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Raimundo Alves de Araújo

Titular da Cadeira nº 32

 

COMUNIDADE IGUALITÁRIA DO CALDEIRÃO: a religião popular como ideologia política

 

            Este artigo pretende apresentar aos leitores o Beato José Lourenço e a Comunidade Igualitária do Caldeirão, que existiu nos sertões do Cariri cearense entre os anos de 1926 e 1937 e que fora extinta pela polícia militar a mando do governador Menezes Pimentel. Mas antes de qualquer coisa, eu gostaria de discutir a sociedade, os costumes e a fé da população sertaneja onde o Beato e a sua comunidade vieram a existir, pois, como o sabemos, os indivíduos e as suas sociedades “não existiram no vazio”, e só “fazem sentido” quando observados numa visão panorâmica, dentro do fluxo maior de sua macrorregião e de sua macro realidade. O Beato e os seus seguidores eram “filhos de um espaço” (a região do Cariri e adjacências) e de um tempo (os interiores do nordeste do Brasil do final do século XIX e início do século XX). E somente observando-os dentro desta perspectiva seria possível entendermos a ambos.

Vamos falar brevemente do “homem” José Lourenço

O trabalhador negro e analfabeto José Lourenço Gomes da Silva, que ficaria conhecido na história do nordeste do Brasil como Beato José Lourenço, era neto de escravos alforriados, e pelo que costa, teria nascido no dia 22 de janeiro de 1872 na vila de Pilões de Dentro, na Paraíba, e morreu em 12 de fevereiro de 1846, na cidade de Exu Pernambuco, aos 74 anos de idade. Para o seu povo, ele era um “homem santo”, para a polícia um “criminoso”, para a Igreja um “fanatizador das massas ignorantes” e para o governo Vargas “um marxista prático”. No dia 12 de maio de 1937 “Duzentos militares, de armas em punho, atacaram os [...] habitantes do caldeirão”,[2] com metralhadoras, rifles importados e até mesmo com três aviões. Dizimada a população, incendiado as centenas de casebres humildes, com um saldo oficial de mais de 400 mortos e, assentada a poeira e a fumaça, passados oitenta anos desde crime horroroso, fica a pergunta: por que tamanha violência e tamanha arbitrariedade? É o que tentarei responder aqui. Mas primeiramente irei apresentar ao leitor um levantamento acerca dos costumes, da cultura e da sociedade que pariram o Beato José Loureço e a sua famigerada Comunidade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, no Crato cearense entre os anos de 1926 e 1937.

A terra

A região do Cariri cearense, este verdadeiro celeiro de beatos, de santos populares, de cangaceiros vingadores e de romeiros penitentes: Desde antes do “descobrimento do Brasil”, em 1500, a região do Cariri sempre foi um oásis natural e um “desaguadouro” das populações nativas e nômades que buscavam as selvas verdejantes e os córregos férteis das vazantes e olhos d’água da Chapada do Araripe.

Foto: https://viajenachapada.wordpress.com/2014/01/06

Quando os portugueses e os seus desentendes por aqui chegaram, trazendo a civilização, com as suas marmas de fogo e de ferro, com a gripe, o sarampo e o cristianismo, os povos nativos do Cariri, após dois séculos de resistência sangrenta, finalmente se deixaram catequizar pelas palavras consoladoras e conciliadoras da Igreja:

A mistura das raças

O brutal contato entre indígenas e colonos da região nordeste do Brasil aparece nesta fala do famoso catequista padre Antônio Vieira, que deixou registrado em suas anotações a seguinte fala:

...foi [esta] a parte do Brasil em que os índios experimentaram maiores violências, e padeceram mais extraordinários rigores dos portugueses, cativando-os, não só contra as leis reais [que já proibiam a escravidão do indígena], mas contra todo o direito natural, e das gentes, e servindo-se deles em trabalhos excessivos, com que os matavam e consumiam, ainda mais que com as guerras. [3]

