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José Solon Sales e Silva

 

Ipu, cidade cearense situada na zona norte do estado e uma das mais antigas deste lado do território estadual teve sua fundação iniciada no século XVIII. Situada em uma zona geográfica privilegiada, ao sopé da cuesta da Ibiapaba, sempre contou ao longo de sua história com uma efervescente atividade cultural. Os movimentos artísticos e literários remontam ao século XIX, quando a sociedade promovia saraus animados com muita música e poesias. Os músicos e artistas das mais diversas áreas se fizeram representar em todas as gerações. O presente artigo aborda o perfil dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes. Sendo o patrono aquele que protege e norteia os caminhos, buscou-se traçar este perfil sobre vários aspectos percebidos a partir das biografias publicadas no “Livro dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciência e Artes”, obra organizada pelo Acadêmico e então Presidente da Academia, Sebastião Valdemir Mourão e pelos Acadêmicos João Pereira Mourão e José Airton Pereira Soares. A pesquisa caracteriza-se como exploratória, tendo sido utilizada a técnica bibliográfica seguida de análise quantitativa e qualitativa. Como resultado encontrou-se que os Patronos viveram em quatro períodos da história do Brasil que vão do século XVIII até a década de 1930 do século XX. Notaram-se ainda pelos dados encontrados nas biografias que os Patronos em sua maioria eram possuidores dos valores apregoados pelo lema do sodalício que são ética, respeito e dignidade.

 Palavras chave: patrono; academia de letras.

 1)      INTRODUÇÃO.

 É próprio das Academias de Letras no Brasil elegerem como Patrono de cada cadeira um cidadão da terra que muito tenha contribuído na área de atuação desta Academia. Os Patronos são guardiões do conhecimento e inspiração para o sodalício, servindo de modelo para que a entidade possa desenvolver seu labor em meio à sociedade onde é criada.

 A Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes foi fundada em 14 de janeiro de 2006, tendo como lema “Ethice Reverentia Dignitas” (Ética, Respeito, Dignidade). Tal lema traduz a postura dos acadêmicos, assim como foram também princípios que inspiraram os seus Patronos. Conforme preceitua o estatuto da Academia seus objetivos são:

                                                                     “cultivar o desenvolvimento das letras, das ciências e das artes na                                                                                      cidade de Ipu; preservar a produção literária, científica e artística                                                                                     de Ipu nas suas diversas formas de manifestações e promover                                                                                            atividades educativas, culturais e científicas em prol da sociedade                                                                                     ipuense.” (artigo 2º de Estatuto da Academia Ipuense, 2006.)

 No último dia 25 de fevereiro de 2012, a Diretoria Avançar, que esteve à frente da Academia durante o biênio 2010/2011, presidida pelo Acadêmico Sebastião Valdemir Mourão, lançou para regozijo da Academia e da comunidade ipuense o “Livro dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciência e Artes”  publicado pela Premius, Fortaleza, 2012.

 Cônscio da relevância desta publicação para o resgate da história do Ipu resolveu-se traçar o perfil dos Patronos a partir do valoroso conteúdo da obra. A pesquisa caracteriza-se como exploratória, onde se utilizou a técnica bibliográfica seguida de análise quantitativa e qualitativa. É relevante notar que a obra apresenta lacunas e em algumas análises a falta destes dados deve ser levada em consideração, embora para a análise quantitativa tenha-se utilizado números absolutos diferentes. As lacunas principais nos dados biográficos dos Patronos dizem respeito a datas de nascimento ou morte. Foram conseguidas algumas datas utilizando-se de outras fontes que não a obra em apreço. Entretanto, não se têm datas de nascimento e/ou morte de cinco Patronos, razão pela qual quando se analisou este item se utilizou como número absoluto trinta e cinco e não  quarenta como deveria ser. Na verdade esta foi a maior lacuna identificada.  O artigo foi itemizado partindo-se dos elementos necessários para situar o Patrono no contexto da Academia.

 O item Patrono contextualiza o surgimento das Academias de Letras e sua evolução ao chegarem no Brasil houve a introdução da figura do Patrono. Esclarece também referido item sobre esta figura e seu papel dentro do sodalício, além de nomear todos os Acadêmicos com suas respectivas cadeiras.

