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João Martins de Souza Torres

Titular da Cadeira nº 22

 

A PERFEIÇÃO É IMPERFEITA                                                                                      

 

Provocativo. É o mínimo que se pode atribuir ao título do texto. Contraditório, incoerente? Aparentemente, sim. Em essência, não. É o que tentarei explicar.

Por ser médico há 49 anos, e professor de Cirurgia da Universidade Federal do Ceará (UFC), tenho tido nestas duas fascinantes profissões o grande privilégio de vivenciar, convivendo, o comportamento do ser humano em todas as suas etapas da vida. Dos sonhos à realidade. Esta, muitas vezes, dura, cruel. Os sonhos, na maioria, frustrados. Por isto, temas semelhantes ao agora analisados têm sido para mim um fascínio e motivo de estudo.

Em qualquer estudo analítico é fundamental buscar definir o conceito daquilo que se discute.

Inicio pelo aspecto linguístico, etimológico da palavra PERFEIÇÃO. Tem origem latina: perfectione(m).

Perfeição é, em resumo, o conjunto de todas as qualidades ditas excelentes, com ausência de quaisquer defeitos. Infalível. Impecável. Sendo assim, tem razão a sabedoria popular: “Perfeito, só Deus”.

No seu conteúdo etimológico, caberia dizer embriológico, a palavra PERFEIÇÃO (per-feito) tem dois componentes. O prefixo PER, em Latim, tem pelo menos três significados. PER traduz antecedência. Ex.: previsão, preocupação. Um segundo significado é de atravessar. Ex.: perfurar. Menos conhecido é o terceiro. PER também quer dizer: em abundância, em demasia.

É neste contexto “em demasia” que se pode argumentar que “perfeito” é aquilo feito de mais. Se é feito demasia, então há exagero no fazer. Conclui-se ser falho.

Portanto, o perfeito (perfeição) tem o defeito do excesso. Não está na medida. SATIS, em Latim, significa bastante. Ex.: satisfeito, que, literalmente, feito o bastante, nem mais e nem menos, no ponto, na medida.

O segundo aspecto desta reflexão é, sem dúvida, o mais importante por ser educativo em relação ao comportamento do ser humano em seu íntimo e também, e essencialmente, em sua vida de relação na qualidade de sua inegável, inevitável e necessária vivência social.

Percebo pelo menos no Ocidente, com forte influência judaico-cristã, cultural e religiosa, um alto preço cobrado àqueles que buscam ansiosamente galgar o estágio da ambicionada perfeição. Não basta ser bom, tem que ser o melhor. Fere-se, frontalmente, o sábio adágio popular: “O bom é inimigo do ótimo”. De maneira mais erudita, é o mesmo que “Virtus in medio” (“A virtude está no meio”). A ponderação. O equilíbrio.

Todos sabemos da clássica peça “Branca de Neve” sobre a busca gananciosa e desenfreada do belo. “Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais bonito do que eu?”

Cabe-me parafrasear: “Altar meu, altar meu, existe alguém mais santo do que eu?”

Nossa educação, nossa cultura, tudo nos incentiva, desde a infância, a ficarmos escravos da “síndrome do primeiro lugar”. E o pior: a qualquer preço. Exemplo recente, no campeonato mundial de futebol da Rússia, em 2018, a clássica Itália ficou de fora. A Croácia, de grande valor, surpreendeu, tornando-se, valorosa e honradamente, vice-campeã. Perdeu para a poderosa França. Chorou, não de alegria, por ganhar a prata, mas inconformada por não ter ganho o ouro.

Aprendamos com a Mestra Vida. Busquemos a satisfação, não nos imolemos pela perfeição. Tenhamos mais sumo e menos consumo. Busquemos o caminho da humildade e da simplicidade. Assim, podemos ter um sentimento de bem-estar, harmonia, ou melhor, felicidade.

Vale terminar com as palavras do grande jesuíta, o dos Sermões, Padre Antônio Vieira: “Querei o que podeis e sereis onipotentes”.

(*) Membro titular da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes (AILCA),

Membro titular da Academia Cearense de Medicina,

Membro titular da Academia Cearense de Médicos Escritores (ACMES),

Professor de Cirurgia Cardiovascular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará,

Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular.

 

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