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Do livro "Ipu do meu xodó", autor: João Mozart da Silva (Mouzinho)

“Gabinete de Leitura Ipuense – 1919”

         Aqueles mesmos homens de letras elencados anteriormente fundaram nesta cidade de Ipu uma sociedade denominada Gabinete de Leitura Ipuense, constituído de uma diretoria que, em sua reunião primeira, decidiu que cada associado deveria contribuir com certa quantia, todos os meses, a fim de fazer face às despesas com a aquisição de livros.

            O Gabinete ficou instalado em um salão grande na casa em que residiu o nosso ex-vigário, padre Francisco Máximo Feitosa, de saudosa memória. Rapidamente foram adquiridas dezenas de livros e algumas estantes para guardar o acervo. Servia de contínuo o insuportável garoto Xavier Timbó, encarregado de abrir, varrer, espanar, apanhar café para os presentes e, às nove horas da noite, fechar tudo.

            Aquele era o ponto onde, todas as noites, reuniam-se as pessoas de destaque da cidade para uma boa leitura de jornais, livros e revistas. Vez por outra as notícias estampadas nos periódicos eram analisadas detidamente pelos presentes. Existia um livro, grande e volumoso, para coleta de assinatura dos associados que frequentavam a casa com assiduidade, bem como dos visitantes, que deixavam ali, além de suas rubricas, as impressões sobre aquele centro literário.

            Era acolá, nas suas cadeiras cativas, que Thomaz Correa, Abílio Martins, Manoel Dias, Chagas Pinto, Bessa Guimarães, Manuel Bessa, Joaquim Lima, Souto Maior, Euzébio de Souza, Léo Martins e tantos outros desabrocharam seus instintos de cortar e picar miúdo a vida dos semelhantes. Em certas ocasiões, nem o vigário da freguesia escapava. Abílio, o mais astucioso, de corpo presente cortava a vida amorosa de Thomaz Correa, deixando-o praticamente no chão. Seu Thomaz, num balanceio de cabeça, nunca se defendia das ofensas. Mas vez por outra, dizia baixinho e à queima-roupa: “Quando é que tu vais criar vergonha, Abílio?”.

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