Contos

José Airton Pereira Soares

 

Estudo. És tudo!

Final de curso. Beca, baco, zum-zum-zum, tarefas e as

apreensões estudantis.

Cecília, concludente, teria que elaborar um conto. Massacre!

Sempre escapou a esse tipo de tarefa. Dessa feita, infelizmente,

descascaria sozinha o abacaxi. O tempo passando, e a aflição, a

angústia desmesurada a dominavam. O que fazer? Abominava

Letras. Excetuando as Letras do Câmbio. Nestas tirava de “letra”.

Saiu. Precisava desabafar com alguém. Encontrar um cúmplice.

Castrar suas frustrações. Lembrou-se de Emerson, colega

de faculdade que morava no 802, a três quadras da sua residência.

Emerson, amante da música, usava seu tempo vago, o que

não era pouco, gravando música de Jennifer Lopez e Luan Santana.

Campainha toca.

• Emerson, Emerson estou desesperada! - Antes mesmo

de ser solicitada a entrar.

• Fica muito mais bonita assim. - Zomba o amigo.

• Não estou pra chacotas, cara!. Disponho apenas de poucas

horas para elaborar um conto, cadeira de Teoria, e

não sei nem por onde começar. Pensei até em abandonar

a faculdade, mesmo sendo concludente.

• Lamentável, minha cara Cecília. Você é um é nadinha

abaixo de mim, em se tratando de escrita. Nunca escrevi.

Nada, nada. Pra não dizer que minto, vezes perdidas

rabisquei algumas linhas à família, que mora no interior,

pedindo dinheiro. Tarefa que não exige muito talento,

pode imaginar.

Mesmo assim sugere.

• Cecília, por que não contratar um testa de ferro? Mais

prático!

• Já pensei, ocorre que, além de escrever o conto, preciso

comentar alguma coisa ao vivo pra turma. Complemento

de nota. Tem jeito não, Emerson. Tô frita!

• Calma, menina. A situação não é de todo vexatória. Ou

é? Concludente de Letras. Carrega nos ombros um grande

nome da poesia. Não saber escrever nada é de lascar.

• Não seja por isso – retrucou Cecília, em breve momento

de descontração. Você carrega nos ombros um nome

muito mais pesado do que o meu: filósofo e ensaísta inglês.

• Chii! Como tá sabida.

• Tive um namorado, Emerson, cujos pais eram metidos a

intelectuais. Eis a razão da sapiência.

Depois de horas de queixumes, a conversa minguou em razão

de seu próprio excesso. Cecília despede-se sorumbática e ma

cambúzia. `Não fi z o conto, mas pelo menos desabafei’, pensava

enquanto dava partida no carro.

Emerson não era pessoa de se envolver com problemas dos

outros. Levava tudo na brincadeira. Continuou na sua curtição

musical.

Mas, de repente... de seu apartamento, com as mãos na boca

em concha, grita para o infinito a sua alegria. Cecília, Cecília, o

cooonnto! Enquanto a gente conversava o gravador ficou ligado.

É só passar pro papel. Sooooobe!

 

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