Contos

Sebastião Valdemir Mourão

Titular da Cadeira nº 2

BEM NA MEDULA

  

            Quarta-feira, após o almoço, depois da sesta, mês das fogueiras. A confirmação do diagnóstico do neurologista pelo neurocirurgião: tumor na medula. Tamanho previsto de dois a três centímetros.

            -É o que dá pra presumir pela ressonância magnética. E já sangrou! Disse, apontando com o indicador para o local na ressonância.

            - Já sangrou?

            - Já! E se sangrar outra vez... Pode não sangrar hoje, amanhã, dentro de dois meses... mas, durante esse período, se sangrar, não lhe garanto a vida.

            - Qual a solução?

            - Cirurgia!

            - Quando?

            - Ontem!

            - Entendi. Tem de ser o mais rápido possível. Pode ser segunda?

            - Se fosse em mim, eu faria depois de amanhã, sexta.

            Pode ser pelo plano de saúde?

            Pode! Mais...

            - Tudo isto?

            - E à vista, em espécie!

            A esposa acompanhava a conversa com lágrimas. Ele transparecia tranquilidade, fortaleza. Pelo menos, era o que aparentava. Parecia pressentir que eu estava do seu lado, embora não permitisse que fosse divulgada a notícia, senão após retornar da anestesia geral. Achava que alguém poderia torcer contra. Tem gente pra tudo.

            Toda preparação durou quarenta e oito horas: material, espiritual, mental. Aproveitou o tempo para consultar outras autoridades no assunto: todos confirmaram o mesmo diagnóstico. Ouvida uma médica da área na maior capital do país, ela assegurou que um dos melhores profissionais estava aqui. Era o mesmo que ia fazer a cirurgia. Não pôde retroceder. Aumentara a confiança. Rezou e me pediu que eu o acompanhasse como sempre.

            Sexta-feira, no mesmo horário da consulta, no quarto do hospital, com pouquíssimas pessoas que sabiam do acontecido, ouvia piadas como não ouvia há tempos, em tão pouco tempo.

Uma moça de branco entrou no quarto, raspou o cabelo no pé da nuca, tipo surfista, do jeito que ele sempre condenou – era o início da perda do comando da situação: um homem no hospital não é homem, e nem vontade tem! E ela lhe aplicou uma pré-anestesia. Neste momento, lembrou-se do neurocirurgião, quando olhou a ressonância:

            - Antes fosse na cabeça. Eu teria mais espaço para trabalhar. O interior da medula é muito restrito, o pouco espaço dificulta o manuseio de trabalho cirúrgico.

            Não conseguiu ficar acordado para relembrar a explicação do médico de que medula era como um cabo telefônico cheio de fios dentro. Cada fiozinho era responsável pela comunicação com o cérebro para comandar os movimentos do corpo. O tumor estava entre os fiozinhos da medula. Era sério. Exigia habilidade extrema para não avariar nenhum fio. Se atingisse um, era imprevisível o que poderia acontecer.

            Na mesa de cirurgia, dois médicos amigos além da equipe responsável pela cirurgia e eu, mas sem que ninguém percebesse a minha presença, influenciando em tudo. Um filho tentou ficar, mas foi excluído por razões sentimentais.

            - Qualquer atitude de sensibilidade visível pode prejudicar o equilíbrio emocional da equipe. A prudência nestas horas é fundamental. Assim disse o chefe da equipe.

            Com o bisturi, o médico tentava retirar o tumor. Quando tocava em um nervo, minha voz interior ressoava em sua mente:

            - Cuidado, se atingir este nervo, ele pode perder sua sensibilidade poética. E aí, como vamos ter versos para os momentos sensuais, sociais, íntimos, reflexivos?

            - Neste aí, não! Suas mãos precisam continuar tocando as coisas, as coxas, os lábios, os seios, o sexo e, principalmente, continuar produzindo letras, arte de relacionamento, de cumprimento, de súplica, em busca do calor humano.

            - Neste outro, muito menos! Afinal, suas pernas precisam caminhar em busca do outro, dirigir-se ao mundo terreno sem dependência, com firmeza nos passos que ainda tem para dar em busca do cumprimento de sua missão na Terra.

            - Neste, também não! Sem seu temperamento, às vezes forte pela sinceridade, às vezes emotivo, outras vezes inquieto pela criatividade, às vezes desconfiado pela própria condição humana, às vezes carente de amigos, amigos, às vezes... sem isto, não seria mais ele e não se perguntou a ele, se ele queria ser diferente. Por isso, neste, não!

            E assim, em cada fio responsável por alguma função do corpo, eu interferia, a fim de que não fosse tocado nele, não fosse avariado e fosse evitado um mal maior.

Enfim, chegaram à conclusão de que se alguma sequela tivesse de acontecer, que fosse no equilíbrio dinâmico dele, mas que não ficasse inerte, inválido de todo.

Tudo acordado. Tudo acabado. Acordado, deu o primeiro sinal de vida: mexeu com o dedo indicador, dirigindo-se ao neurologista.

            Voltou ao quarto do hospital para recuperação, à custa de medicamentos fortes contendo corticoide. Como efeitos colaterais, surgiram alucinações.

 Numa hora, sentia os pés saindo da perna em busca da chinela que até hoje ainda não consegue calçar como antes. Era como se quisesse avisar que não conseguiria mais calçar chinelos. Quase sempre fica descalço.

 Noutra hora, de madrugada, sentia alguém lhe puxando pelas pernas como se quisesse lhe pôr fora da cama. Talvez seu subconsciente lhe alertasse que não mais dormiria de rede, como de costume, e sim de cama, embora sempre detestasse. Era o preço da sobrevivência.

Em certa madrugada, viu no teto do quarto uma imagem de uma mulher grávida, dando à luz a uma criança. Seria a lembrança de que ele passaria por todo processo de aprendizado motor de uma criança, e que ali estava nascendo outra vez?

Tomando conhecimento de tudo, o médico suspendeu os remédios, substituindo-os. Aí a realidade apareceu: dependente para fazer necessidades fisiológicas, asseios, locomoção, lembranças, as visitas controladas; e eram muitas! Mais até do que esperava, dada a sua forma séria e dura de viver e de trabalhar... O reconhecimento chega na hora em que você não espera e na hora exata em que você precisa. Por isso que dizem: a justiça divina tarda, mas não falta.

Aprendeu a andar novamente para entender o valor das pernas. Aprendeu a depender dos outros para exercitar o valor da solidariedade. Aprendeu a não mais ter de ministrar aula para entender o valor do magistério, as amizades que ele proporciona e o pouco respeito que estão dando aos mestres de hoje.

Tudo isto, por causa de um simples talhe bem na medula.

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