            O contato, o enfretamento e a rendição dos povos nativos ao julgo dos colonizadores (algo essencial para formar a sociedade mestiça do Cariri cearense) aparece claramente nesta citação, legada a nós pelo naturalista Francisco Freire Alemão, na segunda metade do século XIX:

[Os Alencar] Vieram de Portugal, se bem me lembro, três irmãos: uma senhora, que se casou, creio que para as partes do Jardim (no Ceará), e dois irmãos destes, Leonel de Alencar Rego, seu bisavô, e avô do senador Alencar, foi quem veio estabelecer-se neste lugar, conquistando terras dos índios Caracuis e Ansus. Esta luta com índios durou até seus pais, em cujo tempo ainda se lançaram bandeiras contra os pobres índios, e sendo ele menino ainda se lembra de ver o índio José Angelim com sua mulher, nus, entrarem pela sala e se lançarem embaixo da rede onde estava seu pai, pedindo-lhe perdão e submetendo-se. [4]

Assim nascia o Cariri, assim como a sua sociedade, o seu Homem típico: um mestiço entre o índio aculturado, o colono prepotente e o negro subjugado. Esta relação social somada a ação catequizadora da Igreja católica - por quatrocentos anos - geraria uma cultura peculiar, a cultura do catolicismo popular nordestino. Cultura esta que geraria ao longo do tempo homens e mulheres santos como Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina, Padre Cícero, beata Maria de Araújo, beato José Lourenço e muitos outros.

Mas voltemos aos índios e ao processo de catequização, para não perdermos o fio da meada: arrastados do “comunismo primitivo” ao capitalismo escravocrata, os povos mestiços do Cariri e de suas regiões do entorno se converteram em massas humanas mal sintonizadas com o nascente Estado nacional brasileiro e com os seus agentes e instituições. Como as fontes do período evidenciam, odiados e temidos pela Igreja, pelas elites fundiárias e pelos agentes governamentais, os caboclos, os negros alforriados e os indígenas aculturados eram enxergados como uma massa humana perigosa, uma “Raça inferior, mais vizinha da animalidade do que da humanidade”, ondea preguiça, a lascívia, a embriaguez e a retórica” prevaleciam, em contraponto à “superioridade natural” que era preconceituosamente apontada como característica dos descendentes dos povos europeus aqui assentados. [5]

Foto: http://racismoambiental.net.br/2015/11/10

            A “fabricação” do homem

É aqui que eu apontaria o papel desempenhado pela Igreja católica (enquanto braço “pedagógico” e doutrinário do Estado colonial português e brasileiro) no processo de fabricação do homem do Cariri, de sua sociedade - com suas hierarquias e privilégios – e de seus costumes espirituais peculiares. Na sua essência, o homem dos sertões do Cariri e adjacências e a sua fé escatológica são o “resíduo” da construção do Estado e da composição das instituições de governo pelos sertões do nordeste do Brasil.

Foto: Cariri Velho           http://cariri-velho.blogspot.com.br/2013/09

Estudemos agora mais minuciosamente o papel da igreja na fabricação do Homem do sertão e de sua sociedade: por mais de quatrocentos anos a Igreja, o Estado e as demais instituições do governo do sertão e os seus agentes promoveram o apagar das identidades dos povos nativos, dos colonos “pré-brasileiros”[6] e dos povos escravizados, para corroborar na construção caótica do Estado, da nação e do “homem brasileiro” nestas paragens. O cabra, o pardo, o negro e o mestiço pobre do Cariri como um todo seriam o “resíduo”, as sobras, a “borra” da fabricação do Estado nacional pelos interiores do nordeste do Brasil; uma “gentinha indesejada”, arruinada pelas secas, explorada pelos latifúndios, afugentada pelas polícias, e doutrinada pelas escolas e pelos padres e catequistas para aceitarem o sem lugar dentro do edifício de nossa sociedade.

