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Pio Barbosa Neto (*)

A Academia Ipuense de Letras em destaque

Fundada em 14 de janeiro de 2006, a Academia Ipuense de Letra, Ciências e Artes, (AILCA), sob a presidência da professora Natália Viana, recepciou de maneira festiva, a presença do escritor Mailson Furtado, acadêmico correspondente da AILCA desde janeiro deste ano, vencedor do Prêmio Jabuti, com o Livro “À Cidade”. Na ocasião, vários autores lançaram suas obras, em comemoração ao 13º aniversário da (AILCA ).

O escritor Mailson Furtado, autor de “Passeio pelas ruas de mim”, e”, À Cidade” esteve no foco das homenagens. Na ocasião, tivemos o lançamento das obras: “Na porteira do curral ele e ela (Telma Lima); Pensamentos, análises e reflexões (Cláudio César Magalhães Martins); O trem e a cidade (Antonio Vitorino Farias Filho); Travessia (Juju Dias); Revista Acadêmica (Poesias e prosas para o Ipú – 170 anos) Organizadora: João Pereira Mourão, José Airton Pereira Soares, Sebastião Valdemir Mourão; Revista Acadêmica – Ipú na Ibiapaba; Poemas em sinfonia lírica (José Maria Bonfim) O cavaleiro da meia-noite (Lucas Ribeiro de Oliveira Ferreira).

Certamente, o ser humano tem uma peculiar função nos mundos conhecidos: ele dá significação às coisas e ele, pelo conhecimento, tematiza criticamente o próprio conhecimento. De certa forma, ele é o universo que fala o cosmos que se auto desvela e auto refere. Para desempenhar esse papel o ser humano apresenta várias facetas. Ele expressa a história mineral, vegetal e animal do cosmos, apresentando em sua constituição heranças e estruturas advindas dessas camadas da história do cosmos e da terra.

Ele traz em sua memória inconsciente partilhada as condutas animais, suas técnicas de sobrevivência, sua agressividade e ternura, suas garras e dentes e seus instintos acrescidos de toda a história humana, todas as experiências, medos dominações, soluções e criações que a temporalidade da espécie propiciou. Ele traz a entropia e a superação presentes em sua condição.

Frisar o orgulho de ser nordestino é reagir ao argumento que não aceita a exterioridade (negador do outro). Trata-se, desse modo, da tentativa de engendrar discurso a partir da libertação do outro, da afirmação da alteridade negada na totalidade.

“A arte de traduzir sentimentos, descrever ou recriar realidades distingue certa casta de pessoas. Alguns com maiores atributos, outros com menor porte inventivo, todos, porém, descobridores e fazedores de mundos, pequenos ou grandes, por afeição do destino ou maldição dos deuses. A seca, a negligência administrativa, o desemprego, as oscilações do clima e as inconstâncias todas da terra nordestina, levaram-nos à sublimação poética, à fantasia ficcional, ao delírio da invenção literária. Pelos versos, pelas crônicas e pelos romances enganamos a fome, o medo e a dor”. (Rejane Costa Barros)Palavras... Qual o efeito das palavras?
Acredito que as palavras não são apenas palavras. As palavras não têm preconceito, elas suportam tudo. Elas criam ideias, pensamentos, relatam histórias, imagens e conceitos.As palavras podem tudo... Elas confortam e preenchem, libertam os pensamentos. Imagino o quanto as palavras podem mudar o curso de nossas vidas ou de alguém que nos escuta.

Não á toa, que o Ceará traz em sua origem, nomes imortalizados, tais como Lucarocas, Juvenal Galeno, Raquel de Queiroz, Patativa do Assaré, Bráulio Bessa, Aldanásio Paiva, Chico Vaqueiro, dentre outros.

Na noite do dia 08 de novembro, o cearense Mailson Furtado Viana saiu do Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, como a grande surpresa da cerimônia de entrega do prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira. Além de vencer na categoria “Melhor livro de poesia” com a obra À Cidade, editada e publicada pelo próprio autor, esse dentista natural de Varjota, município localizado na região Noroeste do Ceará, arrebatou o grande prêmio da noite, o troféu “Livro do Ano”.

Mailson Furado é membro-fundador dos grupos: CIA teatral Criando Arte e Grupo Literário Pescaria. Autor das obras Sortimento, Conto a Conto, Versos Pingados e à cidade. A ideia de premiar a cada ano os autores, editores, ilustradores, livreiros e gráficos surgiu por volta de 1958, com Edgar Cavalheiro. Ele presidia a Câmara Brasileira do Livro (CBL) na época, mas a premiação só começou a acontecer no ano seguinte, quando Diaulas Riedel estava na presidência da CBL. Foi então escolhido a figura do jabuti para nomear o prêmio.
A primeira vez que o prêmio foi entregue foi no final de 1959, em uma solenidade simples, realizada no auditório da antiga sede da CBL, na Avenida Ipiranga, em São Paulo.

O diferencial do Prêmio Jabuti é que ele premia não só escritores, mas várias pessoas envolvidas com o universo da publicação de livros, valorizando todo o processo de produção.