 O item seguinte trata da territorialidade do Patrono, onde se explica que esta ultrapassa o conceito de naturalidade, abrangendo também o sentimento de pertença. Nem todos os Patronos são naturais de Ipu, o que não invalida a legitimidade destes de vez que se evocando este sentimento de pertença comprova-se que muitos daqueles que não nasceram no lugar são mais engajados e contribuem mais que os naturais do lugar, isso tudo a partir deste sentimento.

 Na sequência, trata-se da temporalidade e dos benefícios a terra, onde se traçou o tempo de nascimento dos patronos mostrando-se em gráficos os períodos da história do Brasil assim como as linhas gerais de pensamento filosófico e econômico de cada um dos períodos objetivando entender-se melhor a atuação destes Patronos. Neste item também se investigou o tempo de vida de cada Patrono para traçar um perfil de suas existências.

 No item seguinte tratou-se de entender as razões das profissões dos Patronos e constatou-se que todos eles têm relação com as letras, ciências, artes e espiritualidade. Observou-se que as profissões estão intimamente ligadas aos referenciais de valores da época de nascimento de cada um destes Patronos. Logo após apresentam-se as conclusões e as referências.

 2)      PATRONO.

                           Criação francesa, as Academias de Letras surgem na França do Cardeal Richelieu em 1635, espalhando-se mundo afora como modelo de agremiação normalizadora da língua pátria, em sua estrutura inicial. No Brasil, a Academia de Letras, foi criada no último decênio do século XIX, e segundo Silva (2007, p. 1) “uma inovação surge com a Academia Brasileira de Letras que foi a criação dos Patronos das respectivas cadeiras, que são aqueles que guiam e servem de exemplo e que igualmente contribuíram sobremaneira com a sociedade em seu tempo.”

                         A Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes também inovou em sua estrutura. Seguindo o modelo originário acrescentou elementos inovadores sob o ponto de vista da primeira concepção das academias de letras. Conforme Silva (2007, p. 1)

 “Nossa Academia traz um diferencial. Por surgir em uma comunidade com poucos mil habitantes não seria prudente fundá-la somente como Academia de Letras, assim foi conveniente juntar-se as Letras a Ciência e as Artes, notadamente por ser Ipu berço de tantos filhos artistas em suas mais variadas expressões, sejam na música ou nas artes plásticas.” (SILVA, 2007, p. 1)

                         Os Patronos, aqueles que protegem, defendem e servem de modelo, da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, são em número de quarenta, escolhidos inicialmente pelos idealizadores da Academia e posteriormente pelos ocupantes das demais cadeiras. Foram eles, homens e mulheres abnegados e que muito contribuíram por sua terra em seu tempo e em suas áreas. Não foi possível encontrar-se o critério utilizado para a ocupação das cadeiras pelos Patronos.

 Figura 1- PATRONOS DA ACADEMIA IPUENSE DE LETRAS, CIÊNCIAS E ARTES

Cadeira Nº 1
Francisco Edilberto Uchôa Lopes
Cadeira Nº 2
José Milton de Vasconcelos Dias
Cadeira Nº 3
Monsenhor Gonçalo de Oliveira Lima
Cadeira Nº 4
Delmiro Augusto da Cruz Gouveia
Cadeira Nº 5
Archimedes Memória
Cadeira Nº 6
Antônio Carvalho Martins
Cadeira Nº 7
Thomaz de Aquino Corrêa
Cadeira Nº 8
Maria da Conceição Assis
Cadeira Nº 9
Moacir Alves Timbó
Cadeira Nº 10
Ana Magalhães Martins Melo
Cadeira Nº 11
Francisco Magalhães Martins
Cadeira Nº 12
Abílio Martins
Cadeira Nº 13
Gerardo Aires de Sousa
Cadeira Nº 14
Maria de Lourdes Magalhães Ximenes
Cadeira Nº 15
João Anastácio Martins
Cadeira Nº 16
Ernestina da Natividade Magalhães
Cadeira Nº 17
Maria Valderez Soares de Paiva
Cadeira Nº 18
José Itamar Mourão
Cadeira Nº 19
Gonçalo Pereira de Farias
Cadeira Nº 20
Aderson Magalhães
Cadeira Nº 21
Abdoral Timbó
Cadeira Nº 22
Amadeu Furtado
Cadeira Nº 23
Francisco das Chagas Torres
Cadeira Nº 24
Maria Valdemira Coelho Melo
Cadeira Nº 25
Félix Corrêa Aragão
Cadeira Nº 26
José Osvaldo Araújo
Cadeira Nº 27
José Cecílio do Vale
Cadeira Nº 28
Francisco Araújo
Cadeira Nº 29
José Amauri Aragão Araújo
Cadeira Nº 30
Thomaz Corrêa Aragão
Cadeira Nº 31
Antônio Marrocos de Araújo
Cadeira Nº 32
Milton de Sousa Carvalho
Cadeira Nº 33
Antônio Magalhães Martins
Cadeira Nº 34
Cônego Francisco José Aragão e Silva
Cadeira Nº 35
Antônio Augusto Rodrigues de Marrocos
Cadeira Nº 36
Francisco das Chagas Paz
Cadeira Nº 37
José Euzébio Néri de Sousa
Cadeira Nº 38
Oséas Martins
Cadeira Nº 39
Manoel Bessa Guimarães
Cadeira Nº 40
Joana de Paula Vieira Mimosa
 Fonte: adaptado de Mourão (2012)

