Titular da Cadeira Nº 15

                    A construção do paredão foi uma iniciativa do Dr. Humberto Aragão no ano de 1943, quando Prefeito Municipal de Ipu.

O Paredão, como o próprio nome diz, separava a Praça Abílio Martins da Rua Cel. José Liberalino, intercalado por subidas em degraus, como um elo de união das vias públicas ali separadas.

                  Na extensão do Paredão existiam além, das escadarias, uns caramanchões de Risos do Prado, dando um colorido dos mais singelos e perfeitos ao ambiente.

                 A iluminação era feita com postes em estilo Colonial, e no seu capitel um globo leitoso deixando um ambiente lusco - fusco de modo, que se tornava convidativo aos namorados.

                Ainda entre uma iluminação e outra um jarro com belas flores decorando o ambiente, dando cada vez mais aquele ar de beleza e romantismo tão característico da época.

               O Paredão era romântico, levando-se em conta a forma como foi arquitetado e como era freqüentado, pois a sua disposição propiciava bons momentos para encontros agradáveis e furtivos.

               Era bem interessante. A sociedade chamada de Elite, (que nunca existiu), namorava e passeava no Jardim de Iracema.

              Já os menos favorecidos, no Paredão. Que discriminação!...Mas o que somos? Filhos de uma miscigenação sem precedentes.

              Mistura de tudo. Seria ainda o Paredão um marco que jamais deveria ter desaparecido.

             Ele é história, ele fez história, quantos amores, quantas juras de amor ficaram ali sepultadas, quantos desenganos, quantas paixões desfeitas, testemunho mudo de tudo que ouviu e calou.

            Paredão das refregas políticas, local dos improvisados palanques para discursos políticos, ouvinte permanente dos protestos contra a iluminação hidráulica que não mais atendia a demanda da cidade.

           Nós sentimos saudades de ti, Paredão! De tudo que ouviste e não falou, emudeceu para sempre as incontidas confissões de amor.

           Eu falo de ti, Paredão, porque eu sinto saudade, eu sinto que o progresso não ti destruiu, tu foste destruído pelas mãos de quem não ti conheceu e nem te deu valor.

 

Titular da Cadeira Nº 34

 

             Maria mãe de Jesus. Ana mãe de Maria. Pois recebi, em minha jornada de 25 anos como professor da Universidade de Fortaleza as bênçãos destas duas criaturas. As duas, secretarias do diretor geral do centro onde era lotado como professor de turismo. Ana diurna, Maria noturna. Mas ambas apreciadoras da vida, dotadas de senso político e sobretudo humano. Argutas, perspicazes e sobretudo excelentes profissionais.

            Sabiam e sabem dar um não e assim mesmo deixar o interlocutor satisfeito, mesmo que a situação fosse adversa. Sempre gostei muito destas profissionais. Ana, séria. Maria, derretida. Ambas, pessoas ímpares. Sensíveis, hieráticas e possuidoras do senso da responsabilidade e do zelo. Competentes. Sempre souberam abrir e fechar portas com classe e maestria, para quem quer que fosse.

            Começa eu a receber as mais variadas missões de trabalho institucional. Missões e mais missões no mundo do trabalho. Elas influenciavam com perfeição a figura do superior para me engajar nestas missões. E eu achando que era o todo poderoso, o bonzão. Como era inocente. Hoje sei que muito do que fiz em minha vida profissional, fiz por interferência e maestria destas duas mulheres fantásticas, aparentemente elementares, mas possuidoras de grande sabedoria e poder de convencimento. Maria sempre simpática. Ana sempre séria. Mas isso são rótulos. Fato é que eram e são extremamente competentes e sabem fazer política de forma positiva.

            Resultado de tudo isso? Somos amigos há exatos trinta anos e, detalhe, sem nunca deixarmos de nos encontra, mesmo depois de encerrarmos nossas jornadas de trabalho na instituição. Mulheres raras e astutas. Maravilhoso poder privar da amizade destes dois seres e melhor ainda saber que elas conquistaram e continuam conquistando pessoas.