O preconceito contra o índio, contra o negro e contra o pardo

Ainda segundo Catunda, o índio - de quem descende a grande maioria de nossa mestiça população - seria uma

Raça inferior, incapaz de produzir uma grande civilização e nem de [...] recebe-la, [pois] haviam os tupinambás atingido ao maior grau de cultura de que eram susceptíveis, o do período neolítico, perfeitamente caracterizado: andavam nus, caçavam, pescavam, tinham princípios de lavoura, e poliam a pedra de que faziam instrumentos. [...] Viviam em tabas (aldeias) formadas de ocas (casas) dispostas de modo a deixarem no centro uma grande área.[7]

É preciso que se diga com todas as letras que o Brasil, assim como o Ceará, nasceram casualmente arrastados pelas forças ligadas ao capitalismo mercantil, à modernização ocidental, a cristianização forçada dos povos nativos do Novo Mundo, e a afirmação do Estado-nação modernos nestes espaços. Ou dizendo com outras palavras, o Brasil enquanto “máquina governamental”, e o brasileiro enquanto “povo”, até bem pouco tempo antes de nossa independência política (em 1822) não foram pensados para si mesmos, existiram em função de gerar lucros e fiéis para a Europa (principalmente para Portugal, para a Igreja católica, e para a Inglaterra). Assim sendo o Brasil enquanto Estado e o brasileiro enquanto povo foram um “resíduo casual” da colonização capitalista, do escravismo moderno, da catequese dos povos americanos e do latifúndio monocultor.

O imaginário mestiço do sertão

Agora vamos tratar do imaginário espiritual dos povos do sertão do Cariri e de suas regiões satélites. De onde teria vindo a fé do sertanejo? Sabemos que ela veio, em sua maior parte, da tradição da Igreja Católica europeia. Mas um mistério maior nos desafia: Como este Homem do sertão, forjado pela Igreja católica e pelo Estado brasileiro para obedecer, para trabalhar nos latifúndios e para servir às elites como “a mula da sociedade”, de repente (em ocasiões como na Guerra de Canudos, ou na Sedição do Juazeiro, ou ainda na composição da Comunidade Igualitária do Caldeirão) pegou em armas e desafiou o status quo autorizado por sua fé, por seu “Deus” e por sua religião?

Isso só pode significar uma coisa: ao “consumir” a ideologia da catequese, ao se tornarem católicos praticantes, ao se deixarem aculturar, estes indivíduos - os mestiços do sertão do Cariri - acabaram por reeditar a fé católica, fazendo dela algo diferente do que lhes fora ensinado, algo novo, próprio da região; uma nova “fé mestiça”, única, mas escondida por trás do catolicismo tradicional. Uma fé politeísta sem deixar de ser monoteísta; uma fé local, sem deixar de ser cristã e universal; uma fé confusa, caótica, fetichista e animista (como o eram os costumes dos indígenas, dos portugueses e dos africanos, de onde ela teria tirado o seu “DNA bárbaro” e o seu caráter de religião peculiar) sem deixar de ser moderna, libertadora e contraditória.

Como era a visão de mundo repassada pela Igreja católica em seus sermões? A ordem social, a miséria de uns e a riqueza de outros, tudo era definido desde sempre pelo “piedoso Deus criador” em sua “infinita bondade”. Como disse o poeta Jose João dos Santos,

Jesus disse: o coração

Não se vê nem se conhece

E o homem nunca é

A pessoa que parece

E todo homem só tem

Aquilo que ele merece[8]

Ou seja, tradicionalmente podemos dizer que no senso comum nordestino, no seu imaginário cultural, a hierarquia mundana (que era um desdobramento da hierarquia divina), era o resultado direto da vontade de Deus na terra. Esta visão de mundo teve sua origem na Europa feudal, e veio com os colonos e com os padres nas caravelas, e fora transformada em pedra angular da moralidade e dos “bons costumes” nos sertões do Brasil. “Respeitar a propriedade”, fazer com que o índio e o cabra aceitem o seu lugar na sociedade sertaneja como sendo “uma coisa natural”, derivada da “vontade de Deus”, sempre foi a maior preocupação de qualquer catecismo e de qualquer padre do período colonial e do Brasil império. Sem isso os pobres não se prestariam a obediência; a propriedade da terra - tida como “sagrada” – seria posta em xeque, e o mundo mergulharia num “caos e numa anarquia” sem precedentes.

