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João Martins de Souza Torres

 

ESQUERDA QUE NÃO SE ENDIREITA VERSUS DIREITA SINISTRA

ELEITOR versus ELEITO

Em 2005, quando do meu ingresso como membro titular

da Academia Cearense de Medicina, fiz no convencional

discurso de posse um pronunciamento referente à situação,

progressivamente deteriorante da política brasileira, centrado,

especialmente, no aspecto ético.

À época, confessei-me bastante apreensivo, dizendo

textualmente “ser o Brasil uma vítima fragilizada em

conseqüência de uma pérfida combinação política constituída

por uma ESQUERDA que não se endireita versus uma

DIREITA sinistra”.

No decorrer destes oito anos venho constantemente me

perguntando: Teria eu sido ingênuo nesta assertiva ou o Rei

Tempo (Chronos) da Mitologia grega me dera razão? A segunda

hipótese, infelizmente, me parece a verdadeira.

Faz-se necessário um breve retrospecto histórico para

melhor compreensão, especialmente dos mais jovens.

Ingressei na Faculdade de Medicina da Universidade

Federal do Ceará no início de março de 1964. Havia, até então

e por muito anos, apenas uma escola médica no Ceará. Hoje

são sete. Também em março do mesmo ano, no dia 31, deu-se

a Revolução Militar, assim cognominada por seus promotores

e simpatizantes, enquanto os opositores a chamavam de

Ditadura Militar.

Abolidos todos os partidos políticos, foram criados pelo

sistema apenas dois: ARENA e MDB. O primeiro - ALIANÇA

RENOVADORA NACIONAL - apoiava, irrestritamente, o

governo militar. Era a DIREITA civil e servil. O segundo partido

era o MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO, de

oposição, a chamada ESQUERDA. Seus componentes foram

os políticos que não aceitaram e combateram, como podiam, o

regime militar. Contavam com o apoio da maioria dos intelectuais,

dos artistas e da Igreja.

O regime militar durou vinte anos. Pela ordem foram

seus presidentes: Marechal Humberto de Alencar Castelo

Branco, Gal Artur da Costa e Silva, Gal Emílio Garrastazu

Médici, Gal Ernesto Beckmann Geisel e, por último, Gal João

Baptista de Oliveira Figueiredo.

Há de se reconhecer que coisas boas também foram

feitas, destacando-se a unificação dos Institutos de Pensão

e Aposentadoria na área da Previdência e da Saúde, o INPS

(Instituto Nacional da Previdência Social) que evoluiu para o

atual SUS e INSS.

Em 1964, foi criado também o Banco Central do Brasil,

entidade que desempenha o papel de autoridade monetária

no país.

Outro feito de grande alcance social foi a justíssima aposentadoria

rural do homem e também da mulher do campo até

então abandonados. Trouxe significante segurança e dignidade

ao trabalhador rural envelhecido. É, de longe, o principal

responsável pela sustentabilidade econômica das regiões mais

pobres do país a chamada aposentadoria dos idosos.

A economia do Brasil mostrou evidências de significativo

crescimento, dando espaço para ser denominada de “milagre

econômico”.

No campo político, a ditadura, toda poderosa, fez o

que quis. Cassou corruptos e, lastimavelmente, importantes

líderes políticos que lhes pudessem oferecer obstáculos.

Exemplo maior foi o caso do carismático Presidente Juscelino

Kubitschek que, além de cassado e exilado, quando de seu retorno

ao Brasil teve morte, ainda hoje, enigmática.

O maior dos benefícios do regime militar, embora totalmente

desnecessário, foi convencer que ditadura é coisa

deplorável. Não importa se de direita ou de esquerda, ela é

visceralmente danosa à democracia. À sociedade, lhe é execrado

o imprescindível exercício da cidadania. Todo sistema

que tolhe a liberdade, especialmente com o uso da força bruta,

da violência e/ou da tortura, deve ser banido sempre e para

sempre. Vale o antigo dizer: A ditadura é sempre má nem que

o ditador seja, eventualmente, bom.

Após incessantes e ferrenhas lutas da obstinada oposição

com crescente importante apoio da população, tendo a

decisiva participação da Igreja, dos artistas e intelectuais, em

sua nítida maioria, deu-se a custo alto, inclusive de muitas

vidas, a redemocratização, pondo fim a um logo período de

governo militar (vinte anos).

Embora com o fracasso inicial da majestosa e gigantesca

campanha das DIRETAS JÁ, Tancredo Neves se elegeu, por

via indireta, Presidente da República. Veio a falecer poucos

dias antes da posse, havendo forte comoção nacional.

Sob grande tensão política, José Sarney, seu vice, assumiu

a presidência. Foi um período conturbado e muito permissivo,

especialmente na questão ética. A direita reacendeu

seus vícios de modo insaciável.

A inflação perdeu o controle. Criou-se o PLANO

CRUZADO muito mal sucedido. Conseguindo mais um ano

de mandato à custa de inconfessáveis matreirices, Sarney,

mestre no assunto, governou por um quinquênio.

Fernando Collor de Melo, ex-governador das oligarquias

alagoanas, por via direta e num partido político desconhecido

e pequeno, se elege presidente da República, tendo

como vice o ex-governador de Minas Gerais, Itamar Franco

(PMDB), de grande respaldo ético. Sua principal bandeira da

eufórica campanha foi a apetitosa promessa de implacável

combate à corrupção, com sua emblemática caça aos marajás.

