Artigos

Cláudio César Magalhães Martins

Titular da Cadeira nº 11

C E G U E I R A    D E L I B E R A D A

 

            A cegueira deliberada pode ser definida como uma atitude que se recusa a aceitar fatos incontestáveis como provas que contradigam acontecimentos que

vão de encontro ao interesse de pessoas ou autoridades de qualquer escalão.

            O primeiro exemplo de cegueira deliberada pode ser encontrado nos primórdios do Cristianismo, quando Jesus Cristo foi rejeitado como Filho de Deus, não obstante os milagres extraordinários que realizou, dentre os quais sua própria ressurreição. Com efeito, no evangelho de Mateus está escrito que os chefes dos sacerdotes e os anciãos subornaram os guardas que lhes foram comunicar que Cristo havia ressuscitado, com grande soma de dinheiro para que espalhassem a mentira de que, enquanto dormiam, os discípulos roubaram o corpo. Os soldados cumpriram à risca tal determinação. E, assim, tal boato se espalhou entre os judeus até os dias de hoje. (Ver Mt 28, 12-15)

            Outro caso de cegueira deliberada ocorreu quando o cientista Galileo Galilei comprovou cientificamente a teoria heliocêntrica, ou seja, que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário, como se acreditava em sua época. Perante o Tribunal do Santo Ofício, o cientista defendeu sua teoria, convidando os inquisidores a ver, no telescópio, a prova do heliocentrismo. Estes se recusaram a aceitar o convite como forma de manterem seus pontos de vista favoráveis ao geocentrismo.

            No Brasil atual podem ser apontados vários casos de cegueira deliberada no âmbito da Justiça.

            A recente absolvição da chapa Dilma/Temer é um caso exemplar. Não obstante a apresentação de fartas e robustas provas que levariam inevitavelmente à condenação da referida chapa, a maioria dos juízes do TSE optou por absolver os dois réus. Tal despropósito levou um comentarista político a dizer ironicamente que, pela primeira vez, observava uma absolvição por “excesso de provas.”

            Semana passada, o presidente do Conselho de Ética do Senado, João Alberto de Souza (PMDB-MA), mandou arquivar uma representação contra o senador Aécio Neves, alegando que não havia provas suficientes para incriminá-lo. Ignorou o conselheiro a delação premiada de Joesley Batista, que incrimina fortemente Aécio, apresentando, em detalhes, a propina de R$ 2 milhões que lhe foi concedida a seu pedido.

            Ante o exposto, conclui-se que a cegueira deliberada é mais frequente do que se pensa, quando os interesses dos poderosos estão em jogo. Tal atitude, a meu ver, configura um crime, passível de penas compatíveis com a gravidade de que se reveste tal delito.

Mais artigos do Autor.