Pelo menos era isso que se pensava. Na sua essência, podemos dizer que a Igreja fornecia a ideologia alienante responsável pela aculturação e pelo conformismo dos indivíduos, e o poder político (o poder de punir, de administrar, de julgar e de prender) em geral estava entregue aos membros das famílias latifundiárias do sertão. Em cada fazenda, em cada vila, e em cada pequena cidade do sertão os “homens bons” (também chamados de “a melhor sociedade”, ou os “cidadãos”) eram a fonte do poder, da lei e da propriedade. Obedecê-los, diziam os padres da Igreja, era “a coisa mais natural do mundo”, porque assim que se cumpririam os “desígnios de Deus”. 

Vamos agora tentar pensar o mundo através dos olhos e da imaginação dos habitantes dos sertões do Cariri do final do século XIX e início do século XX. Promovamos então um esforço para nos despir do entendimento moderno da realidade, algo novo, herdado da leis de Newton e de Galileu Galilei. Na cabeça daqueles indivíduos, o mundo era “tridimensional”, haveria três dimensões da realidade: 1ª) a dimensão, ou a esfera, do mundo físico, onde moramos, 2ª) a dimensão do mundo espiritual (onde fica o Céu e o Purgatório), e 3ª) a dimensão do submundo (que fica no interior da Terra, e chamam-nas de Inferno). Estas três realidades existiriam simultaneamente, ocupando o mesmo espaço e os dois tempos (o tempo dos vivos, e o tempo dos mortos). O Inferno, assim como o Céu, era na cabeça dos sertanejos, um lugar real, para onde as almas condenadas por Deus, pelos santos, ou pela sua verdadeira Igreja iriam depois da morte. Seria o Submundo um ligar físico: “- Um vulcão ativo lá pelos lados de Jerusalém”, diziam os crentes, “de onde se pode descer aos Infernos, visitar a mansão dos mortos – como próprio Cristo o fizera em sua oração - e parlar com o próprio Demônio!”. Haveria, segundo Dante Alighieri, uma tabuleta sobre os portais do Inferno em que se lia a frase premonitória “- Ó vós, que entrais, por esta porta abandonai toda e qualquer esperança”.

Foto: O Inferno, Lisboa, século XVI, autor desconhecido.

Neste imaginário, a realidade mundana era metafísica, transcendente, pois sobreposto ao mundo material, haveria, invisível aos olhos nus, o mundo espiritual, onde coabitavam em diferentes planos os vivos e os mortos, os bons e os maus, e onde Deus, o Diabo, os demônios, os Anjos, os Arcanjos, os Santos e os profetas travavam uma luta feroz e imemorial pelas almas de todos os vivos e de todos os mortos. O Céu era habitado pelo Deus-pai, por Jesus Cristo, pela Virgem Maria, pelos santos, pelos anjos e pelas almas de todas as pessoas boas que já viveram; já na Terra ficavam todas as pessoas vivas, para “sofrer” e para “pagarem os seus pecados”; e no Inferno estavam as almas condenadas ao “fogo eterno”: os assassinos, os ladrões, os sodomitas, os fornicadores, os suicidas e todos aqueles que desobedeciam aos “bons patrões” e a “Sagrada Igreja de Cristo”. 