 3)      TERRITORIALIDADE DOS PATRONOS

                         O sentimento de pertença constitui-se em elemento individual e coletivo de um grupo de pessoas em determinado tempo e espaço. Pertencer a uma coletividade enquanto indivíduo é prerrogativa individual a partir do momento em que cada pessoa sente-se integrante de um grupo. Já o sentimento de pertença coletivo, traduz-se pelos feitos desta comunidade em um determinado tempo e espaço. O feito a que se refere é o elemento chamado de cultura, o produto daquilo que é feito e refeito pela coletividade ao longo do tempo.

                         Ao itemizar-se  “territorialidade dos patronos” buscou-se discorrer sobre o lugar de nascimento de cada patrono ao mesmo tempo em que se buscam subsídios para entender o sentimento de pertença de cada um deles. Para o direito, a naturalidade aponta para o lugar do nascimento, significando nato, nascido, congênito, natural de um espaço determinado, conforme preceitos da geografia. Ser natural de, indica onde se nasceu territorialmente.

                         Entretanto, sentir-se natural de uma determinada região abrange elementos intangíveis e sentimentos, que extrapolam os conceitos do direito e da própria lei. A naturalidade dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes é naturalmente, como não poderia deixar de ser, formada por Patronos nascidos em Ipu, Ceará, em sua maioria. 

             Pela leitura atenta do “Livro dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciência e Artes”, salvo raras omissões, levantou-se a naturalidade de todos os Patronos, o que se apresenta nas figuras abaixo.

                     Figura 1 - Naturalidade dos Patronos

              Fonte: (adaptado de Mourão, 2012)

 Do total de Patronos 80% são nascidos em Ipu e 20% nascidos em oito outras cidades. Não, entretanto, estes  Patronos de não naturalidade ipuense carregavam em si o sentimento de pertença, pois viveram e moraram em Ipu e comprovadamente pelo que se depreende das biografias publicadas no “Livro dos Patronos” todos eles amaram a terra escolhida para morar, viver ou trabalhar, por força das circunstâncias. A única Patrona de quem não se pode fazer a mesma assertiva é Joana de Paula Vieira Mimosa, pois pela distância e pioneirismo da mesma, considerada a fundadora da cidade, ainda no século XVIII, não se contam com registros escritos que comprovem esta afirmativa. No entanto, é de se supor que a mesma tenha tido algum sentimento de pertença, pois foi uma desbravadora e povoadora da região. São escassos os registros de quanto tempo viveu em sua sesmaria ao sopé da Ibiapaba ou mesmo se ali viveu até sua morte.

 4)      TEMPRALIDADE E BENEFICOS A TERRA

 Os Patronos nasceram entre os séculos XVIII e o século XX. Nestes dois séculos, os fatos históricos se sucederam e a sociedade brasileira avançou em todos os aspectos. No início, século XVIII, foi o povoamento que começou com a sesmaria.