            Respeitar, admirar e amar não é tarefa das mais fáceis é tarefa para quem ama. Estas mulheres profissionais existem e são concretas. Obrigado Ana. Obrigado Maria. Seus nomes são desígnios de um criador e vocês tem sido luz em nossas diminutas caminhadas.

            Oh vida maravilhosa!

Coco, 24/08/2017

Titular da Cadeira Nº 27

Quem pode passar o tempo com amigos autênticos - não querer coisa alguma dos próprios amigos - sem que esteja a serviço de um objetivo que nada tenha a ver com uma autêntica amizade?

Uma situação comercial é sempre política por natureza, temos visto que o contrário muitas vezes é verdadeiro. Isso pode tornar as relações medíocres, utilitaristas, um sistema parasitário de jogos de interesses. Uma miséria. Pérolas aos porcos.

Epicuro entendia isso quando advertiu sobre os PERIGOS do comércio e da política: Ser Humano tratado como meio e não como um fim em si mesmo.

Epicuro acreditava que escolher com quem se come é muito mais importante do que a escolha do menu.

"Antes de comer ou beber qualquer coisa, considere com cuidado com quem você come ou bebe, e não o que come ou bebe, porque comer sem um amigo é o hábito do leão ou do lobo."

É surpreendente como os Gregos antigos pensaram em tudo... ou, muito próximo disso.

Titular da Cadeira Nº 15

O Ipu dos anos 40 era uma cidade com cerca de 20 mil habitantes. Pacata, tranquila, meio preguiçosa, com o trânsito quase inexistente, sem assaltos, sem drogas etc.

Uma ocorrência policial qualquer era motivo de comentários em toda a cidade. E as pessoas caminhavam noite adentro de um bairro a outro como se fossem nos corredores de suas residências.

Além das sessões cinematográficas do Cine Moderno, a distração era ouvir as amplificadoras nas bocas de noites e as conversas nos cafés da cidade. Nos bares os bate papos também existiam, o Bar preferido era O Cruzeiro.

 Nos bancos das avenidas os encontros também existiam o que era bem mais aprazível.

As conversas durante a noite, à luz da lua, nos aconchegantes "Fícus Benjamim", que vez por outra acenavam ao embalo da brisa, saudando o devaneio dos retardatários que somente depois da meia noite e já mesmo pela madrugada chegavam a casa. Era uma constante no nosso meio, pois a felicidade era quase completa.

No Ipu não existia estação de Rádio, apenas as amplificadoras que traziam para o público de uma cidade bucólica os truques de um veículo despertando o imaginário do ouvinte ipuense como num ritual que hoje se repete no rádio na televisão. As pessoas se reuniam em determinados locais para o deleite das músicas nas amplificadoras.

A Pioneira da cidade foi à amplificadora do Padre Caubí, com os estúdios localizados no Cine Moderno, os alto-falantes eram espalhados por toda cidade. As transmissões eram feitas ao vivo e os discos eram de cera, em 78-RPM, e a cada execução a agulha era trocada, de modo que haja, estoque de agulhas. Eram caixas e mais caixas. Lembra o operador - locutor “Chico do Padre”.

Os aniversariantes do dia eram despertados pela madrugada com bonitas músicas na fase áurea de Orlando Silva, Silvio Caldas, Augusto Calheiros e outros tantos. Seguiram-se várias outras. A Vos de São Sebastião da Igreja; a Voz da Casa Pontes, que anunciava os produtos da loja; os produtos eram confecções e tecidos; A Voz da Liberdade, localizada nos altos da antiga Prefeitura; a Voz Ipuense de Nonato Ferreira; a Voz da Cidade do Iracema que ainda hoje existe. Não esquecendo as amplificadoras provisórias dos parques de diversões. Por cada aviso ou mensagens musicais, eram cobradas uma certa quantia.

O locutor levava ao ar a mensagem de amor, sempre destacando: "esta música vai para um alguém, que outro alguém que está do lado de cá da avenida, oferece para seu amor que está do lado de lá da avenida apaixonadamente”.

Os outros programas seguiam-se com música do ouvinte para ouvinte. Músicas para sonhar e amar e muitos outros.

Os locutores eram: Pedro Teles, Dadi Marinho, Chico do Padre, Nonato Ferreira, Sebastiãozinho, Paulo Soares e outros.

