Contos

Sebastião Valdemir Mourão

Titular da Cadeira nº 2

Túmulo Quadrado Morno

Meteu a chave no portão preto e exótico. Entramos, curiosamente, por ele, apesar de haver ao lado outra entrada, sem porta. Tudo ali, tranquilo. E a beleza ostentava o capricho dado àquele ambiente místico.

            Ele me levou a um mausoléu lindo, lindo. Embora excêntrico, limpíssimo e brilhante como granito. Lembrava aquele anel das brincadeiras da infância de passar o anel: pras crianças, tudo limpo, puro, inocente.

Sobre a tampa, pequenos jardins, mais ou menos de dois palmos cada, embelezados com rosas, ervas, galhos e espinhos perfeitos, perfeitos. Pareciam artificiais. Sua coberta aparentava leve, já que, sem esforço, ele pôde movê-la, acrescentando:

            ─ Só os familiares mais próximos podem deslocá-la. Um estranho não consegue. Quer ver, tente!

            Tentei, não consegui. Parecia de chumbo!

            Externamente, tinha o formato quadrado. Talvez quadrado perfeito, com as bordas arredondadas. Dentro, como um extravagante labirinto ovalado. E todos os moldes do corpo, ou dos símbolos guardados, eram como pequenas paredes finas e arredondadas. E ele continuava a mostrar, explicando:

            ─ Veja, só a cabeça fica pro lado de dentro do túmulo; do pescoço até os pés, tudo enterrado, mas fora do quadrado.

            Quis interrompê-lo. CGD (este era seu código, aliás, seu nome de antigamente) deu sinal com a mão espalmada pra esperar e continuou:

            ─ Esta espada, mesmo rachada, representa o espírito de luta quando em vida e, portanto, deve acompanhá-lo depois da vida terrena. Assim também o crucifixo, ainda que não bento; afinal, o que valia era a fé que papai tinha e a certeza de que eu o havia mandado benzer antes de dar. Foi-se sem saber a verdade.

            ─ E aquela caneta, por que está ali? Por que próximo à cabeça dele? Perguntei, apontando com o dedo indicador.

Respondeu, mansamente, que simbolizava sua companheira das horas de insônia, de inspiração, de revolta, de alegria, de dúvida, de delírios sensuais... Foi e não foi, lá estava com a caneta na mão, registrando seus mais importantes momentos e suas ideias voadoras.

            Fez-se silêncio por algum tempo. Uns minutinhos, talvez. O suficiente pra fincar os olhos em um chip de computador e fazê-lo reflexivo, concentradamente reflexivo. Com os olhos arregalados de espanto, procurou responder a pergunta sobre a significação daquele equipamento moderno, pequeno e muito junto ao cérebro.

            ─ O chip é o cérebro artificial que trabalha pelo cérebro humano, fazendo possível a realização das atividades mais chatas e de cálculos intermináveis, humanamente complicados. E, se não tivermos cuidado, poderá, um dia, substituir-nos em muitas outras atividades até agora afeitas ao homem.

            Esta última afirmação me deixou pensativo, divagando o pensamento a uma distância momentaneamente inatingível e a uma mente sensivelmente atingida. E ele percebeu minha viagem mental. Sorriu, quase sem separar os lábios, declarando:

            ─ O chip do futuro te levou ao destino do cérebro humano ou, se não estou errado, ao que virá a ser o cérebro artificial. Está sendo difícil aceitar ou achar as duas fronteiras que separam a inteligência informatizada da inteligência desumanizada, não é mesmo?

            ─ É, acho que sim!

            Respondi meio indiferente, meio descrente, meio atordoado. E aí voltei os sentidos praquele quadrado funesto, diante de mim e de todos os seres inquietos ante a incerteza do aqui e do além.

            Tornei momentaneamente a mim e, só aí, percebi o cérebro extraído da cabeça e junto ao chip, que me transportou às reflexões anteriores. Mal abri a boca, já me interrompeu, procurando explicar a aproximação dos dois cérebros.

            ─ Diante da incerteza do amanhã e do medo do homem ser dominado pela máquina, é bom que mantenhamos os dois cérebros próximos um do outro, a fim de que ambos se vigiem, se protejam e se relacionem harmonicamente, tentando evitar a destruição de um ou de outro. Quando duas forças se vigiam, se relacionam, tendem a respeitar uma à outra: é a lei da evolução!

Fiquei tonto, a ponto de procurar me agarrar em algum objeto. Segurei-me na coberta do túmulo quadrado. Senti-a fria, quase gelada. Meu espanto alertou-o pra me fazer novas explanações, agora sobre este estado térmico.

─ A tampa, afastada do quadrado, explicou CGD, separou a energia absorvida por ela e transmitida pelo interior do mausoléu. Esta separação esfriou as relações entre a proteção da tampa e as transmissões energéticas e espirituais do corpo guardado.

E continuou:

─ Quando fechado, a temperatura é morna, devido à relação entre o corpo, o quadrado, a tampa e o mundo. Ao chegarmos, estava assim. Você não percebeu, porque não tocou nele.

Fiquei meio assustado, já que não havia visto um túmulo morno, como que conservando a temperatura do corpo, ainda que depois da vida.

Despercebidamente, arranquei uma folha de erva santa do pequeno jardim cultivado sobre a tampa e instintivamente pus na boca. Imediatamente cuspi, levado pela repulsa ao gosto da folha mastigada. E ele, entendendo tudo, como que justificando, disse:

─ O gosto amargo só existe quando ela está afastada do lugar. Ao retornarmos a tampa pra fechar o quadrado, todas as folhas, ervas, flores, e até os espinhos, voltam ao sabor inicial, liberando um cheiro delicado e apresentando um gosto adocicado, ameno, puro.

            Percebi, então, que expirava um cheiro enjoado, quase idêntico ao exalado pelos cemitérios convencionais. E, como que inquieto por permanecer tanto tempo com a tampa fora do quadrado, CGD fechou-o e, mesmo sem trancar, tudo se vedou, ouvindo-se, agora, uma música afetuosa, leve, orquestrada, embora não se pudessem identificar os instrumentos, o autor e...

            Foi aí que retornei a mim e percebi que havia, antes, um ruído estranho aos meus ouvidos...

            Lembrei-me, então, que CGD havia falecido há dias.

Mais artigos do Autor.