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Cláudio César Magalhães Martins

 

Há livros que nos deixam impressões profundas por toda a vida. Um desses livros é “Do outro lado da fronteira”, de Antônio Magalhães Martins, o tio Totó, lançado em 1984 pelas Edições Paulinas.

            O livro narra, de forma comovente, a saga do autor, acometido, aos 23 anos, pelo mal de Hansen, popularmente conhecido por lepra.

            Prefaciado por D. Helder Câmara, então Arcebispo de Olinda e Recife, a obra, logo em seu início, dá o tom do que pretende mostrar, quando tio Totó afirma: “...Agora, eu estava do outro lado da fronteira, na margem acidentada e escura, onde os caminhos nunca se destinam ao futuro nem os horizontes se abrem em promessas de luz. Era a fronteira dos solitários, onde jamais chegam  os gestos, as vozes e as palavras amigas...   Eu estava leproso !”

            A narrativa se inicia com a descoberta da doença no longínquo ano de 1934, a tristeza da família e o começo de uma cruel discriminação que persistiria por toda a sua vida. Por recomendação do Dr. Antônio Justa, médico famoso da Fortaleza de então, o enfermo foi encaminhado ao Rio de Janeiro, onde as condições de tratamento eram mais favoráveis.

            Internado no Hospital dos Lázaros, no Rio, em 15 de agosto de 1935, tio Totó narra que se impressionou favoravelmente, ao ler, na entrada daquele nosocômio, a seguinte legenda de fé: “Aqui renasce a esperança” – antítese da inscrição imaginada por Dante Alighieri, autor da Divina Comédia, no pórtico do inferno: “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate (“Deixai toda esperança vós que entrais”). Os companheiros, a rotina hospitalar, o favorecimento a determinadas pessoas, tudo isso é contado com riqueza de detalhes pela pena de um perspicaz observador.

            Uma réstia de esperança surgiu quando, após três anos de tratamento, o diretor do hospital lhe deu alta, afirmando que ele estava clinicamente curado. O retorno às atividades profissionais abriram-lhe novas perspectivas. A busca por um emprego que lhe propiciasse renda para uma vida normal e confortável tornou-se verdadeira obsessão para tio Totó. Após alguns percalços, foi admitido numa grande organização da área financeira. Sua competência e dedicação foram notadas pelos dirigentes da empresa que o promoveram a gerente da sucursal de Vitória (ES), onde demorou-se por um ano. Seu desempenho fez com que fosse promovido mais uma vez, desta vez para a gerência de Manaus (AM). Lá, após um início promissor, os negócios começaram a cair vertiginosamente, influenciados pela 2ª Grande Guerra Mundial, que se encontrava em pleno curso. Veio, então, a derrocada. A direção da empresa, antes tão cordial e solícita, passou a criticar severamente a atuação da gerência da sucursal de Manaus, acarretando preocupações e angústia para nosso personagem. Como resultado, a terrível moléstia, que aparentemente estava superada, voltou a mostrar suas garras, obrigando tio Totó a voltar para o Rio, onde foi sumariamente demitido.

            Recomeça, então, a via crucis de tio Totó. Não tendo como manter-se por seus próprios meios, teve de reapresentar-se ao Hospital dos Lázaros, onde muitos dos antigos companheiros já não se encontravam. Algum tempo depois, foi encaminhado à Colônia de Curupaiti, na qual passou longos anos, enfrentando toda sorte de humilhações, intrigas e perseguições. Vale aqui registrar a descrição feita de personagens que povoaram, nesta fase, a vida do autor: ao lado de uns poucos amigos, muitos companheiros seus de infortúnio mostraram a face cruel da baixeza e da fraqueza moral inerentes aos seres humanos. Não suportando mais tal ambiente, decide empreender fuga juntamente com sua esposa.

            Inicia-se, a partir daí, nova fase na vida do autor. Associa-se a um cunhado em um escritório de contabilidade, onde passou 16 anos, tendo de deixá-lo, ao final deste longo período, devido ao agravamento de seu estado de saúde. Por fim, contrai tuberculose, sendo internado em um sanatório, conseguindo superar, após intenso tratamento, esta terrível doença.

            O capítulo final é dedicado ao retorno à Colônia de Curupaiti, onde tio Totó viveu os últimos anos de sua atribulada existência. Por fim, cabe transcrever um pequeno trecho do prefácio do livro, escrito por D. Helder Câmara:

“Desafio que alguém, ao ler a frase de Antônio Magalhães Martins, que abre este livro, frase que explica o nome do livro e que corresponde ao instante em que ele descobriu que estava marcado pela doença-espantalho, desafio que alguém, tendo um mínimo de sensibilidade humana, leia a frase e deixe o livro ao lado...

“Desafio que alguém, com um mínimo de sensibilidade humana, leia “Do outro lado da fronteira” e não se transforme em apóstolo da libertação dos “leprosos”...

 

Nota: Antônio Magalhães Martins, conhecido na família por Totó, é tio do autor destas linhas e irmão de seu patrono, Francisco Magalhães Martins e de sua mãe, Luíza Magalhães de Pinho.

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