Vivemos hoje uma época mais moderna. São duas Rádios AMS que difundem as suas programações em toda Região.

Existem ainda outras Rádios Comunitárias que servem para os bons avisos e transmissões dos atos religiosos da Igreja Católica e outros mais.

Os locutores são mais aperfeiçoados com cursos de locução e de comunicação.

As amplificadoras marcaram épocas inesquecíveis na nossa cidade.

 

Titular da Cadeira Nº 34

             Recentemente participei do lançamento do mais novo livro do colega Marcelo Farias Costa. Marcelo Costa é sem dúvida o maior estudioso do teatro cearense e também o que mais publicou sobre Carlos Torres Câmara o criador da comedia cearense. Marcelo é ator exímio, dramaturgo, diretor, professor de História do Teatro Cearense, uma autoridade no assunto. Folgo em ser seu colega de Instituto Federal do Ceará.

            Sou um entusiasta dos escritos de Marcelo e olha que são muitos, tenho em minha biblioteca toda a obra produzida por ele. São 17 livros, 5 peças de teatro, 14 livros organizados e 4 plaquetas. Pois bem, a última obra lançada foi o livro “Quem é Quem no Teatro Cearense” - Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2017,  compêndio em capa dura, esmerado, com quase 600 páginas. São 506 biografias de atores, atrizes, diretores, iluminadores, musicólogos teatrais, cenotécnicos e dramaturgos cearenses.

            Entre tantas e tantas celebridades dentre elas Adolfo Caminha, Antônio Gondim de Lima, Antônio Sales, Artur Eduardo Benevides, Ary Sherlock, B. de Paiva, Cláudio Jaborandy, Clóvis Beviláqua, Deugiolino Lucas, Diva Torres Câmara, Elzenir Colares, Fausto Nilo, Fernanda Quinderé, Gustavo Barroso, Haroldo Serra, Hiramisa Serra, João Brígido, José de Alencar, Marcus Miranda, Otacílio de Azevedo, Paulo Ess,  Paurilo Barroso, Pierre Luz, Ricardo Guilherme, Soriano Albuquerque, Waldemar Garcia, Zenon Barreto vamos encontrar a ipuense Damali. Um destaque muito grande, pois ela é uma das 506 autoridades no mundo do teatro cearense a ser biografada por Marcelo Costa.

            Vale a pena transcrever o poema de Maria Cleide de Melo Lima Damasceno:

Quem sou - Quem somos
Sou provinciana
Da raiz do muçambê
Do mata pasto verdinho
Da jitirana... E você?
...Também sou do cheiro do bamburral
Do perfume do mofumbo
Das folhas do marmeleiro
Do bagaceiro
Lá pertinho do curral.
Na palma de minha mão
Peguei o sopro do vento
Do "aracati" varrendo a noite
Na rapidez do momento.
Do odor agridoce da mangueira
Daquela luz amarela do luar
Da meninada na carreira
Da contradança da roda a brincar...
Do cheiro do mel de cana
Da festa da farinhada
Menina provinciana
Daquela infância passada...

           Estes versos retratam de forma precisa as origens de nossa homenageada e as nossas próprias. Pois, nascida Raquel Lima Damasceno, adotou o nome artístico de Raquel Damali, talvez de Damasceno e Lima, famílias queridas e tradicionais de nossas plagas. Neta do Sr. Francisco Lima que foi ator em nossa Ipu. Filha de Luiz Evangelista Damasceno e Maria Cleide de Melo Lima Damasceno, foi integrante do Grupo de Teatro Amador Ernestina Magalhães tão bem dirigido por nossa Profa. Walderez Soares, de onde também participou o avô. Com este grupo atuou nas montagens de Barco Sem Pescador em 1991 e Desarmonia no Lar também em 1991. Em 1999 é convidada por Marcelo Costa, caçador de talentos para integrar o Grupo Balaio por ele dirigido. Sua estreia neste grupo deu-se com a participação na peça Cinderela ainda em 1999 e em seguida atuou em Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera o que lhe deu o premio Destaque do Ano como Atriz. Marcelo não costuma errar, trata-se de atriz de talento.

