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João Martins de Souza Torres

 

OS SEIS MELHORES MÉDICOS DA VIDA.

 Para melhor compreensão do que tratarei neste artigo dirigido a não médicos, convém registrar que sou médico, atuando na área da Cardiologia, especialmente a cirúrgica.

Estudei Medicina na Universidade Federal do Ceará (1964-1969), em Fortaleza.  Desde 1970 venho exercendo com muito gosto e dedicação a profissão médica, como também o magistério, pois sou Professor de Cirurgia (UFC). São 42 anos de atividade, praticamente com pouquíssimos dias de férias e com muitos cursos e congressos para o contínuo estudo e aprendizado. Somando-se os seis anos de Faculdade (graduação), tenho então 48 anos de vivência médica, quase meio século.

Baseado na minha vida profissional, em leituras médicas especializadas e leigas, nas experiências da cultura popular e também nas vivências de professores e colegas médicos de grande tirocínio, resolvi escrever um artigo intitulado: OS SEIS MELHORES MÉDICOS DA VIDA.

É muito recomendável, em semelhantes empreendimentos de base pedagógica, buscar a origem das palavras. Assim fazendo, a compreensão fica muito facilitada e acessível. O termo MÉDICO (do latim, medicus) tanto significa o profissional que exerce a Medicina, como também quer dizer remédio, droga, mezinha (remédio caseiro). Desde os tempos de estudante na Faculdade, já ouvia dos mestres que o verdadeiro médico vocacionado já se torna um remédio para o paciente.

Seu modo de agir  constitui uma preciosa terapêutica, fazendo parte importante da cura. É o que se chama a “relação médico-paciente”. Esta jamais deve ser subestimada e descurada por mais avançados que sejam os métodos diagnósticos e terapêuticos oferecidos pela alta tecnologia científica.

Incidir em tal equívoco se constitui em lastimável prejuízo para o paciente e também para a satisfação pessoal do médico. Este, o médico, deve lutar com todas as armas pelo  paciente (= o sofredor).

Como se recomenda muito, o profissional da Medicina deve ser o médico humano (melhor entendido: o médico: o mano, o médico irmão do paciente).

Remédio, como vimos, é um outro significado da palavra médico. Remédio tem como sinônimo o termo fármaco, oriundo  do grego phármakon, que significa remédio ou também veneno. Daí o dito popular muito verdadeiro: “tudo demais é veneno”, especialmente o remédio, acrescento eu.

Bem antigamente a doença era tida como um castigo dos deuses, sendo a cura uma atribuição divina. À luz da velha História, os médicos, como também todos os profissionais da Saúde, devem agir como instrumentos divinos, buscando a perfeição nos seus intentos.

E o que dizer da Saúde?!

Saúde, do latim SALUS (salutis), significa primordialmente salvação, bem-estar, cura. Em todas as culturas do mundo, como também nas religiões, a Saúde se constitui num grande objetivo. O povo, na sua mais avançada e espontânea simplicidade, quando quer manifestar sua gratidão e/ou forte desejo a alguém, assim se expressa: “Deus te dê saúde e felicidade”. Já a OMS (Organização Mundial da Saúde) usa, sinteticamente, a seguinte definição: “Saúde é o completo bem-estar bio-psico-social”. Os dois conceitos se igualam. Ter saúde é uma felicidade. Contudo eu me atrevo a dizer e demonstrar que, embora dificilmente, é possível ser feliz sem ter saúde.

Para ter saúde é preciso contar também com os médicos, além de um complexo sistema de recursos humanos, educacionais, sociais, sanitários e técnico-científicos.

Quais são os seis melhores médicos (remédios) da vida, anunciados no título?

 1º - DOUTOR SONO

  Este doutor é o grande responsável pela restauração das nossas energias. Caracteriza-se por um estado de repouso normal e periódico, onde ocorre a suspensão temporária da atividade perceptiva e motora voluntária. Durante tal período nosso organismo produz substâncias que promovem um equilíbrio biopsíquico mais consistente, aumentando, inclusive, as defesas orgânicas. É o caso das células K que destroem substâncias nocivas ao organismo. O quanto dormir? O suficiente para cada indivíduo, ao despertar, se sentir apto às atividades habituais; é, portanto, variável de pessoa para pessoa. Pode-se, estatisticamente, estabelecer uma variação saudável de seis a oito horas por noite. A noite foi feita para dormir, diz a observação popular constatada pela ciência. Os profissionais da noite têm um sono diurno menos eficaz, segundo as pesquisas. Quem não dorme bem por insônia e outras impossibilidades se desgasta muito, gerando cansaço, debilidade e angústia, o que determina outros distúrbios, inclusive a agressividade, a percepção prejudicada e alterações comportamentais e orgânicas, como doença cardiovascular. Até a cidade que não dorme é doente e mais agressiva. Que bom o sono tranquilo da aldeia!

 2º - DOUTOR SORRISO

 Em última e primeira análise, o sorriso traduz muita coisa: equilíbrio emocional, paz, tranquilidade. Não é bem o caso do riso que pode simular outros estados de espírito nem sempre saudáveis. Abraão Lincoln (1809-1865), Presidente dos Estados Unidos (1860-1865), a respeito do tema disse: “Com os terríveis fardos que me sobrecarregam dia e noite, se não soubesse sorrir, morreria”. Pesquisas recentes feitas no Japão demonstraram que o grupo de pacientes diabéticos que fazia refeições, em ambientes animados por humoristas, tinha um notável melhor rendimento em relação aos níveis de açúcar no sangue (glicemia) que o outro idêntico grupo-controle de pacientes diabéticos sem o mesmo recurso humorístico.