 Sobre a procedência dos colonos destinados para o Ceará, Leal (1993, pág. 99) diz que:

 “Os nossos colonizadores eram de boa procedência e procedimentos, de famílias organizadas e ordeiras e de bons costumes. Aqui, logo surgiram os casamentos, também, em boa proporção (20,42%), com filhas de patrícios primeiramente chegados. Boa parte deles conseguia sesmarias, pois já se iniciara a distribuição das terras. Cento e onze povoadores se encontram representados nos catorze livros das Datas.” (LEAL, 1993, p. 99)

             O povoamento do Alto Acaraú dá-se a partir do século XVIII, com a concessão da Sesmaria nº 39 outorgada pelo Capitão Mor Manoel Francês, em 17 de julho de 1722 e seus representantes são oriundos do Baixo São Francisco, da região de Penedo, Alagoas. Esta sesmaria tinha uma extensão de 24 léguas ou 144 km e é considerada como uma das maiores concessões de terras feitas na Província do Ceará.

             Para estas terras da sesmaria vieram somente três filhos do português Antônio de Souza Carvalhedo casado com Nazária Ferreira Chaves. O sesmeiro Capitão Luiz Vieira de Sousa (1º) era sobrinho de sua mulher Joana Paula Vieira Mimosa que são os fundadores da fazenda Ipu e lá chegaram por volta de 1727. Assim se deu o povoamento de Ipu, durante o primeiro quinquênio do século XVIII. Deste período a Academia conta com uma Patrona que foi exatamente a fundadora do povoado que daria origem à cidade de Ipu, Dona Joana de Paula Vieira Mimosa, perfazendo 2,5% dos Patronos.

             O período seguinte coincide com o período do Segundo Reinado do Império Brasileiro, de 1840 até a proclamação da república, em 1889, neste ínterim nasceram  dez dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, sendo o primeiro nascido em 1856 e o último em 1888. Estes patronos representam 25% do sodalício.

             Estas crianças e jovens foram educados absorvendo valores os mais diversos apregoados pela monarquia reinante, assim como aspirações de valores maiores tais como a libertação dos escravos e por fim a mudança no regime político que culminou com o primeiro golpe militar vivido pela história brasileira, a queda da monarquia constitucional. Lembrando-se dos valores atinentes a este período da história, cita-se o Patrono Monsenhor Gonçalo de Oliveira Lima, que representa o ideal de formação em todas as famílias brasileiras do período, um filho padre e neste caso virtuoso. Valores estes são patentes em seus nove contemporâneos que vão desde a figura de um dos primeiros empreendedores brasileiros, na pessoa de Delmiro Gouveia ao farmacêutico alquimista Thomaz de Aquino Corrêa ou ao político que chegou ao primeiro escalão do governo estadual, Abílio Martins.

             O terceiro período que se elegeu para abordar a temporalidade dos Patronos coincide com o período da história do Brasil chamado de República Velha, que vai de 1889, queda do Império até a revolução de 1930. Verifica-se aqui o maior número de Patronos, em um total de 26 nascidos neste período. Fato de fácil explicação pelo aumento da população, assim como as melhorias e facilidades nas condições de estudos e evolução, sem esquecer as questões de ordem econômicas que culminaram com a revolução de trinta. É deste período que se tem 65% dos Patronos da Academia.

             Dentre eles, por ordem de ocupação das cadeiras o cronista estudado na literatura brasileira, Milton Dias; o Patrono Archimedes Memória, que integrou a equipe que concebeu e construiu o Cristo Redentor do Rio de Janeiro, para citar somente uma de suas obras mais relevantes; Dona Maria Assis, educadora que inseminou princípios éticos e cristãos a gerações de crianças ipuenses; sem falar na arte de Ernestina da Natividade Magalhães ou de José Cecílio do Vale ou ainda de Maria Valderez Soares de Paiva, que formaram gerações e incutiram o belo durante décadas.

       Por fim, o quarto e último período da temporalidade dos Patronos e aquele que coincide com a chamada República Nova, que se inicia a partir de 1930. Deste período, a Academia conta com dois ou três Patronos nascidos. Dois com certeza e um deles por falta do dado na biografia. Buscou-se conseguir tal informação, mas não foi possível. Assim tem-se 5,2% dos Patronos nascidos neste período. Este percentual poderá ser de 7,5% caso o Patrono, Manoel Bessa Guimarães tenha nascido a partir de 1930.

 Os Patronos deste período destacaram-se, sobretudo na área da educação sendo professores, um deles, Francisco Edilberto Uchoa Lopes, fundador da Faculdade de Medicina Veterinária do Estado do Maranhão e o outro, o Cônego Francisco José Aragão e Silva, professor da Universidade do Vale do Acaraú, além de diretor de várias escolas na cidade de Santana do Acarau, Ceará,  notando-se a questão da fé e da formação religiosa ainda presente nos princípios das famílias ipuenses.