          Diz o ditado popular que “filho de peixe, peixinho é”. O Sr. Francisco Lima era um literato, homem afeto as letras, de muita leitura. A mãe poetiza, escritora, dramaturga e também atriz amadora nas épocas de escola. Ainda muito jovem, nos tempos de aluna do Patronato escreveu a peça Os Sinais de Pontuação, tratando das questões gramaticais da língua portuguesa. Posteriormente escreveu o ABC do Ipu e o Auto do Santo Padroeiro, esta última encenada pela filha Damali em 2002 com o Grupo Teatral Amador 3 Estrelas de Ipu.

           Em 1992 ingressa na Universidade Estadual do Ceará onde cursou Ciências Sociais terminando em 1999. Em 1993 vai estudar teatro no Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará concluindo o curso em 1994. Atuou ininterruptamente, na cena cearense, de 1999 até 2004 quando parou por conta da maternidade, ocasião do nascimento de sua filha Beatriz. Profissional de sociologia trabalhou no setor de marketing da Unimed de Fortaleza, Cooperativa de Trabalho Médico Ltda.

           O Clássico Rei texto do cearense Jorge Ritchie, dirigido por Marcelo Costa pela Cia. Dionisyos foi à cena em 2015 e retrata com humor nordestino a rivalidade entre torcedores do Ceará e do Fortaleza, buscando apelo pela paz no futebol.

             Em 2017 atua na A Prima Dona uma comédia de José Maria Monteiro, dirigida por Marcelo Costa e que esteve na cena do Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, em Fortaleza.

            Ernestina Magalhães bem que poderia ter entrado na obra de Marcelo assim como Walderez Soares, Francisco Lima e tantos e tantos outros talentos ipuenses. Fica um desafio para Cleide Damasceno, por que não escrever sobre o teatro no Ipu? As maravilhosas atuações deixamos para Damali que possui talento para tanto.

          A Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, reverencia Raquel Lima Damasceno por sua inclusão nas biografias do “Quem é Quem no Teatro Cearense”, deveras merecida. Viva o teatro ipuense!

Coco, outubro de 2017

 

 

 

 

 

Titular da Cadeira Nº 34

           Não sei explicar o porquê tenho predileção por elas. Mantenho fascínio, desde que estejam acesas. A lembrança mais remota que guardo de velas acesas é a dos muitos meses de maio de criança na Fazenda Campo Nobre em Tamboril. Ali, aonde passávamos os invernos para nós, meses chuvosos para as ciências, minha mãe cultuava o mês de Maria e fazia procissões todas as noites, andando pelas veredas de casa em casa com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Esta prática ligava-se as atividades de Filhas de Maria. Minha mãe era um delas, com fita azul e missal desde os tempos de Monsenhor Gonçalo.

            É muito viva em minha memória a imagem de todos carregando velas acesas pelas veredas atrás do andor. Energia elétrica não existia ali. A mais alta tecnologia era uma “Petromax” pendurada na sala como se fosse um lustre. Sair de casa à noite? Só com lanternas que também eram tecnologia de ponta. Para acompanhar o andor? Muitas velas. Velas e mais velas com mangas de papel. E saiamos de uma casa a outra cantando benditos a Nossa Senhora, atrás do andor.

            Todos os moradores participavam e recebiam o andor por um dia em suas casas. Uma festa só. E andávamos e andávamos. Para o meu tamanho as casas eram sempre muito distantes umas das outras. Meu pai, inteligentemente e reproduzindo a Idade Média em pleno século XX, mandava construir casas em pontos estratégicos da fazenda. Na entrada de passagem, havia uma casa em cada cancela e as demais nos pontos extremos da fazenda.

            Campo Nobre nos primórdios da colonização daquele sertão, chamou-se Junco. Eram os tempos de Ana Alves Feitosa que por ali chegou com o marido o Capitão Luis Vieira de Sousa (2º) como sesmeiros em 1722 das ribeiras do alto Acaraú. Antônio Solon de Farias e Silva dois séculos depois começou a comprar gleba por gleba dos muitos e muitos herdeiros, todos seus parentes pois ele e sua mulher Maria Farias Sales descendiam do casal colonizador.