            Uma coisa é certa, a Bíblica Sagrada é um livro controverso, que possui máximas e lições de vida que podem levar os fiéis ora ao conformismo, ora a revolta armada, e ora ao milenarismo delirante. Há, em determinadas passagens do Evangelho, certos trechos que, ao longo da história ocidental, foram apropriados por líderes religiosos e políticos para promover certo “socialismo prático”, com a pregação da igualdade, da solidariedade e mesmo da revolta contra as injustiças. Duvida? Então vamos ler estres dois trechos do Evangelho de São Mateus, atribuídos a Jesus Cristo:

Bem-aventurado os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

Bem-aventurado os mansos, porque eles possuirão a terra;

Bem-aventurado os que choram, porque serão consolados;

Bem-aventurado os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos. [9]

O outro é muito mais curioso ainda; nele o próprio Cristo teria dito: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer-lhe paz, mas a espada”.[10] Assim, como podemos constatar, desde o início da história do cristianismo ocidental, a Bíblia Sagrada fora usada para promover o amor ao próximo, o perdão, a paz, o conformismo, e a misericórdia; mas também fora usada para promover a guerra, o ódio religioso e a escravidão (a sua interpretação revolucionária, ou conservadora, depende dos olhos de quem a lê). Além de São Francisco, que procurou no Livro Sagrado a humildade, a tolerância e o perdão, houve outros, como o Papa Gregório VIII, (organizador da terceira Cruzada, em 1192), Santo Inácio de Loyola (criador da Companhia de Jesus), e o Grande Inquisidor Tomás de Torquemada (1420-1498), que viram nela um receituário para perseguir, prender, torturar e assassinar opositores e dissidentes. Como é público e notório, a ideologia religiosa que se fundamentou numa “leitura conservadora” da Bíblia Sagrada chegou mesmo a defender durante a colonização da América a “naturalidade” e a sacralidade da escravidão. [11]

O povo produz seus santos: o “catolicismo vingador” e piedoso dos sertões

Não é certo imaginarmos que a população sertaneja apenas “consumiu” o catolicismo ministrado a eles pela Igreja e pelo Estado. Os homens e as mulheres do sertão – principalmente da região do Cariri e adjacências – souberam “consumir” o catolicismo e reeditá-lo de acordo com as suas realidades socais e culturais. Há no catolicismo popular nordestino, podemos dizer, certo “eco ancestral” do animismo e do fetichismo indígena e africano. Assim como subjaz certo “socialismo espontâneo” imbrincado nas entrelinhas dos Evangelhos. Duvida? É o próprio Cristo que nos disse: “- Se queres ser perfeito, vende o que tens, e dá-os aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me”.[12]

Munido desta interpretação peculiar das Escrituras, homens e mulheres como o Padre Ibiapina, Antônio Conselheiro, José Lourenço, Severino Tavares, Maria de Araújo e, até certo ponto, o Padre Cícero Romão Batista, reeditaram a fé popular para fazer dela uma arma ideológica a favor dos humildes e em sintonia com certo “socialismo prático” oriundo das Sagradas Escrituras.

         

Fotos de Padre Cícero, Beata Maria Araújo, Beato José Lourenço, Antônio Conselheiro[13]

Esta ideologia socialista que subjaz nas entrelinhas da Bíblia Sagrada, embora sendo negada e banida pelas Igrejas cristãs em geral, vez ou outra vem à tona na forma de movimentos messiânicos, milenaristas e salvacionistas. Fora assim com São Francisco de Assis, Santo António, São Cristóvão e no Brasil com Padre Ibiapina, Antônio Conselheiro, Padre Cícero, Beata Maria Araújo, Beato José Lourenço e outros “santos” e “santas” populares que ao longo das eras tem aflorado pelos interiores do Brasil como um todo. (É o povo se apropriando da leitura dos Evangelho, e rescrevendo a sua fé de acordo com as suas necessidades).

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé; [...]

