de Sousa (2º) como sesmeiros em 1722 das ribeiras do alto Acaraú. Antônio Solon de Farias e Silva dois séculos depois começou a comprar gleba por gleba dos muitos e muitos herdeiros, todos seus parentes pois ele e sua mulher Maria Farias Sales descendiam do casal colonizador.

            Deste modelo de sociedade feudal e do retalhamento das terras entre os muitos descendentes surge o dito popular: “pais ricos, filhos pobres, netos nobres”. Acho que fazemos parte do último segmento ou não. Campo Nobre tem 3 km de extensão no sentido norte/sul por 1 km e meio no sentido leste/oeste, ao pé do Bico d’Arara, serrote do semiárido tamborilense.  

            Imaginem! Nos meses de maio percorríamos toda esta extensão de norte a sul de leste a oeste até aonde existia uma casa, carregando o andor, cantando a Nossa Senhora e todos com velas acesas a mão, para iluminar os caminhos. Chegando-se a casa do morador que recebia a imagem rezava-se o terço e outras orações do breviário das Filhas de Maria. Nas salas das casas um altar apropriado para receber a imagem. Lamparinas em todos os cantos e velas no altar, muitas velas. Não sei onde minha mãe arranjava tantas velas, mas as maiores ela mesma fabricava e muitas delas coloridas. Lembro-me do fabrico das velas para o mês de maio. Começava cedo, ainda em Ipu, durante o mês março. Juntava latas de óleo Pajeú, que serviam de formas e as velas maiores eram do tamanho da lata e outras menores.

            Talvez venha daí a minha grande paixão por velas e velas acesas. Tenho muitas em minha casa das mais variadas cores e tamanhos e acendo todas, praticamente todos os dias. Lembrem dos meses de maio! Amo velas. Velas acesas, flamejantes, fulgurantes, indicando caminhos de luz.

            Velas. Acesas. Iluminando. Indicando caminhos. Sinal de Deus? De eternidade? Símbolo divino? Não sei, mas sei que a vida tem me ensinado: quem dá luz recebe luz.

Coco, 20/09/2017.

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