Contos

Sebastião Valdemir Mourão

Titular da Cadeira nº 2

Dê Cá Meu Osso

             - Ás de paus!

            - Eu quero. E tome sete de espada!

            - Desse jeito eu bato!

            Eram alguns amigos e vizinhos que se juntavam na boquinha da noite pra jogar baralho apostado. Quando não era baralho, era bozó. E haja trololó. Isto, quando não dava em rebu.

Cada um com uma vantagem pra contar, mas quando se falava em alma, tinha restrição. Um se retorcia. Outro tomava chá de cadeado. Já outro resmungava e ninguém entendia. Outro dizia que esse negócio de alma era conversa pra boi dormir. Outro, metido a corajoso, azucrinava o amigo do lado. Até que um se virou pro corajoso e disse:

- Aposto que tu num vai no cemitério agora e traz um osso de uma cova.

- Também aposto. Disse outro.

- Eu também aposto, completou um terceiro, desde que não tenha mutreta.

Apostaram e casaram em cima da mesa improvisada: uma tábua em cima de quatro rumas de sucatas de tijolos. O corajoso saiu pra cumprir a aposta. Quando chegou lá, olhou prum lado, pro outro, nem o coveiro vigia tava por perto. Achou uma ossada de uma cova substituída pra enterrar outro indigente. Pegou um osso, parecia ser da perna, quando inesperadamente uma voz grossa, compassada e rouca, falou:

- EEEsse nããão, é do meu paaai! 

Ele teve um tremelique, devolvendo ligeirinho o osso. Arrepiou-se, mas continuou e pegou outro:

- EEEsse nããão, é da minha mãããe!

Desta vez, deu um sopapo e soltou mais rápido ainda. E pensou:

- Será que vou perder a aposta? São cinco por um, vale quatro diárias de serviço alugado. É ganhar na moleza e meter a mão na mufunfa. Do jeito que tô matando cachorro a grito, tenho de continuar, vou ganhar quatro de lambuja.

E assim a voz se repetiu mais outras vezes, sempre dizendo que o osso era de alguém. Resolveu acabar com esse furdunço. Agarrou um osso na marra e vazou. Saiu voado, depois de responder:

- Ou do seu pai, ou da sua mãe, ou da sua avó, ou do seu avô, esse agora vai comigo.

A voz não desistiu e saiu fungando no cangote do corajoso, repetindo:

- Dê cá meu ooosso!... Dê cá meu ooosso!... Dê cá meu ooosso!.. Dê cá meu ooosso!

O corajoso em disparada, e na carreira, sem olhar pra nada. Só pensava em ganhar a aposta, nem que se lascasse. Era questão de honra. Tava no maior miserê. E a voz atrás:

- Dê cá meu ooosso!... Dê cá meu ooosso!... Dê cá meu ooosso!.. Dê cá meu ooosso!

Chegando na casa onde tavam jogando, ainda correndo, soltou o osso em cima da mesa improvisada, perto do dinheiro da aposta e disse, mantendo a carreira:

- Ganhei a aposta, taí o osso, e o dono vem correndo aí atrás.

Mal terminou a frase, todos se levantaram assustados e saíram em disparada, feito uma bala. Sem rumo, se espalharam apavorados.

A voz chegou na mesa do jogo, juntou o dinheiro, botou no bolso e foi pra casa.

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