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.[14]

            Sejamos sinceros, existiria manifestação mais autêntica de “comunismo espontâneo” do que os versos profundos da famosa Oração de São Francisco, estampados acima? Embora seja anacronismo de nossa parte imaginar que o Beato José Lourenço, assim como as populações miseráveis do Cariri, possam ter sido inspirados pela dita Oração, é evidente que a ela e o catolicismo popular sertanejo apresentam certo “socialismo espontâneo”, que faz subjaz quase invisível nas palavras de Jesus Cristo e em algumas passagens da Bíblia Sagrada. Como bem nos disse o poeta Patativa do Assaré,

Me chamar de comunista
é um crime é um pecado
é atravessar a pista
cego, surdo e aleijado
mas com pensamento nobre
o que defender o pobre
grande comunista é
pertencente a mesma lista
o primeiro comunista
foi Jesus de Nazaré.[15]

O estado varguista e a repressão aos costumes populares

            Dada a miséria humana, a exclusão latifundiária, as secas e o aumento populacional em todo o Brasil, o Nordeste “regurgita” pobres, atirando-os ora ao crime (no cangaceirismo), ora ao desespero (nas romarias “fanáticas”), ora às migrações para o Sudeste do país. Foi dentro deste horizonte social e político que o Brasil iria experimentar a Revolução de 1930 e o Estado interventorial de Getúlio Dorneles Vargas. Aos olhos do país inteiro, era preciso moralizar, disciplinar, submeter ou eliminar os focos de “fanatismo”, de banditismo e de “barbarismo” sertanejos. Para o governador Menezes Pimentel, “o Caldeirão era uma nova Canudos”, e precisaria ser desbaratado. Foi municiado desta visão preconceituosa, de certa indiferença para com o destino dos humildes, e de certa ideologia “fascista” de Estado que no dia 9 de setembro de 1936 uma tropa de 150 praças da Polícia militar, comandada pelo Tenente José Góis de Barros e pelo Capitão Cordeiro Neto invadiram e incendiaram, a mando do Governador Menezes Pimentel, os cerca de 400 casebres da comunidade do Caldeirão. [16] Por que tamanha truculência? Havia a ideia fascista de “higienizar os costumes populares”, intervir energicamente na cultura, na fé, nos costumes e na conduta de nossa população. O povo do nordeste era, aos olhos de seu próprio governo, uma “gentinha bárbara”, “incivilizada” e indigna de ser considerada cidadã. Era preciso intervir, “passar o Brasil a limpo”, construir campos de concentração[17] para conter os retirantes das secas, eliminar barbaramente os cangaceiros, e “higienizar” a fé sertaneja de suas “impurezas” oriundas do barbarismo do catolicismo popular.

            Foi dentro deste contexto, querendo “se vingar da polícia”, que havia destruído sua comunidade, que o penitente  milenarista Severino Tavares, contrariando a orientação pacifista de seu mentor, arregimentou cerca de 100 homens para emboscar o Capitão José Bezerra (um militar conhecido por “degolar cangaceiros” e por perseguir os discípulos do Beato) e a sua tropa. “Um golpe de foice pôs fim a vida de José Bezerra” e “a pauladas são mortos seus dois filhos e os soldados de nomes Benigno e Josafá”. [18]

            A reação do governo do Estado fora desproporcional e aterradora: auxiliada por três aviões monomotores com metralhadoras e lança-granadas a bordo, uma tropa de 200 militares, comandados pelo Tenente Abelardo Rodrigues e a mando do Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, do governador Menezes Pimentel e do próprio presidente Getúlio Vargas ordenaram o massacre dos sobreviventes da comunidade liderada pelo Beato José Lourenço. Segundo os dados oficiais, foram mais de 400 mortos (os populares da época falaram em mais de 700). Mas, por pura sorte, Jose Lourenço Gomes da Silva escapou ileso, e pôde viver o bastante para nos contar a sua história. Tendo migrado para Exu, em Pernambuco, lá reconstruiu a sua vida, indo morrer dez anos depois, aos 75 anos de idade, de beste bubônica. Segundo Airton Farias, “O corpo de Zé Lourenço foi conduzido por uma multidão para Juazeiro”, a terra Santa do “Padim Ciço”. Mas, segundo a tradição oral, o padre da cidade, o monsenhor Joviniano Barreto, ao ver o caixão com o Beato dentro teria dito ao povo que o velava: “Eu não celebro missa para bandido”. [19] E a multidão aos prantos procurou os bosques e os descampados da Serra do Araripe, os subúrbios desabitados e verdejantes do Crato e do Juazeiro, e lá, onde havia um cemitério clandestino, depositou contrita o caixão magro com o corpo de seu último “homem santo”. Era o fim de uma era para o catolicismo popular nordestino. Ou será só o começo?