A cidade de Varjota, no sertão do Ceará, não tem livrarias. Por isso, o poeta Mailson Furtado, de 27 anos, vai todo mês à cidade vizinha para comprar livros. Lá, encontrava sua obra mais recente na "última prateleira do último corredor, de um jeito que a gente precisa abaixar a cabeça que nem um anzol para conseguir enxergar o livro", como ele mesmo diz. Mas, quando Mailson voltar lá, não vai encontrar mais seu livro daquele jeito. Agora, ele está na vitrine.
Varjota surgiu como um povoado erguido em torno da capela de uma fazenda, em meados dos anos 1920, e existiu pela maior parte do tempo como uma vila e um distrito da vizinha Reriutaba. Mudou de local - e de nome - quando a construção de uma barragem inundou onde a cidade estava originalmente. Há 33 anos, emancipou-se e voltou a se chamar Varjota. Ao longo do livro, Mailson costura versos para formar um único "poema de fôlego", dividido em quatro partes, inspirado pelas ruas, pessoas e rotina da cidade. Pela história, de Varjota e a sua própria.
Esta foi a primeira vez em 60 anos do prêmio Jabuti que o melhor livro foi de um autor independente, como são chamados aqueles que publicam sua obra sem o apoio de uma editora. Mailson fez tudo praticamente sozinho. Escreveu à mão os versos de À cidade. Fez o desenho que estampa a capa. Editou, revisou e diagramou. E também vendeu no boca a boca os 300 exemplares pagos do próprio bolso.

"Espero ter aberto uma janela para o que se faz de diferente neste mercado, para estes autores que escrevem de forma independente e não conseguem ser publicados por editoras", diz o poeta cearense.

Seu livro a obra "À cidade" recebeu o principal prêmio do mercado editorial brasileiro, tendo superado os ganhadores das outras onze categorias do Jabuti a partir das quais foi eleito o grande vencedor. Seu nome agora figura lado a lado ao de ganhadores de edições passadas, como Ruben Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Luís Fernando Veríssimo, Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Marina Colasanti.
"À Cidade" é uma obra de poesia sobre a terra natal do autor, o pequeno município de Cariré, de 20 mil habitantes. Ele também venceu na categoria poesia.
À cidade é o terceiro livro de poesia de Mailson e seu quarto ao todo. Os anteriores - Sortimento (2012), Conto a Conto (2013) e Versos Pingados (2014) - também foram produções independentes.

"As pessoas perguntam por que eu escolhi fazer assim, mas eu não escolhi. Foi à única forma. Mandei meu livro para grandes editoras. Acho que uma me respondeu com um não. Outras sequer responderam, e acho isso ainda mais cruel", diz ele.

"Algumas editoras menores responderam sim, mas, quando você olha a proposta, vê que acaba pagando para ser publicado. Era melhor fazer por minha conta."
O escritor explica que, antes de começar a escrever seu livro mais recente, estava pesquisando sobre a origem de sua cidade, como sua sociedade foi sendo construída ao longo dos anos, e também sobre a genealogia de sua família. Vasculhou documentos e conversou com parentes em uma pesquisa a princípio de interesse puramente pessoal.

Ao mesmo tempo, leu A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna e, ao viajar pelo interior da Paraíba e de Pernambuco, viu na paisagem os mesmo locais que havia conhecido pelas páginas do livro.

"Fui tomado por um sentimento forte e bonito, como se já conhecesse aquele lugar sem nunca ter ido ali. Voltando pra casa, pensei que seria legal se alguém pudesse ter a mesma sensação ao ler alguma obra de minha região", diz Mailson.
O poeta conta ter escrito o livro em 20 dias, em uma "experiência visceral". "Depois daquele primeiro estalo, fiz um rascunho de poema, e ele foi me pedindo mais coisas, mais versos, foi me sugando, e só consegui sossegar quando concluí a ideia", diz ele.

"Foi uma poesia vomitada. Só me senti bem quando coloquei o livro para fora. Eu estava dentro da obra, e a obra estava dentro de mim."

O resultado foi o livro lançado em abril do ano passado, uma homenagem ao município de pouco mais de 17 mil habitantes em plena caatinga onde o poeta nasceu e se criou, uma "cidade inventada", em suas próprias palavras.
Frisar o orgulho de ser nordestino é reagir ao argumento que não aceita a exterioridade (negador do outro). Trata-se, desse modo, da tentativa de engendrar discurso a partir da libertação do outro, da afirmação da alteridade negada na totalidade.

Sinto enorme orgulho de ser nordestino. Esse orgulho de ser nordestino não pode ser entendido como contrariedade ao orgulho de ser brasileiro, vez que sinto imenso orgulho de ser brasileiro. Pelo contrário, ele se afigura como afirmação da brasilidade nordestina que o discriminador pretende rejeitar.
Nunca é demais lembrar o que diz Victor Hugo: “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.”.

(*) Professor, escritor, poeta, roteirista.

(Textos Complementares – O poder das palavras – PBN/ – Orgulho de ser Nordestino – PBN/ O Poeta do Sertão e a poesia que triunfa ) 
(Fontes: g1. globo.com/ /www.bbc.com/ http://mapa.cultura.ce.gov.br/)

 

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