 Primeiro Período

Segundo Período
Terceiro Período
Quarto Período
Século XVIII
2º Reinado – 1840 a 1889
República Velha – 1889 a 1930
República Nova – a partir de 1930
2,5%
25%
65%
7,5%
Figura 2 - PERÍODOS DE NASCIMENTOS DOS PATRONOS

Fonte: Autor (2012)

 E quantos anos viveram estes Patronos? A temporalidade está expressa na figura abaixo:

 Figura 3 – O gráfico ressalta a idade dos Patronos ao Morrerem

Fonte: adaptado de Mourão (2012)

       Encontrou-se que o mais jovem ao morrer tinha 37 anos sendo o Patrono da Cadeira nº 18, José Itamar Mourão, ipuense que lutou na II Guerra Mundial e, posteriormente ao dar baixa da carreira militar tornou-se professor, escritor e poeta.  Os mais idosos, em número de dois, morreram aos 96 anos, tratam-se de João Anastácio Martins, popularmente conhecido como João Chiquinha, Patrono da Cadeira nº 15, comerciante e posteriormente funcionário público tendo exercido a função de secretario do Prefeito por longos anos, ocasião em que iniciou um trabalho de resgate da história de Ipu. O outro Patrono a morrer aos 96 anos de idade, da Cadeira nº 27, José Cecílio do Vale, era musicista, poeta e compositor.

       A idade média de vida dos patronos foi de 66 anos e cinco meses. Considerando-se que a longevidade do brasileiro somente se eleva no século XX, encontra-se uma idade média de vida compatível as estatísticas do Instituto Brasileiro de Estatística, que divulga, em 2003, que a expectativa de vida do brasileiro chegou a 71,3 anos. Levando-se em consideração que a Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes foi instalada em janeiro de 2006 o ano mais próximo de morte de Patronos verificou-se em 2004, ocasião em que morreram dois Patronos, um aos 66 anos, o Cônego Francisco José Aragão e Silva, Patrono da Cadeira Nº 34, morte causada a partir de uma queda com forte pancada na cabeça sendo necessária intervenção cirúrgica, portanto morte não natural e o outro Patrono, da Cadeira nº 23, Francisco das Chagas Torres, morto aos 89 anos, porém não se sabe a causa. Mas fato é que este superou a expectativa de vida do brasileiro apontada pelo IBGE.

      Aos 81 anos morreram 20% dos Patronos, sendo esta idade a do maior número de mortes entre eles. Do universo pesquisado encontrou-se 19 idades diferentes para a morte dos Patronos, onde oito idades se repetiram e onze verificaram-se somente uma vez. Os Patronos que morreram com a mesma idade viveram 64, 71 e 77 anos, representando estas idades um percentual de 8,8% cada uma delas.

 5)      PROFISSÕES: LETRAS, CIÊNCIAS, ARTES E ESPIRITUALIDADE

 No atinente às profissões dos Patronos, foram elencadas, a partir do “Livro dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes”, dezoito profissões em um universo de quarenta patronos.

             As profissões acompanham os valores históricos de cada uma das épocas. A decana dos Patronos, Joana de Paula Vieira Mimosa enquadra-se na profissão que até recentemente chamava-se de agropecuarista. Na verdade os valores da Europa da Idade Média são reproduzidos no Brasil desde sua colonização até o século XIX, quando o domínio das terras traduzia o poderio econômico.

             Convém lembrar que a Coroa Portuguesa ao conceder as sesmarias objetivava a colonização e posse da terra, evitando assim a invasão por parte de inimigos da coroa. Esse processo perdurou enquanto modelo econômico e chegou mesmo até o século XX, onde o proprietário, senhor da terra, explorava-a a partir da prática dos chamados “moradores”, que eram efetivamente aqueles que produziam e esta produção dava-se através da meação, inclusive relativamente ao pastoreio, sendo as crias de gado, caprinos e ovinos divididos pela chamada meação. Este modelo era comum ao tempo da colonização.