 

[1] Raimundo Alves de Araújo é professor de História da rede pública do estado do Ceará, possui graduação em história pela UVA, metrado em História e cultura pela UECE, e atualmente é doutorando em História social pela UFF.

[2] Farias, Airton de. História do Ceará. 7ª ed. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2015, p. 422.

[3] Vieira, Antônio. Escritos instrumentais sobre os índios. Org. José Carlos Sebe Bom Meily. São Paulo: EDUC, 1992. p. 4.

[4] ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de Viagem de Francisco Freire Alemão: Crato-Rio de Janeiro, 1859/1860 - v. 2. Fortaleza: Museu do Ceará, Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, 2007; p. 53.

[5] Catunda, Joaquim. Estudos de história do Ceará. Typo-lito: Fortaleza, 1919. p. 31. Em seu livro Joaquim Catunda deixa-nos um repugnante e intolerante depoimento acerca dos povos nativos do Ceará, onde os responsabiliza pelo “atraso” e pela “miséria” do Estado. O curioso é que o autor em questão, embora sendo um membro das elites interioranas (oriundo da região de Sobral), era também um homem mestiço, com abundante sague indígena em sua família. A fala de Catunda ilustra cabalmente o tratamento de “desprezo” e a “indiferença governamental” com a qual os governos do Ceará e do Brasil historicamente têm tratado estes povos e os seus descendentes.

[6] Prefiro me referir ao homem do sertão do nordeste do Brasil de antes do processo de nossa Independência política como “pré-brasileiro” por uma razão simples: os negros, os pardos, os indígenas e os pobres em geral no máximo eram uma “massa inumana” a ser explorada pelos latifúndios, e o governo não os via como sendo eles partes respeitáveis e legítimas do “povo brasileiro”. O “povo brasileiro” era enxergado como sendo a elite branca, de origem europeia, e proprietária de terras. O restante da população era uma “ralé imunda”, indesejada, temida, odiada e policiada pelo Estado, pela igreja e pelas elites fundiárias do sertão.

[7] Catunda, Joaquim. Estudos de História do Ceará. Typo-lito: Fortaleza, 1919. p. 25-26. A grafia foi atualizada.

[8] Santos, José João dos (mestre Azulão). O homem do arroz e o poder de Jesus, p. 6.                                                 

[9] Bíblia Sagrada, Novo Testamento, Mateus, cap. 5.

[10] Idem, Mateus, cap. 10.

[11] Segundo Ernst Cassirer, esta leitura conservadora” dos Evangelhos teria vindo de Aristóteles, e fora adaptada pelos teólogos da Igreja para o cristianismo medieval e moderno. Ver: Cassirer, Ernst. O mito do Estado. Trad. Álvaro Cabral. Editora Zahar: Rio de Janeiro, 1976; p. 117.

[12] Bíblia Sagrada, Mateus, cap. 19.

[13] Fotos de domínio público, disponível em Google.com.br 

[14] Oração de São Francisco. Segundo a Wikipédia, a famosa oração de São Francisco é uma canção de autoria desconhecida, erroneamente atribuída ao próprio santo; segundo pesquisadores, ela foi escrita no início do século XX, tendo aparecido inicialmente em 1912 num boletim espiritual em Paris, França. Fonte: https://pt.wikipedia.org

[15] Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=JbMMgEjehiI

[16] Farias, op. cit. p. 424.

[17] Sobre isso ver: Rios, Kênia Sousa. Campos de concentração no Ceará: isolamento e poder na seca de 1932. Fortaleza, Museu do Ceará/Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2001.

[18] Farias, op. cit. p. 427.

[19] Id, ibid, p. 431.

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