Daí o dito popular: “Rir é o melhor remédio”. Quem se sente bem tem um organismo que elabora substâncias benéficas como as endorfinas que produzem a sensação de calma e bem-estar. Isto, antigamente observado, é hoje constatado cientificamente. Passemos ao próximo médico (remédio).

 3º - DOUTORA CANELA

 “A Saúde está nas canelas”, assim já diziam os antigos. Todas as orientações cientificamente fundamentadas para a prevenção e/ou tratamento das doenças cardiovasculares recomendam atividades físicas de, aproximadamente, 40 a 60 minutos diários, preferentemente sem interrupção, pelo menos cinco vezes por semana. Além da redução de 20 a 25 % de doenças cardiovasculares o mesmo índice redutor ocorre em relação a certos tipos de cânceres.

A atividade física, por comprovação experimental, ajuda em tudo: controle do peso, pressão arterial e bem-estar biopsíquico. Produção de substâncias químicas que melhoram o humor, promovem um bom sono e, consequentemente, uma leveza de espírito.

 4º - DOUTORA DIETA

 Esta doutora merece a maior atenção e máximo respeito. Antigamente se dizia no Velho Mundo: “Você é o que você come”. Entre nós é frequente o dito: “Morrer pela boca”. Atualmente, especialmente no Ocidente, a alimentação dos ricos (ironicamente) e  dos pobres (lamentavelmente)   está provocando, inclusive entre as crianças, uma deplorável situação cognominada obesidade, pleonasticamente, mórbida. Padre Antônio Vieira, não o dos “Sermões” (jesuíta português, século XVII), e, sim, o do “ O jumento nosso irmão” (cearense, falecido, século XX), em um dos seus 18 livros, “Cem cortes, sem recortes”, dizia com seu grande senso de humor que “ o segredo da mulher é muito banho e pouco banha”.  A meu ver, vale para ambos os sexos e idades.

O povo francês, bem detalhado no livro “A não dieta dos franceses”, demonstrou que é possível comer de tudo, desde que não se coma tudo. Portanto, com moderação e orientação dietética, é bem possível e desejável ter uma alimentação saudável e prazerosa. Em relação aos outros países semelhantes socioeconomicamente, como Alemanha, Bélgica, Áustria, Suíça e Holanda, a doença cardiovascular incide, aproximadamente, 25% menos na França. O povo come bem, bebe moderadamente vinho às refeições e anda muito. Em linhas gerais, devemos dar prioridade às frutas e verduras, pouca massa e gorduras.

Agora é a vez do próximo componente médico. Trata-se de uma doutora.

 5º - DOUTORA REFLEXÃO

 De maneira geral, o brasileiro faz, na sua grande maioria, quatro refeições por dia: café, almoço, jantar e uma merenda. Em segundo lugar: cinco ao dia, acrescentando mais uma merenda e, por último, apenas café, almoço e jantar. Só duas refeições são uma raridade. Atualmente, o mais recomendável são muitas refeições em pequena quantidade.

Se nós tratamos tão frequentemente e com aparente zelo o corpo (estômago), devemos buscar alimentar também o nosso espírito ou, conforme suas convicções, a mente, a cabeça, a alma, a psique.

Pelo menos uma vez ao dia devemos fazer uma reflexão sobre nossa vida interior, como estamos, como podemos nos harmonizar conosco próprios e com os outros, não só os próximos. Com muita probabilidade iremos constatar que nossa “situação” não é das piores. Isto nos dará ânimo para lutas futuras e diárias. Estas reflexões, ditas meditações, eram muito praticadas nos mosteiros, uma a duas vezes por dia. Trata-se verdadeiramente de um processo psicanalítico. É muito bom ter religiosidade, melhor ainda é alimentar a espiritualidade.  As leituras adequadas, a prática da solidariedade, o bom desempenho profissional, o respeito aos semelhantes e à Mãe Natureza, tudo isto se torna um eficaz instrumento para o nosso equilíbrio psicossomático. A grande meta é viver em paz: primeiro consigo próprio, depois na família e não por último em nossa comunidade. É necessário, como recomendam os antigos, manter uma mente sã num corpo são (“mens sana in corpore sano”).

Achei inquestionável, na minha lista, acrescentar o sexto médico que é o doutor paciente.

 6º - DOUTOR PACIENTE

 Na minha prática médica após operar os pacientes, corrigindo-lhes defeitos cardíacos, já no consultório costumo dizer a cada um: “Olhe, você tem uma equipe médica cuidando de você, conforme as especialidades. Quero enfatizar que todos os médicos são muito importantes, mas há um que é, fora de dúvida, o mais importante: este médico é você, meu caro paciente. Sem sua cooperação nada será de proveito e vai lhe custar caro em todos os sentidos!”. É indispensável o trabalho da equipe para se obter eficácia.

No caso destes cinco primeiros médicos (sono, sorriso, canela, dieta e reflexão) vale observar: eles não pertencem a planos de saúde e aos órgãos públicos, tampouco aceitam remuneração particular. Exigem coisa mais difícil: a cooperação do paciente. Hipócrates (360 a.C.) já dizia sabiamente: “para o paciente se curar é necessário ele querer ficar bom”.

Então, a cooperação é fundamental para o bom e profícuo desempenho dos seis melhores médicos da vida. Tudo depende do sexto doutor.

Vale a pena viver bem. É uma arte o saber viver. A vida é ciumenta e retaliadora.

Costumo dizer o que me parece verdade lídima: A vida só gosta de quem dela gosta.

 Paz e Bem!

 

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