No final de 1992, o Congresso Nacional, com esmagadora

maioria, cassa Collor (impeachment), após a memorável

manifestação de rua dos “caras pintadas” de verde-amarelo.

Assume, constitucionalmente, seu vice, o honrado

Itamar Franco. Acontece o Plano Real, orquestrado pelo ministro

da Fazenda, o sociólogo e senador Fernando Henrique

Cardoso. A inflação é, realmente, controlada. Com o sucesso

do Plano Real, Fernando Henrique se elege, em primeiro

turno, presidente da República, em 1994. Por ter sido reeleito,

também em primeiro turno, governou por oito anos.

O instituto da reeleição, até então inédito no Brasil, custou

acordos políticos muito danosos ao país. Apesar de ter

controlado com eficiência a inflação e ter implantado reformas

por meio de questionáveis e nebulosos métodos de privatização,

o país esboçou progresso econômico e social, alcançando,

inclusive, visibilidade internacional.

Em 2002, na terceira tentativa, Luís Inácio Lula da Silva

vence as eleições. Usou como arma de campanha o combate

à corrupção da direita, ostentando, garbosamente, a sagrada

bandeira da ética, da qual o Partido dos Trabalhadores (PT)

muito se ufanava. Contou com o apoio predominante dos

intelectuais, dos artistas e da Igreja adepta da Teologia da

Libertação, tendo como alvo favorecer as classes menos privilegiadas

que se constituíam em esmagadora maioria.

Carismático e habilidoso no jogo político, Lula conseguiu

melhorar, visivelmente, as condições socioeconômicas

dos desvalidos, especialmente nas regiões mais pobres (Norte

e Nordeste). Seu principal plano midiático FOME ZERO foi

efetivo, projetando-o nacional e internacionalmente.

No campo da macroeconomia, elevou substancialmente

as reservas cambiais do país e retirou o Brasil da tutela do

Fundo Monetário Internacional (FMI), pretensão considerada

quase impossível.

Com o instrumento de utilização de vários tipos de

bolsa, buscando oferecer apoio financeiro às camadas mais

pobres, sem exigir delas nenhum trabalho, tal fato tem se

constituído, na minha visão pessoal, educativamente muito

deletério, viciando o cidadão que incorre no risco de perder o

respeito ao trabalho.

Muito mais que o PT foi o presidente Lula, por seu carisma

e capacidade no jogo político, o principal responsável pela

eleição de Dilma Rousseff à presidência do Brasil, a primeira

mulher brasileira a ocupar este posto.

Ainda no governo Lula, as crises econômicas internacionais

tiveram pouca repercussão na economia nacional.

Contudo, atualmente, já se fazem sentir os efeitos das crises

internacionais. O crescimento do país não tem atingido os índices

anuais previstos pelo próprio governo.

A corrupção no Brasil vem crescendo na freqüência e

no montante, porém detectada, sem dúvida, em decorrência

de um melhorado diagnóstico graças, principalmente, à ação

destacada do Ministério Público e da Polícia Federal. O mais

frustrante é isto ocorrer no governo do PT que sempre ostentou

a bandeira da ética como seu principal instrumento de

persuasão. Vide o emblemático MENSALÃO que, em nada, é

inédito no Brasil, apenas ocultado.

Em junho de 2013, o povo mais uma vez, especialmente

a juventude, decepcionado e indignado com tantos e vultosos

escândalos da mais descarada e diversificada corrupção, foi

às ruas das principais cidades brasileiras (Clamor das Ruas).

Protesta veementemente contra o “status quo”, usando as redes

sociais como principal instrumento de comunicação. Rejeita

firmemente a participação de todos os partidos políticos, negando-

lhes credibilidade e respeito.

Estes, os partidos políticos e o Poder Executivo, surpresos

e, aparentemente, apavorados, à semelhança de grandes

pecadores, esboçam superficiais e desacreditadas promessas e

votos de mudanças moralizadoras no tabuleiro político.

O povo está incrédulo, desamparado, inseguro, sentindo-

se enganado e desenganado. Não acredita nos governantes

executivos, do prefeito ao presidente. Desaprova, visceralmente,

o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Este, com as

leis atuais vigentes, além dos vícios que porta, se sente limitado

na função primordial de fazer justiça. Este sistema não está

bem. Basta ver: as cadeias abrigam apenas a classe pobre; os

ricos escapam quase todos.

Como fica? A DIREITA é sinistra e a ESQUERDA não é

direita.

Resta-nos revisar o binômio ELEITOR versus ELEITO.

Cada um de nós, eleitor, tem que exercer com decência,

vigor e rigor a cidadania que significa cumprir o dever e exigir

o direito. Colocar a culpa de tudo só no eleito – o político,

representante de nós cidadãos – é pouco, incompleto e até injusto.

Cabe-nos escolher com seriedade os candidatos e deles

exigir. Nós temos o principal tribunal sob nossa responsabilidade:

O PODER DO VOTO.

A sociedade, como um todo, tem que participar. É isto

que ocorre em países democraticamente mais sólidos.

Resta-nos o óbvio convencimento de que tudo para melhorar

o nosso país passa pela EDUCAÇÃO.

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