             A partir do século XIX, a economia começa a mudar lentamente, posto que a revolução industrial ainda não chegara ao Brasil. O estudo passa a ser elemento da elite que tirava sua fortuna ainda da produção da terra. As famílias abastardas, mandavam seus filhos para os estudos avançados, inicialmente o estudo do Direito e posteriormente da Medicina e Farmácia. As primeiras faculdades instaladas no Brasil foram às faculdades de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo e a de Olinda, em Pernambuco. Posteriormente as faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e de Salvador.

             Ressalte-se que o Brasil foi o último pais da América latina a instalar os cursos superiores e isso só se verificou durante o Segundo Reinado do Império. Desta sorte, as famílias abastardas mandavam seus filhos aos centros avançados para realizarem os estudos superiores. É interessante lembrar ainda, que a Igreja até o Império ligada ao estado, foi a única instituição que forneceu educação formal no nível superior, disseminando-se os Seminários a partir da primeira metade do século XIX.

             Assim, encontram-se as seguintes profissões entre os Patronos:

 Figura 4 - Profissões dos Patronos

Fonte: adaptado de Mourão (2012)

             Depreende-se das profissões acima aquelas ligadas à área jurídica e à área médica e de farmácia características do século XIX. Os educadores, que aparecem com um percentual de 12,5% são, em sua maioria, mulheres, que não tinham a regalia de sair para estudar fora no século XIX e primeira metade do século XX. As mulheres eram educadas para o casamento e como principal profissão sobressaia-se, efetivamente, o magistério.

             Fato curioso é que os escritores, musicistas, teatrólogos eram praticamente autodidatas, considerando-se que as oportunidades dos estudos, principalmente na área musical eram escassas ou inexistentes naquelas paragens do Ceará durante aqueles séculos.

             Relevante destacar a profissão de dois patronos, o sacerdócio, sendo um deles  efetivamente dedicado aos afazeres da Igreja e o outro, mais contemporâneo tendo atuado também como professor e educador, profissionalmente. Marcante a presença de um Patrono totalmente dedicado à profissão de sacristão, o que denota a fé fervorosa do povo ipuense.

             Dois Patronos também merecem destaque em suas profissões pois efetivamente foram comerciantes, mas aqui aparecem como empreendedores pela  relevância de seus feitos na área do empreendedorismo, um no concernente à proliferação da energia elétrica no Brasil o outro na inovação na maneira de vender produtos os mais diversificados chegando a ser o maior em sua área não deixando nada a desejar para o comércio da então capital federal, Rio de Janeiro, aos grandes magazines de Paris, Nova Iorque ou Buenos Aires.

             Dado interessante que aparece na figura é político como profissão, sabe-se que a atividade política não se constitui em profissão, entretanto, quis-se ressaltar no presente estudo a atuação dos ipuenses e/ou patronos na área política do Estado do Ceará e para isso resolveu-se elencar os políticos como profissão tão somente para mostrar a articulação destes homens na busca de benefícios para sua terra. Eles representam 10% do universo considerado, um percentual elevado dada a polaridade profissional apresentada. É relevante frisar que em números absolutos eles representam quatro integrantes e um deles tinha como profissão o jornalismo, dois eram agropecuaristas e um promotor de justiça. Este dado alteraria toda a análise quantitativa apresentada na figura acima, mas, repete-se, o objetivo para esta pesquisa foi o de mostrar a atuação dos Patronos, lembrando que um destes políticos ocupou pasta de secretaria no governo do estado, o mais alto posto alcançado na política.

            Sobressai-se, no entanto, as atividades de escritores e educadores, sendo um percentual de 15 e 12,5%, respectivamente que se somando atinge-se o total de 27,5%. Este dado denota o espírito da entidade, que cultua as letras, a ciência e as artes, bem representa por um percentual de 12,5%, somando-se as atividades de arquiteto, musicistas e treatrólogo.

 6)      CONCLUSÃO

 Traçar o perfil dos Patronos é tarefa dificultosa pelo fato da escassa existência de informação e de dados destes personagens ilustres. Com a criação da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, é de se esperar que esta lacuna, com o tempo, venha a ser preenchida, pelo fato de contar-se com quarenta acadêmicos dispostos a pesquisarem e encontrarem dados inéditos destes ipuenses. Certamente, a tarefa não é tão simples quanto aparenta, diante da longínqua existência de boa parcela deles com a contemporaneidade, pois 92,5 % dos Patronos nasceram antes de 1930. No entanto, o desafio consiste nesta tarefa o regate da história.

