Crônicas

Titular da Cadeira Nº 34

No desempenho legítimo de ipuense e no desempenho posterior de turismólogo venho relatar fatos sobre turismo rural e sobre extratos culturais de nossas plagas.

            Não é só o distrito sede que produz história e cultura. O Município como um todo também o faz. Ah! E como produzem! E como fazem! Flores, Fazenda Marruás. Para os leitores Flores é distrito de Ipu, no Ceará, desde muito tempo. Marruás fazenda em Flores desde alguns séculos. Quem está lá? Desde algumas centúrias os Torres. Desde alguns decênios o Sr. Milton e Dona Socorro. Torres, certamente.

            E o Zé Gavião? Acoitado pelo Sr. Milton e D. Socorro ali esteve, ali morou e fez vida. Ali reinou. E a bodega? Do Zé Gavião, ativa, frequentada, vivida. E Zé Gavião firme, sempre prestigiado. Vendia o quê? O que se vende em todas as bodegas e também uma caninha para os mais sedentos.

            Pois a bodega do Zé Gavião hoje é atrativo para o Turismo Rural na Fazenda Marruás. Zé Gavião foi feliz com sua bodega. Que coisa boa, vender na bodega, tomar uma e vender outras mais.

            Quando concluí a 8ª Série do 1º Grau em Ipu, não havia ali como continuar os estudos, pois nos anos 70 a escolaridade então só ia até a conclusão do que hoje é o ensino fundamental. Logo meu pai me disse: “ou vai para Fortaleza continuar estudando ou fica aqui. Se ficar aqui há duas coisas que pode fazer: vai ser bodegueiro ou cachaceiro.” Fui para Fortaleza, nunca tive habilidade para vendas. Estudei e me tornei professor. Mas... até hoje não deixei de sentir saudades imensas de nossa Ipu. Pasmem! Não virei bodegueiro e nem cachaceiro, mas gosto muito de uma ou umas, daquelas que tomamos na bodega.

            Quem foi Zé Gavião? Sei que morou em Marruás e sei que teve uma bodega. Como seria? Como era? Sei que hoje o Gavião é importante. Já morreu. Em que ano, mesmo? Zé Gavião por quê? Pois vou contar-lhes.

            Gavião chamava-se José Rodrigues de Sousa e nasceu na Serra das Matas, em Tamboril a 15 de setembro de 1928. Aos 15 anos chegou na Fazenda Marruás em companhia do pai, Chico Gavião (a alcunha vinha de longe). Eram tampos escassos e foi acolhido pelo Sr. Manoel Félix e D. Ana Torres de Freitas. Gavião foi ficando e foi ficando até casar-se com Joelina Ribeiro e tiveram 13 filhos. Quase povoaram sozinhos os sertões de Flores. Trabalhou na Marruás até sua aposentadoria em 1988 quando segue para morar em Brasília. Ali não adaptou-se voltando logo para o Ipu pois tinham uma casa de morada na rua dos Canudos. Também não gostou e voltou para Marruás.  

            Ao retornar de Brasília descobriu uma forte diabetes e um começo de cegueira oriunda da diabetes. Bem antes deste fato o Sr. José Milton Rodrigues Torres construiu, ao lado de sua casa da fazenda, uma bodega, mas somente 12 anos depois a bodega se efetivava. Foi neste período em que Zé Gavião estava triste com sua doença que o Sr. Zé Milton abre a bodega para ocupa-lo e sentir-se útil e assim foi até sua morte. Em 1994 a cegueira se agravou e se instalou definitivamente. Mesmo assim segue atendendo na bodega com a ajuda de D. Socorro que prometeu que cuidaria dele até o fim. Assim, foi. A bodega era prestigiada e Zé Gavião atendia a todos com alegria sentindo-se útil. Morreu em Ipu a 28 de julho de 1998.

            Para mim uma autoridade. Teve uma bodega e hoje, mesmo depois de morto tem outra com leitura atual, atendendo ao Turismo Rural. A Fazenda Marruás é celeiro de histórias, de cultura e atrativos. O primeiro deles foi o Museu Frei Aquino, idealizado por este frade de grande sensibilidade que começou a juntar peças que contam a história do sertão e da fazenda. São mais de 300 peças em exposição na casa grande bicentenária da família. Como religioso construiu uma capela em estilo romântico e ali celebrava sempre quando estava na Fazenda. Construiu também uma hospedaria, ao estilo franciscano, onde os hóspedes repartem a experiência da hospedagem comunitária. Tudo de acordo com a simplicidade de uma fazenda. Frei Aquino quis ser enterrado na Marruás e ali repousa na Capela de Nossa Senhora da Conceição, construída por ele. Outro atrativo da fazenda.

            A Fazenda Marruás conta com estes atrativos além da ordenha de vacas e da feitura do queijo de coalho feitos com maestria por D. Socorro. O turista desfruta de tudo isso e agora também da Bodega do Zé Gavião, com outra leitura, gêneros não vende mais pode-se comprar o doce de leite, o queijo de coalho, a rapadura, tibumgos de barro, artesanato e o mais inusitado, peças de artes produzidas por uma artista plástica da casa, Klaudiana Torres. Telas e aquarelas, todas retratando a vida da fazenda.

            Uma bodega para o Turismo Rural. Vende cana? Vende sim, uma ou duas doses, não dá lucro. Dá prazer e alegria pra quem se aventura pelo Turismo Rural no Ipu. Na Fazenda Marruás, um lugar ímpar que teve a “gulora” de conhecer e ter Zé Gavião. E a fazenda conta hoje de novo com a bodega com leitura nova, repaginada, mas com todo o requinte de uma bodega. Bodega do Zé Gavião. Fazenda Marruás. Ah chão abençoado!

            É bom demais tomar uma ou umas em pé no balcão do Zé Gavião! Vá lá. Experimente esta experiência rara que só acontece na Fazenda Marruás.

Coco, Julho de 2017.

 

 

 

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