            Deste modelo de sociedade feudal e do retalhamento das terras entre os muitos descendentes surge o dito popular: “pais ricos, filhos pobres, netos nobres”. Acho que fazemos parte do último segmento ou não. Campo Nobre tem 3 km de extensão no sentido norte/sul por 1 km e meio no sentido leste/oeste, ao pé do Bico d’Arara, serrote do semiárido tamborilense.  

            Imaginem! Nos meses de maio percorríamos toda esta extensão de norte a sul de leste a oeste até aonde existia uma casa, carregando o andor, cantando a Nossa Senhora e todos com velas acesas a mão, para iluminar os caminhos. Chegando-se a casa do morador que recebia a imagem rezava-se o terço e outras orações do breviário das Filhas de Maria. Nas salas das casas um altar apropriado para receber a imagem. Lamparinas em todos os cantos e velas no altar, muitas velas. Não sei onde minha mãe arranjava tantas velas, mas as maiores ela mesma fabricava e muitas delas coloridas. Lembro-me do fabrico das velas para o mês de maio. Começava cedo, ainda em Ipu, durante o mês março. Juntava latas de óleo Pajeú, que serviam de formas e as velas maiores eram do tamanho da lata e outras menores.

            Talvez venha daí a minha grande paixão por velas e velas acesas. Tenho muitas em minha casa das mais variadas cores e tamanhos e acendo todas, praticamente todos os dias. Lembrem dos meses de maio! Amo velas. Velas acesas, flamejantes, fulgurantes, indicando caminhos de luz.

            Velas. Acesas. Iluminando. Indicando caminhos. Sinal de Deus? De eternidade? Símbolo divino? Não sei, mas sei que a vida tem me ensinado: quem dá luz recebe luz.

Coco, 20/09/2017.

Titular da Cadeira Nº 15

As tradições de um Povo consistem na preservação de sua história.

E não é diferente no nosso Mercado Público, localizado no Centro da Cidade, para onde converge à população para o seu habitual abastecimento.

Sua construção foi iniciada no ano de 1890, pelo Major Aprígio Quixadá e concluído e inaugurado em 1920 pelo o Interventor Cel. Jose Raimundo Aragão Filho (Arquivo de João Anastácio Marins).

Foi construído dentro de uma arquitetura Barroca. Destacando-se a forma de suas portas e janelas, quase em ogivas, uma obra que, como as outras, sofreram as costumeiras modificações na sua estrutura, abalando de modo geral toda sua originalidade.

Mas as lembranças daqueles que por ali passaram permanecem vivas e muito vivas entre nós.

Recordo-me muito bem das casas comerciais e seus proprietários. Começando com Murilo Mota e suas Irmãs que carinhosamente eram chamadas de “As Meninas”, a loja de tecidos do Sr. Luiz Soares, a bodega do Manoel Aragão conhecido também como Manoel “Catrevagem”, a loja do “Quindô Soares” a mercearia do Antonio Melo o nosso bom “Papa Pimenta”, a loja, do seu Antonio Mariano, a bodega sortida de Mauro Mota, contendo uma variedade incrível de produtos, a Casa Pontes, de José Osmar Pontes, era um destaque comercial de Ipu, a loja do Sr. Gonçalo Corsino de Melo, a bodega do Quincas Coelho, do seu Jacob Ximenes do Prado, da sortida casa de Humberto Taumaturgo; da Sapataria do Raimundo Lopes, o gerente era o “Opinião”; a taberna do Antonio Olímpio, a "Birosca" do "Mané Rocha”, a Casa Sampaio, o Afonso, o Manduca, o Milton Aragão, foi a bodega mais desarrumada que conheci, o Sr.Chico Soares, da Sapataria de consertos do " Manesinho Felício", da loja do Povo, depois Casa Triunfo de Gonçalo Melo cujo slogan e: “Casa Triunfo. O Triunfo Certo de sua Economia.” ainda hoje existe.No interior do mercado os chamados de Barracão, constituído de várias “Bodeguinhas” de prateleiras de tábuas de caixão de sabão, de Antonio Marcelino, Antonio Pinto, Luiz Bentivi, João Passos, e mais as Bancas de Café da Maria Veado, da Maria Cachorrinho, do Del Aires e outros tantos, e como não poderia deixar de existir os açougues, que ainda hoje fornecem carnes para nossa população.