 Pela análise dos dados acima apresentados, observa-se que o sodalício teve o cuidado de eleger Patronos nascidos em quatro períodos da história do Brasil, indo da colonização até à contemporaneidade. Tal fato realça e confirma a presença das letras, ciência e artes na cidade, comprovado pelos dados biográficos apresentados na obra estudada.

 Outro fato relevante e que caracteriza a figura do Patrono foram às contribuições que estes deram e deixaram para a “terra de Iracema” em suas mais variadas áreas de atuação, abrangendo todos os objetivos do sodalício. Nestas contribuições destacam-se, sobretudo, as contribuições literárias contando a Academia com um escritor de renome nacional.

 Relevante destacar dois fatos sobre a vida dos Patronos, um deles é a naturalidade, que conta com 80% deles nascidos em Ipu e os demais em outras cidades do estado do Ceará. Aqueles não nascidos em Ipu residiram na cidade e contribuíram sobremaneira com a sociedade ipuense nas diversas áreas de abrangência da Academia.

 O ponto mais relevante ao se estudar a biografia destes ipuenses é verificar que o lema da Acadêmica foi vivido por todos ou por quase todos, (Ética, Respeito, Dignidade). Mormente os princípios de educação cultuados pelas famílias ipuenses, é fato que a igreja católica impingiu estes princípios ao longo de sua atuação no Brasil. O fato de ser educado em uma comunidade com poucos mil habitantes propiciava a observância destes princípios, o que é perceptível ao realizar-se a leitura das biografias.

 Convém ressaltar que o próprio prefácio do livro indica melhorias em obras futuras e destaca-se como falha nesta publicação o fato de algumas biografias terem sido apresentadas em estilo de curriculum vitae, o que indica falta de elementos para análise qualitativa do presente estudo sendo fundamental que se busquem informações da personalidade dos biografados para um entendimento dos mesmos no contexto em que viveram.  Destacam-se 19 (dezenove) biografias com textos considerados bons e muito bons, sobressaindo-se, num nível de contextualização excelente, a biografia da Patrona da Cadeira nº 8, Maria da Conceição Assis.

 Sugere-se, portanto, futuras pesquisas por parte dos Acadêmicos no sentido de sanearem-se estas lacunas no que pertine à biografia destes agraciados. O trabalho de investigação é lento e demorado, mas eminentemente indispensável para a precisão dos objetivos do estudo proposto.

 Os estudos encetados pela Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, encontram-se ainda em fase embrionária, mas muito ainda há de ser feito para o resgate da história ipuense e o labor acadêmico é perene, basta lembrar-se que por tradição a condição de Acadêmico é perpetua, acaba-se, portanto, a vida terrena do Acadêmico, mas não se acaba a investigação, que deve ser continuada pelo confrade ou confreira que o sucederá. Nesta perspectiva o presente artigo surge como uma instigação a todos para continuarem as investigações de cada um dos patronos. Este labor não esta finito, esta tão somente em seu início.

 7)      REFERÊNCIAS:

 1)      ENCICLOPÉDIA ITAU CULTURAL: artes visuales. In – www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/E. Consultada em 27/02/2012

2)      FALCÃO, Marlio Fábio Pelosi. Dicionário Toponímico, Histórico e Geográfico do Nordeste. Fortaleza: Artlaser Editora e Gráfica, 2005.

3)      LEAL, Vinícios Barros. A Colonização Portuguesa no Ceará. Fortaleza: UFC/Casa José de Alencar, 1993.

4)      MOURÃO, Sebastião Valdemir et al (Orgs.). Livro dos Patronos da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes. Fortaleza: Premius, 2012.

5)      NÁUFEL, José. Novo Dicionário Jurídico Brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Beta, 1996.

6)      SILVA, José Solon Sales e. Discurso de Posse na Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, em nome dos Neo-Acadêmcios, proferido no Auditório do Patronato Souza Carvalho, em Ipu, em 19 de janeiro de 2007. In – www.ipu-ce.com/gerenciador.php?idcategoria=6&idsu. Consultado em 27/02/2012.

7)      www.academiaipuense.com. Consultado em 29/02/2012.

8)      www.ibge.gov.br. Consultado em 29/02/2012.

9)      www.sobralportaldenoticias.com. Consultado em 28/02/2012.

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