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Por Olívio Martins de Souza Torres

 

Lendo no Grupo de Diálogo de Ipuarana  uma matéria postada pelo amigo Clotário sobre a ação jesuítica no Oriente, pincei o nome de um livro que me chamou a atenção. Trata-se de “O Silêncio”, de Shusaku Endo(1923), escritor japonês, católico, especialista em literatura francesa.

Graham Green classificou esse livro como um dos melhores romances do nosso tempo. Não pretendo fazer, aqui, uma apreciação dele, mas apenas relatar alguns episódios que possam despertar o interesse de alguém para lê-lo.

Trata-se da evangelização dos jesuítas no Japão, cujo pioneiro foi o basco Francisco Xavier que desembarcou em Kagoshima (Japão) com dois companheiros jesuítas e um intérprete japonês. Xavier apaixonou-se tanto pelos japoneses que chegou a chamá-los “a alegria de meu coração”.

O  verdadeiro arquiteto da missão japonesa foi o jesuíta italiano Alessandro Valignano que, visitando o Japão em 1579, encontrou lá uma comunidade florescente com cerca de 150 mil cristãos.

Mas, em 1614, foi decretada  pelo governo japonês a expulsão dos jesuítas de seu território, tendo havido uma perseguição violenta aos sacerdotes e cristãos, cuja forma de execução mais comum era a fogueira,  ou também ser amarrados em cruzes e colocados no mar para serem cobertos pelos ondas quando da maré alta.

Desde o inicio da missão até 1632, apesar dos métodos terríveis de execução,  nenhum missionário se tinha tornado apóstata.  Mas isto não demorou muito. O jesuíta português Cristóvão Ferreira, que tinha desenvolvido um belo trabalho de catequização de 33 anos, depois  de seis horas de agonia no poço, fez o sinal de apostasia, levantando o braço. Estava pendurado num poço, de cabeça para baixo, com um corte na orelha a pingar sangue, apenas com um braço livre para dar o sinal de capitulação, ou seja, a apostasia.

Foi um golpe terrível para a missão. A partir de então, foi suspenso o envio de missionários para o Japão.

No entanto, três padres jesuítas que tinham sido alunos de Ferreira, em Portugal, queriam investigar o que houve, realmente, com ele no Japão, pois ninguém sabia ao certo o que lhe tinha acontecido. Eram eles: Francisco Garrpe, Juan de Santa Marta e Sebastião Rodrigues. Foram a Macau e depois de muito insistirem com o jesuíta Visitador Valignano, em Macau, conseguiram autorização para embarcar, secretamente, ao Japão, pois estavam dispostos até mesmo ao martírio. Chegaram lá e levaram um intérprete japonês que vivia em Macau que havia apostatado, mas os missionários descobriram isto somente algum tempo depois.

Ao chegarem ao Japão, combinaram os três em se dispersar para não serem presos juntos. Mantiveram contatos com comunidades de camponeses cristãos. Rodrigues descreve a grande pobreza em que viviam os camponeses no Japão, sujeitos a pesados impostos devidos aos donos de terras e perseguidos pelos samurais. Viviam muito pior que os camponeses em Portugal na mesma época.

Quanto ao português Sebastião Rodrigues  - vou me referir somente a ele, pois foi o que deixou algo escrito - viveu muitas peripécias, fugindo constantemente dos soldados, mas mantendo contatos com as comunidades cristãs, tendo feito relatos a seus superiores.  Finalmente, foi preso e submetido a várias torturas, mas conservando, porém, a firme disposição de não apostatar.

Num dos interrogatórios, em Nagasaki, foi trazido à sua presença o padre Ferreira para convencê-lo a apostatar. Ferreira lhe disse: ”Este país é um pântano. Com o tempo você mesmo perceberá isto. Este país é um pântano pior do que você possa imaginar. Sempre que plantar um arbusto neste pântano, suas  raízes começarão a apodrecer; as folhas ficam amarelas e murcham. E nós plantamos o arbusto do cristianismo neste pântano. Os japoneses, até hoje, nunca tiveram o conceito de Deus e jamais o terão”.  

O certo é que Rodrigues não levou em conta as admoestações de  Ferreira, tentando convencê-lo a apostatar.  

O inquisidor disse a Rodrigues que ele estava sendo altamente egoísta, pois cristãos conhecidos dele estavam sofrendo martírios, por sua causa, ao seu lado, e iriam morrer  se ele não apostatasse.  O mesmo disse-lhe Ferreira. Apostatar consistia nada mais nada menos que pisar  um ícone de Cristo que os japoneses chamavam “fumie”.

Lendo a Paixão de Cristo segundo os Evangelistas, pude deduzir que o sofrimento do padre Rodrigues e mesmo, anteriormente, do padre Ferreira, foi talvez até pior que o sofrimento de Cristo, pois, além de sofrerem castigos físicos, ser-lhes-ia imputada também a culpa pelo sofrimento e morte de cristãos japoneses. Psicologicamente, eles ficaram arrasados.

Rodrigues, enfim, capitulou. Tinha que pisar o “fumie”. Seu pé parecia pesado demais. Ouviu do Cristo de bronze as palavras: “Pise! Pise. Eu, melhor que ninguém, conheço a dor em seu pé. Pise! Foi para ser pisado pelos homens que nasci neste mundo. Foi para partilhar a dor dos homens que carreguei a cruz”.  Na hora em que colocou o pé no ‘fumie’ o canto argentino de um galo ecoou pelos ares  vindo de uma capoeira próxima.

 Tanto ele quanto Ferreira receberam nomes japoneses de falecidos, ficando, porém, com as esposas e filhos deles. Morreram no Japão em liberdade vigiada. Não puderam voltar à sua pátria. Mas, certamente, a filosofia cristã não fugiu deles.

Quem somos nós para julgá-los?

De relance, volto ao Japão na Segunda Guerra Mundial.  Nagasaki  foi a cidade onde os padres  jesuítas portugueses Ferreira e Rodrigues foram julgados e lá passaram a residir. Lá também caiu uma bomba atômica jogada pelos americanos em 1945. O mundo inteiro, ainda hoje, condena o ato. Os americanos, não.  Dizem eles que, sem as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, a guerra teria durado muito tempo ainda e milhares de pessoas a mais teriam morrido.

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