Na cidade ainda existiam várias casas comerciais: Lima & Cia, Comercio        de         Ferragens, Instrumentos Musicais, Tintas, Rádios, Espingardas, Louças, Alumínio, Papelaria etc.

Armazém Uirapuru, os Armazéns Ceará, a Loja dos Soares, localizada na Rua da “GOELA” com Avenida Cel. José Lourenço, uma verdadeira Casa de Variedades, tudo ali era vendido, do Esmalte à Gasolina. Recordo-me a Caixa registradora, a primeira que conheci, dando aquele toque com uma campainha quando aberta para guardar o dinheiro, e eu ficava tonto para saber onde se dava aquela sonoridade.

 Nas noites de Natal era um sucesso. Joaquim e Sebastião Soares comandavam a administração da grande Loja de Variedades, vejam, que intuição comercial ainda nem pesávamos em Casas de Variedades e já podíamos ver aqui em Ipu a desenvoltura comercial dos seus proprietários. O seu principal funcionário era o hilariante Vicente Pinto Neto.

Uma das coisas mais original e até mesmo folclórica era a “Cachorra do Mercado”, uma sineta colocada na entrada do portão lado poente que anunciava às 06 da manhã à abertura do Mercado, tocando às 11horas para fechar para o almoço, indo badalar às 13 horas para reabertura do expediente da tarde, tudo isso era cumprido rigorosamente pelos proprietários das casas comerciais existentes no Mercado.

Às 15 horas a “Cachorrinha”, tocava alegremente anunciando a chegada da CARNE, era um momento de vai e vem. E às 17 horas tocava outra vez para o fechamento do mesmo.

Ipu foi sempre um Centro de atração Comercial e Cultural de nossa Região.

O Sr. João Mendes, Pai da Idelzuite Mendes, era o funcionário da Prefeitura que tocava a sineta do Mercado, a “cachorrinha”, como era conheci nos horários acima citados.

Aos 27 dias do mês de fevereiro de 2007 o nome do nosso Mercado Público recebeu o nome do nosso saudoso Francisco da Silva Mourão, o seu Chico Mourão uma homenagem das mais merecidas àquele que teve uma vida inteira dentro do nosso Mercado vendendo Carne.

 

 

 

Titular da Cadeira Nº 34

No desempenho legítimo de ipuense e no desempenho posterior de turismólogo venho relatar fatos sobre turismo rural e sobre extratos culturais de nossas plagas.

            Não é só o distrito sede que produz história e cultura. O Município como um todo também o faz. Ah! E como produzem! E como fazem! Flores, Fazenda Marruás. Para os leitores Flores é distrito de Ipu, no Ceará, desde muito tempo. Marruás fazenda em Flores desde alguns séculos. Quem está lá? Desde algumas centúrias os Torres. Desde alguns decênios o Sr. Milton e Dona Socorro. Torres, certamente.

            E o Zé Gavião? Acoitado pelo Sr. Milton e D. Socorro ali esteve, ali morou e fez vida. Ali reinou. E a bodega? Do Zé Gavião, ativa, frequentada, vivida. E Zé Gavião firme, sempre prestigiado. Vendia o quê? O que se vende em todas as bodegas e também uma caninha para os mais sedentos.

            Pois a bodega do Zé Gavião hoje é atrativo para o Turismo Rural na Fazenda Marruás. Zé Gavião foi feliz com sua bodega. Que coisa boa, vender na bodega, tomar uma e vender outras mais.

            Quando concluí a 8ª Série do 1º Grau em Ipu, não havia ali como continuar os estudos, pois nos anos 70 a escolaridade então só ia até a conclusão do que hoje é o ensino fundamental. Logo meu pai me disse: “ou vai para Fortaleza continuar estudando ou fica aqui. Se ficar aqui há duas coisas que pode fazer: vai ser bodegueiro ou cachaceiro.” Fui para Fortaleza, nunca tive habilidade para vendas. Estudei e me tornei professor. Mas... até hoje não deixei de sentir saudades imensas de nossa Ipu. Pasmem! Não virei bodegueiro e nem cachaceiro, mas gosto muito de uma ou umas, daquelas que tomamos na bodega.

