Crônicas

Titular da Cadeira Nº 34

            Em agosto de 1987 iniciei minha caminhada de professor no Curso de Turismo da Universidade de Fortaleza. O primeiro mês me remuneraram como serviços prestados. O contrato de trabalho foi efetivamente firmado em 26 de setembro de 1987, coincidência ou não na véspera do dia mundial do turismo que se comemora em 27 de setembro. O cargo, na carteira do trabalho, professor colaborador com um salário de Cz$ 131,22 (cento e trinta e hum cruzados e vinte e dois centavos) por hora/aula. Não sei se era muito ou pouco, mas muito aprendi.

            Cheguei aquela casa com muito orgulho por se ex-aluno do Curso de Direito daquela instituição. Ali tive ótimos professores e dentre eles reputo como excelente a Profa. Manuela Lourenço Pires de Torquato, uma portuguesa que veio para o Brasil com o marido, no período da guerra civil de Angola onde moravam. Os dois professores. Ele de geologia, ela de direito. Ele foi para o Universidade Federal do Ceará e ela para a Universidade de Fortaleza, quando da criação do Curso de Direito.

            Manuela era professora de hermenêutica jurídica, pura filosofia. Gostava demais de estudar esta disciplina. Sempre gostei de ler e o estudo exigia muita leitura. Profa. Manuela era temida por ser muito exigente com formação e postura europeia assim como trabalhar sempre exemplos de vida ou como diziam os colegas “lições de moral” apontando principalmente o compromisso que devíamos ter com os estudos. Segundo ela, eu era muito inteligente. Nunca achei isso, sempre achei que sou esforçado.

            Aquela época eu já trabalhava em agência de turismo e ela havia ensinado legislação do turismo em Universidades de Lisboa. Talvez ai resida a afeição que ela criou por mim. Tornou-se minha cliente na agência e todas as viagens dela e da família comprava conosco.

            Então em 1985 no segundo semestre inaugura-se o primeiro curso de Bacharelado em Turismo do Ceará onde no 5º semestre existia a disciplina de Animação Turística. Para minha grande surpresa, a Profa. Manuela Torquato que havia trabalhado na matriz curricular do curso indicou meu nome para ministrar esta disciplina. Lá fui eu.

            Fui recebido pela coordenadora do curso, Profa. Iranita Maria de Almeida Sá que me acolheu muito bem e me incentivou bastante, mesmo sabendo que não tinha experiência e ainda era muito jovem. Imaginem que aquela época ela já era mestre em educação.

            Ao entrar em sala de aula “tremia mais que vara verde”, sentia, literalmente, um frio na barriga e mesmo hoje passados trinta anos ainda sinto os mesmos sintomas quando assumo as salas de aulas no início de cada semestre letivo.

            Recentemente no início do semestre contava isso para um colega na sala dos professores. Absortamente e observando de longe a conversa, o Prof. Adonai Martins Aragão, também psicólogo clínico e professor da área de psicologia do turismo, esperou os demais colegas saírem da sala e afirmou: “isso que você sente é paixão e quer dizer que vocês gosta do que faz.” Inteligentíssimo e observador nato o Adonai. Paixão ou não tenho os mesmo sintomas no início de cada semestre e já se vão trinta anos. Como passa rápido o tempo.

            Hoje alimento outro desejo. O desejo de ser um dia um educador. No início pensava em formar profissionais, hoje me preocupo em formar cidadãos íntegros e com cultura aliada a técnica.  Difícil tarefa, mas não sem esperança. Alunos diferentes, cibernéticos e até virtuais, mas não sem chances de crescer nestes aspectos.

            Como passa rápido o tempo. Nestes três lustros ensinei e aprendi na Unifor. Fui professor de turismo por diversas ocasiões e em diversos cursos do Senac, convidado que era para participar.

           Em 1991 prestei concurso público para professor de turismo da então Escola Técnica Federal do Ceará, fui aprovado em terceiro lugar. Em 1995 fui chamado para assumir a vaga. Tempos difíceis para mim, enquanto professor. Toda a minha experiência no magistério era no nível superior e na Escola fui trabalhar com jovens adolescentes saídos da infância. O curso médio profissionalizante aonde o aluno cursava o então 2º grau aliado a uma área de formação profissional. O nível do ensino e do estudo era outro e nos primeiros tempos não conseguia atingir o nível. Tive dificuldades em aprender a língua para esta faixa etária.

          Lutei, batalhei e contei com a ajuda de uma pedagoga fantástica que assistia ao curso de turismo aquela época, Elenilce Gomes de Oliveira, que muito me ajudou nos primeiros tempos de Escola Técnica no sentido de adequar vocabulário e nível para alunos desta faixa etária. Hoje transito entre os cursos superiores e técnicos com facilidade.

         Curiosamente muitos dos meus ex-alunos já foram e são meus superiores hierárquicos ou chefes administrativos. Como me sinto bem com isso. Hoje tenho uma coordenadora, Profa. Susana Dantas que a chamo de neta, pelo fato dela ter sido aluna de um meu ex-aluno, Prof. Amaury Gurgel. Hoje é meu coordenador no curso de hotelaria do IFCE, Prof. Régis Esmeraldo um ex-aluno. Filhos de academia. É verdade, na academia já sou avô, pois muitos dos meus ex-alunos tornaram-se professores e bons professores, diria até excelentes. Curioso como não valorizamos a ascendência e descendência acadêmica. Estas observações para mim são pontos significativos, saber que pessoas foram formadas por pessoas que passaram pelas minhas salas de aula. E que eu sou fruto de professores que me serviram de modelo.

        Curioso ainda eu conviver com meus ex-professores, por exemplo, na Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes. Prof. Francisco Melo, Profa. Natália Viana, do ensino fundamental, os que me formaram na base. Profa. Lourdinha Barbosa da disciplina de literatura brasileira na Universidade Estadual do Ceará; Prof. Mourão, de língua portuguesa, também da UECE, onde estudei letras. E ali estou eu pasmo, admirando-os e sentindo-me muito humilde e agradecido em pertencer a este sodalício. Eu no mesmo nível dos que me ajudaram a formar-me na academia. Como o tempo passa rápido. Isso é ascendência e descendência acadêmica. Como é bonito o magistério!

            Sou feliz como profissional, sou feliz como professor e serei feliz como educador.  Lépido em completar bodas de pérolas no magistério! Como passa rápido o tempo...

Coco, 17 de agosto de 2017.

Mais artigos do Autor.