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Cláudio César Magalhães Martins

 

Na última semana de maio, o mundo foi surpreendido pelo escândalo da FIFA, que implicou a prisão de vários figurões envolvidos em desvios milionários e a decorrente renúncia do recém-eleito Joseph Blatter para seu 5º mandato na presidência da entidade.

            Blatter havia sido o principal assessor de João Havelange, que permaneceu por longos 25 anos (1974-1998) à frente daquela poderosa Federação, à custa dos votos de países africanos, cuidadosamente aliciados por ele para dar-lhe sustentação em sucessivas reeleições. Após o fim de sua permanência à frente da FIFA, foi agraciado com o título de seu Presidente de Honra, honraria a que teve de renunciar em 2013, após reportagem divulgada pela rede britânica BBC, em 2012, denunciando que a empresa de marketing ISL, falida em 2001, o subornou com o objetivo de conseguir os direitos de várias Copas do Mundo.

            Seu genro, Ricardo Teixeira, presidiu a CBF durante 23 anos (1989-2012), tendo se envolvido em diversos escândalos, tais como nepotismo no preenchimento de cargos, importação irregular de equipamentos e celebração de contratos com a NIKE, lesivos ao futebol brasileiro. É acusado, também, de ter sido beneficiário de dinheiro sujo oriundo da FIFA, então presidida por Havelange. Recolhido a sua fazenda, em Piraí (RJ), responde a diversos processos e sofre ameaça de prisão.

            Feito este preâmbulo, vejamos as enormes semelhanças de tais desatinos com os cometidos pelo governo brasileiro, a partir da gestão de Lula. Em 2005, estourou o escândalo do mensalão, tentativa de comprar votos de parlamentares com dinheiro público. Vários mensaleiros foram condenados, entre eles José Genoíno, ex-presidente do PT, e atribuiu-se toda culpa do processo criminoso ao então Ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu.  Lula, na ocasião, afirmou que não sabia de nada, não obstante ser o principal beneficiário do esquema.

            Em março de 2014, veio a lume o esquema denominado "petrolão", no qual estão envolvidas grandes empreiteiras e membros graúdos do PT. Sabe-se, através das delações premiadas, que boa parte dos recursos desviados da Petrobras foram direcionados à campanha de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014.

A operação Lava-Jato, que ainda não terminou, aponta para o Instituto Lula, em São Paulo, como um dos beneficiários do esquema.

 

            Apesar das semelhanças entre os dois escândalos, pode-se mencionar uma grande diferença: o "capo" da FIFA, Joseph Blatter, renunciou, pressionado pelos órgãos de justiça americano e suíço, bem como pelas empresas patrocinadoras da entidade. No Brasil, dificilmente ocorrerá o mesmo com a atual presidenta da República, que jura de pés juntos  não saber de nada, mesmo quando presidia o Conselho de Administração da Petrobras. A não ser que surjam provas contundentes contra ela e seja realizado um processo de "impeachment", Dilma continuará à frente do governo até o final de seu mandato, em 2018, não podendo sair às ruas sem ser vaiada e sequer fazer um pronunciamento na televisão sem sofrer panelaços.

 

            Eis aí a diferença entre FIFA e Brasil. No caso FIFA, os desvios de recursos praticados levaram à renúncia de seu presidente, impossibilitado de continuar, face à desmoralização sofrida. No caso brasileiro, a desmoralização do atual governo não foi, até o momento, suficiente para provocar a renúncia de sua presidenta. Se tal vier a ocorrer, o Brasil terá dado um grande passo rumo a um novo estágio que todos nós aguardamos com ansiedade e fervor.

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