Crônicas

         MILTON DIAS - PATRONO DA CADEIRA Nº 2 - Ocupada por Sebastião Valdemir Mourão  

 

             Aqui mesmo em Fortaleza, na rua Santa Isabel, o menino Antônio Bandeira teve seu primeiro alumbramento, surpreendeu o primeiro guache, um certo crepúsculo triste e lindo, como estes que costumam aparecer por cá no mês de junho, feitos dum tom violeta muito exclusivo, tirando pro vermelho, com raras manchas dum azul estranho. Daí por diante, toda parte ficava espreitando o espetáculo, foi se tornando colecionador de crepúsculos, buscando-os diariamente, a princípio na janela de casa, ou na porta da Fundição de seu pai, mas tarde junto ao mar, nas dunas do Mucuripe, no cais do porto, em Maranguape, na Serra Verde, um pouco por toda parte. Depois foi ampliando o seu patrimônio de beleza, ganhou a noite, habitou madrugadas, viu dia nascendo, pescador partindo pro mar, conviveu com gente que enfrentava cada cotidiano com um heroísmo novo e a atenção do artista que já estava lá nele, há muito tempo, levou-o a fixar no papel todo aquele material que vinha compondo a tessitura do seu mundo interior.

            No começo aventurou-se por conta própria, depois frequentou aulas da Mundica, sua primeira professora, depois integrou um grupo de jovens pintores cearenses que compunham o Centro Cultural de Belas Artes (posteriormente SACP), depois no Rio, depois em Paris, depois no vasto mundo de que se fez cidadão. Assim formou-se o artista, como se formam os grandes, com talento, com estudo, com trabalho, com coragem, com sofrimento, com amor numa busca interminável, sempre se renovando, pesquisando, perseguindo por uma sincera ânsia de realização, e foi somando vivências, amando cidades, navios, gentes, lugares, plantas, coisas, buchos, momentos, captando belezas com aquela sensibilidade que se pode realmente chamar excepcional, trazendo tudo para seus quadros, transformando tudo em cor, levado pela poderosa capacidade criadora tão revelada, servido por um permanente sentido poético, uma constante de equilíbrio, que conferem a seus trabalho a unidade que valeria bem a pena ver duma vez, numa retrospectiva.

                                   Milton Dias - 1963

          Notas: 1) Crônica de Milton Dias quando da abertura da Exposição Individual de Bandeira em 1963 - Fortaleza CE, no Museu de Arte da UFC.

                    2) Tela Auto-Retrato, aquarela de 1944, medindo 44x35 de Antônio Bandeira.

                    Fonte da imagem: https://www.escritoriodearte.com/artista/antonio-bandeira/ Acesso em 06 mar. 2017

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