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Cláudio César Magalhães Martins

Titular da Cadeira nº 11

 

LEONARDO MOTA E O IPU

 

Nome de uma das principais ruas de Fortaleza, Leonardo Mota tem uma especial vinculação com o Ipu.

Nascido em Pedra Branca em 10/05/1891, mudou-se muito cedo, juntamente com sua família, de sua terra natal. Foi professor, advogado, promotor de justiça, jornalista e historiador. Gostava de ser tratado como Leota. A convite de seu irmão, o Pe. Aureliano Mota, que ocupou o cargo de vigário de Ipu entre os anos de 1911 e 1916, foi morar na referida cidade, já como advogado e, posteriormente, como promotor de justiça. Lá, dirigiu o Instituto José de Alencar e casou-se com a ipuense Luisinha Araújo.

Um acontecimento marcante de sua passagem pelo Ipu foi a defesa que fez do Cel. João Martins de Jaçanã, que, já em idade provecta, envolveu-se numa briga, por questões de terra, com um sobrinho seu, bastante mais novo, tendo-o matado a faca. Em sua defesa, Leota mostrou ao júri que seu constituinte, em virtude de sua avançada idade, levava flagrante desvantagem na luta com um jovem de apenas 30 anos, que o havia desrespeitado gravemente, chamando-o de “corno velho sem-vergonha.” Foi absolvido.

Leota foi membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto Histórico do Ceará e era bastante requisitado para proferir palestras a estudiosos e folcloristas interessados. Era frequentador assíduo da Praça do Ferreira, em Fortaleza, onde declamava versos e contava histórias e anedotas. Foi amigo de Rachel de Queiroz que, ao saber de sua morte, em 02 de janeiro de 1948, escreveu um artigo, na revista O CRUZEIRO, do qual destaco o trecho abaixo:

“Vede como era forte a personalidade humana desse que foi embora -; à notícia de sua morte o que todos lamentam é o indivíduo, o velho amigo perdido; e só depois de o chorar como simples criatura nossa irmã, é que recordamos o brasileiro ilustre que ele foi, o mestre indisputado do nosso folclore, e a importância da sua obra; e realizamos quão dura perda a morte desse homem enfermo, que durante anos engoliu amarguras e dores no fundo de sua rede, representa para a inteligência brasileira. Talvez poucos, talvez nenhum na sua especialidade, tenha contribuído mais para o aproveitamento e estudo do folclore nacional. Leonardo Mota era desses que acreditam em colher o fruto na árvore e não comprá-lo embalsamado em caixetas de papelão. Ia apanhar a cantiga na boca dos cantadores, sem intermediário de ninguém, entendendo-se com os poetas sertanejos de igual para igual, por eles respeitado e querido.”                      Entre as obras que publicou destacam-se “Cantadores” (1921), “Violeiros do Norte” (1925), “Sertão Alegre” (1928), “No Tempo de Lampião” (1930), “Prosa Vadia” (1932) e “Padaria Espiritual “ (1938). Postumamente, foi publicado o “Adagiário Brasileiro”, primeiramente pela Editora José Olympio, em 1980, e, depois, pelo Banco do Nordeste, em 1991.                                           

Não me consta que o Ipu tenha, até o presente, prestado uma homenagem a este vulto ilustre que, por alguns anos, viveu em suas plagas. Certamente, ainda haverá tempo de prestá-la. Se não, cabe à AILCA preencher esta lacuna, dedicando-lhe, no mínimo, uma sessão especial, pois ele encarnou, como ninguém, o espírito acadêmico de amor às letras e ao folclore nordestino.

 

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