            Quem foi Zé Gavião? Sei que morou em Marruás e sei que teve uma bodega. Como seria? Como era? Sei que hoje o Gavião é importante. Já morreu. Em que ano, mesmo? Zé Gavião por quê? Pois vou contar-lhes.

            Gavião chamava-se José Rodrigues de Sousa e nasceu na Serra das Matas, em Tamboril a 15 de setembro de 1928. Aos 15 anos chegou na Fazenda Marruás em companhia do pai, Chico Gavião (a alcunha vinha de longe). Eram tampos escassos e foi acolhido pelo Sr. Manoel Félix e D. Ana Torres de Freitas. Gavião foi ficando e foi ficando até casar-se com Joelina Ribeiro e tiveram 13 filhos. Quase povoaram sozinhos os sertões de Flores. Trabalhou na Marruás até sua aposentadoria em 1988 quando segue para morar em Brasília. Ali não adaptou-se voltando logo para o Ipu pois tinham uma casa de morada na rua dos Canudos. Também não gostou e voltou para Marruás.  

            Ao retornar de Brasília descobriu uma forte diabetes e um começo de cegueira oriunda da diabetes. Bem antes deste fato o Sr. José Milton Rodrigues Torres construiu, ao lado de sua casa da fazenda, uma bodega, mas somente 12 anos depois a bodega se efetivava. Foi neste período em que Zé Gavião estava triste com sua doença que o Sr. Zé Milton abre a bodega para ocupa-lo e sentir-se útil e assim foi até sua morte. Em 1994 a cegueira se agravou e se instalou definitivamente. Mesmo assim segue atendendo na bodega com a ajuda de D. Socorro que prometeu que cuidaria dele até o fim. Assim, foi. A bodega era prestigiada e Zé Gavião atendia a todos com alegria sentindo-se útil. Morreu em Ipu a 28 de julho de 1998.

            Para mim uma autoridade. Teve uma bodega e hoje, mesmo depois de morto tem outra com leitura atual, atendendo ao Turismo Rural. A Fazenda Marruás é celeiro de histórias, de cultura e atrativos. O primeiro deles foi o Museu Frei Aquino, idealizado por este frade de grande sensibilidade que começou a juntar peças que contam a história do sertão e da fazenda. São mais de 300 peças em exposição na casa grande bicentenária da família. Como religioso construiu uma capela em estilo romântico e ali celebrava sempre quando estava na Fazenda. Construiu também uma hospedaria, ao estilo franciscano, onde os hóspedes repartem a experiência da hospedagem comunitária. Tudo de acordo com a simplicidade de uma fazenda. Frei Aquino quis ser enterrado na Marruás e ali repousa na Capela de Nossa Senhora da Conceição, construída por ele. Outro atrativo da fazenda.

            A Fazenda Marruás conta com estes atrativos além da ordenha de vacas e da feitura do queijo de coalho feitos com maestria por D. Socorro. O turista desfruta de tudo isso e agora também da Bodega do Zé Gavião, com outra leitura, gêneros não vende mais pode-se comprar o doce de leite, o queijo de coalho, a rapadura, tibumgos de barro, artesanato e o mais inusitado, peças de artes produzidas por uma artista plástica da casa, Klaudiana Torres. Telas e aquarelas, todas retratando a vida da fazenda.

            Uma bodega para o Turismo Rural. Vende cana? Vende sim, uma ou duas doses, não dá lucro. Dá prazer e alegria pra quem se aventura pelo Turismo Rural no Ipu. Na Fazenda Marruás, um lugar ímpar que teve a “gulora” de conhecer e ter Zé Gavião. E a fazenda conta hoje de novo com a bodega com leitura nova, repaginada, mas com todo o requinte de uma bodega. Bodega do Zé Gavião. Fazenda Marruás. Ah chão abençoado!

            É bom demais tomar uma ou umas em pé no balcão do Zé Gavião! Vá lá. Experimente esta experiência rara que só acontece na Fazenda Marruás.

Coco, Julho de 2017.